A bancocracia Grega

Há algum tempo tenho feito algumas análises sobre a situação econômica da Grécia e o impacto social causado pela submissão do país aos imperativos das instituições financeiras internacionais (cf. 'Os efeitos da crise na Grécia' e 'O povo grego contra os planos de austeridade').

Os acontecimentos dessa semana merecem mais alguns comentários.

Na última quarta (11/05), os gregos foram novamente às ruas para protestar contra os planos de austeridade em vigor no país. Além das centrais sindicais, participaram docentes, equipes médicas, trabalhadores dos transportes públicos e jornalistas. Veja abaixo um pouco da movimentação na capital Atenas (o vídeo da Al Jazeera não mostra cenas do confronto de alguns manifestantes com a polícia grega, mas dá pelo menos um panorama geral da greve).



A situação no país é alarmante. Luis Nagao, numa matéria publicada hoje no Outras Palavras, explica de que forma o empréstimo do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu não resolveu o problema financeiro da forma esperada: "A débil Grécia era o animal doente do rebanho. Precisou oferecer taxas de juros de 12,3% ao ano – um escândalo, considerados os padrões europeus – para manter a rolagem de seus compromissos. Em maio de 2010, sufocada, chegou à beira da falência. O BCE e o FMI ofereceram o resgate: um empréstimo de 110 bilhões de euros, a juros mais baixos. Exigiram, em contrapartida, o sacrifício social. Imaginavam que, ao arrecadar mais e gastar menos, o Estado grego pudesse reservar mais recursos para juros e amortização da dívida. Esta aritmética avarenta e primária não levava em conta outros fatores. O empobrecimento da população deprimiu o consumo e fez despencar a arrecadação de impostos. O corte de investimentos públicos aprofundou o abismo. Um ano depois, a Grécia está de volta às cordas. Boa parte dos 110 bilhões de euros foi consumida – mas sua dívida subiu para € 327 bilhões. Os mercados ampliaram a exigência: agora, só rolam os títulos do país cobrando juros de 15% ao ano. Que fazer? O FMI e o BCE pedem mais do mesmo: uma nova passada de chapéu entre os países (e contribuintes…) europeus reuniria recursos necessários para mais um “resgate”. As contrapartidas exigidas dos gregos seriam ainda mais drásticas: privatizações em massa – inclusive das ferrovias e sistema elétrico – para arrecadar até € 50 bilhões. Venda ou aluguel dos próprios prédios públicos. Demissão de 30 mil servidores".

Aos poucos, seguindo o exemplo da Islândia, o movimento "nós não vamos pagar" ganha força. Nos protestos, o povo grita em coro: "Δεν θα πληρώσουμε εμείς", na complicada língua de Sócrates.

A progressiva insatisfação dos atenienses revela alguns sinais do que possivelmente está por vir em alguns países europeus. O que quero dizer com isso? Bom, ao meu ver, a Grécia é, na Europa, o país com o maior potencial para o ressurgimento de movimentos revolucionários comunistas, apesar do pequeno poder destes grupos perante a força do Estado grego, equipado com o aparato policial repressivo da União Europeia.


Depois de 144 anos, parte da população grega começa a enxergar que talvez Karl Marx esteja certo, ao menos com relação ao efeitos nefastos do surgimento da "bancocracia" (como reflexo do modo de produção capitalista). No capítulo 31 de O Capital, Marx escreve: "A dívida nacional, ou seja, a alienação do Estado - seja despótico, constitucional ou republicano - marcou com seu selo a era capitalista. A única parte da então chamada riqueza nacional que realmente entra na posse coletiva dos povos modernos é sua dívida nacional. Tenha em mente, como uma consequência necessária, a doutrina moderna de que uma nação se torna mais rica quanto mais profunda for sua dívida. O crédito público torna-se o credo do capital. (...) A dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva. Tal como o golpe de uma varinha encantada, ela dota o dinheiro estéril com o poder de criação e, assim, transforma-o em capital, sem a necessidade de expo-lo aos problemas e riscos inseparáveis de sua aplicação na indústria ou mesmo na usura. O estado credor de fato não dá nada, pois a quantia emprestada é transformada em títulos públicos, facilmente negociáveis, que continuam a funcionar em suas mãos tal como o hard cash faria. Mais além, a par da classe de pensionistas preguiçosos ali criada, e da improvisada riqueza dos financistas, os intermediários entre o governo e a nação - bem como a par dos agricultores, comerciantes, industriais, para os quais boa parte de todo empréstimo nacional serve como um capital caído do céu - a dívida nacional deu origem a sociedades anônimas, a relações de efeitos negociais de todos os tipos, e à agiotagem, numa só palavra, a apostadores da bolsa de valores e à bancocracia".

Como disse Dimitris Antoniou na entrevista do vídeo acima, "parece que nós não temos a propriedade de nosso país". Ele pode estar certo. Nessa perspectiva marxista, a única posse do povo grego é, de fato, sua interminável dívida pública.

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