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Rene Magritte, The Sensational News (1926). Fonte: Wikiart |
É preciso uma leitura clara da movimentação europeia em torno do combate a fake news, das iniciativas brasileiras e suas deficiências democráticas e os alertas da sociedade civil sobre riscos gerado por respostas populistas, demagógicas e simplificadoras.
Esse desejo de mudança jurídica precisa ser compreendido dentro de um quadro maior, no qual se visualiza a mobilização de políticas antitrustes (direito concorrencial) para mitigar os monopólios dos mercados digitais e tentar fortalecer o surgimento de empresas europeias na camada de aplicações de internet (ver 'Monopólios sociais: é hora de enfrentar Google e Facebook?'). Em outras palavras, há uma tendência de redesenho das normas aplicáveis às grandes empresas de aplicações de internet, incluindo aí as redes sociais. O debate sobre fake news acelera essa tendência por um novo viés.
Para além da substância, o processo conduzido pelos europeus é notável.
Em maio de 2017, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, enviou uma carta aberta para a comissária de Economia Digital, Maryia Gabriel, pedindo que a Comissão analisasse "os desafios que plataformas online criam para nossa democracia com relação à disseminação da informações falsas" e iniciasse "uma reflexão sobre o que poderia ser feito no nível da União Europeia para proteger nossos cidadãos".
Primeiro, a transparência sem a qual os cidadãos não podem fazer escolhas informadas. Os atores que querem magoar não gostam da luz. Esta transparência deve ser capaz de se referir aos fluxos financeiros, às fontes de informação, aos mecanismos de fabricação e difusão da informação. Em segundo lugar, a diversidade de informações: o tempo da informação monolítica acabou e a diversidade de informações é o combustível do pensamento crítico e do julgamento esclarecido. Essa diversidade não deve ser reduzida por homens ou máquinas. Em terceiro lugar, tendo a capacidade de caracterizar a credibilidade da informação: para os usuários, o acesso não só à informação, mas também a uma indicação da credibilidade dessa informação é essencial. Finalmente, qualquer análise deve valorizar soluções inclusivas. Como todos sabemos, nenhuma solução a longo prazo será possível sem o maior envolvimento das partes interessadas (tradução do original em francês).
Claramente, há uma preocupação com a legitimidade da formação do painel e com o "maior envolvimento das partes interessadas". Esses processos transparentes e auditáveis são fundamentais para a democracia.
Em que pese as notícias falsas serem um fenômeno nocivo para a democracia e para o direito de acesso à informação,e que precisa ser combatido, inclusive no contexto de possíveis influências em processos eleitorais, atribuir ao Exército e às forças de segurança a tarefa de monitorar conteúdos na Internet é uma medida inadequada e que traz sérios riscos à liberdade da expressão dos usuários. As Forças Armadas não podem monopolizar o controle da veracidade dos fatos porque 1) não possuem essa competência constitucional; 2) não têm as condições técnicas para isso; 3) não detêm o conhecimento para distinguir fake news; e 4) não são neutras na política. Para piorar, essas instituições deixaram violentas e profundas marcas na história recente do país ao promoverem o cerceamento da liberdade de expressão e de manifestação dos brasileiros/as durante a ditadura civil-militar.
O Conselho está subordinado ao Gabinete do Presente do Tribunal Superior Eleitoral e tem como atribuições: "(i) desenvolver pesquisas e estudos sobre as regras eleitorais e a influência da Internet nas eleições, em especial o risco das fake news e o uso de robôs na disseminação das informações, (ii) opinar sobre as matérias que lhe sejam submetidas pela Presidência do TSE; (iii) propor ações e metas voltadas ao aperfeiçoamento das normas". Coordenado por Luciano Fuck, da Secretário-Geral da Presidência do TSE, o Conselho tem como integrantes Frank Oliveira, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e o General Jayme Queiroz, do Centro de Defesa Cibernética do Exército. Pela sociedade civil, foram chamados Thiago Tavares, da SaferNet e Marco Aurelio Ruediger, diretor de estudos de políticas públicas da Fundação Getulio Vargas.
É notável a diferença do processo brasileiro com o europeu. Ao passo que os europeus optaram por levar a questão para o nível da Comissão Europeia, envolvendo representantes eleitos pela população para composição de um painel de experts participativo e auditável, o Judiciário, por meio do Tribunal Superior Eleitoral, optou por parcerias obscuras com o Exército e com a formação, de cima para baixo, de um conselho consultivo.
Quais os critérios de seleção do conselho consultivo? Por que representantes da Safernet foram escolhidos e não do InternetLab, por exemplo? São questões não respondidas em razão da fragilidade democrática desses processos.
Redirecionando as narrativas em torno das fake news
As declarações mais perigosas sobre medidas jurídicas de combate à desinformação são provenientes de membros da Polícia Federal. Em dezembro do ano passado, o delegado Eugênio Ricas defendeu "usar a Lei de Segurança nacional para combater as fake news", resgatando tipos penais criados pela Lei 7.170, de 1983, em uma mentalidade anti-terrorista da ditadura civil-militar.
Em janeiro, o diretor da Polícia Federal nomeado pelo governo Temer, Fernando Segovia, firmou um obscuro termo de cooperação com o Federal Bureau of Investigation (FBI) dos EUA para montar um "grupo de trabalho de combate à fake news". A narrativa da Polícia Federal é de urgência para mudanças legais e cooperação internacional na esfera criminal. Segovia também tem pressionado Luiz Fux, futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, para uma agenda reformista de combate à desinformação.
O posicionamento do Tribunal Superior Eleitoral ainda é fragmentado, sendo mais fácil identificar a posição de alguns de seus ministros. No Fórum Internet e Eleições, o ministro Gilmar Mendes fez uma descrição mais ponderada do cenário brasileiro, considerando a antiguidade do problema da desinformação e o uso de "ética e bom senso":
Hoje temos uma realidade de uso da internet como arma de manipulação do processo político. Essa é a realidade que teremos que lidar no ano que vem. No entanto, é preciso ficar claro que esse processo não é novo. Isso sempre existiu. Na história da Roma antiga, houve experiências de fake news. No século XX, os nazistas levaram a fake news a um padrão industrial. No Brasil, também tivemos diversas experiências históricas de manipulação e desinformação. (...) Com a internet e as redes, a disseminação dessas informações passou a ser mais rápida, quase que instantânea, mais fácil, mais barata. Temos que lidar com esse cenário novo. (...) Hoje são mais de 3 bilhões de pessoas nas redes sociais. 40 por cento da população mundial usam tais redes. 79% da base de usuários de internet no Brasil estão nas redes sociais. (...) Não há como desconsiderar essa realidade. Temos os exemplos recentes das eleições americanas e francesas, bem como o plebiscito da Inglaterra. Sabemos que as redes sociais impulsionaram boatos, factóides e pós-verdade nessas campanhas. O Facebook teve grande papel na vitória de Trump nos EUA. O direito eleitoral precisa lidar com isso: crowdfunding, campanhas privadas, manifestação política na internet, entre tantas outras questões que serão debatidas. (...) Precisamos estar preparados para isso e participar ativamente desse processo. Felizmente, nós temos velhas armas para lidar com isso: bom senso, ética e cuidado do próximo e, acima de tudo, o senso de justiça e legalidade.
Em uma fala que sintetizou muitos dos argumentos levantados pela sociedade civil, o jornalista Jonas Valente, do Intervozes, problematizou o uso dos robôs (bots) e criticou a legalização do "impulsionamento" via Facebook na reforma eleitoral realizada em 2017, exigindo soluções de transparência pelas plataformas:
Os robôs em si não são um problema. Os órgãos públicos usam robôs. Empresas usam robôs para atendimento. Mas, infelizmente, os robôs foram apropriados para o uso de propaganda política e isso é extremamente vinculado à disseminação de notícias falsas. Como então os cidadãos poderiam monitorar os robôs? Há metodologias? Sim, dentro dos centros especializados. Como que um cidadão comum poderia identificar se o robô é robô ou não? (...) Outro problema é o do candidato de muitas caras. Com o impulsionamento, como que nós vamos evitar opacidade no debate público? Cada vez menos saberemos como serão os debates e agendas em disputa. (...) Nós não podemos demonizar as plataformas. O Facebook divulgou o Update on Advertising and Transparency. Há várias medidas interessantes: como permitir que qualquer cidadão, ao entrar em uma página, possa acessar todos os anúncios que aquela página fez.
Na mesma linha anti-punitivista, Thiago Rondon, do IT&E, defendeu que robôs podem executar tarefas excelentes, podem auxiliar no acesso a direitos e podem auxiliar no debate público. O ponto central, para ele, é pensar na infraestrutura por trás dos bots e em técnicas de compreensão do modo de operação dos robôs. Essas técnicas, por exemplo, seriam capazes de identificar a operação de robôs baseados em informações de redes sociais. Seria possível, também, criar bots de aprendizado mecânico que pudessem pesquisar e contra-argumentar notícias falsas. Por fim, Rondon argumentou que não é o Tribunal Superior Eleitoral, sozinho, que será capaz de solucionar o problema da desinformação em períodos eleitorais.
Transparência, uso de dados pessoais e o movimento "Não Vale Tudo"
Em uma rica entrevista concedida para a CBN em novembro de 2017, o professor Ricardo Abramovay -- conhecido sociólogo e pesquisador sênior da Universidade de São Paulo -- tratou de dois problemas centrais nesse cenário eleitoral de surgimento de empresas especializadas em psicometria e influência política dos cidadãos: o que ele chamou de "ocupação das mentes e dos espaços mentais" por sofisticadas técnicas de análise de dados pessoais e construção de narrativas; e a necessidade de uma ampla discussão sobre os usos éticos da tecnologia. Ao ser questionado sobre o caráter distópico das tecnologias, Abramovay argumentou:
A solução para isso se chama transparência. (...) Na política, isso vai ser muito importante. Identificar quem está fazendo a propaganda, quem o financia, quanto foi pago. O Tribunal Regional Eleitoral tem que assumir esse papel. Primeiro, você tem que aumentar a consciência do cidadão e a capacidade de fazer boas perguntas: a mensagem que eu recebi é de um humano ou de um robô? Nas eleições brasileiras, nós temos que evitar o que aconteceu nos EUA, que é a presença enganosa de protagonistas eleitorais que não são cidadãos. (...) Há muitas empresas investindo em coleta e interpretação de dados pessoais. O que não é legítimo é que isso seja feito de maneira opaca e não transparente. A internet tem que ampliar a transparência de nossas vidas, mas o modelo que domina hoje é o contrário. Eu não entendo como funcionam os algoritmos. Eu não entendo por que certas notícias que eu recebo no Facebook são essas ou são aquelas. Essa arquitetura da nossa relação pela internet tem que mudar. (...) O que nós temos que reprimir não são as ideias, mas sim a opacidade, a mentira, aquilo que se esconde.
O combate à opacidade é uma das principais bandeiras de um movimento civil criado para garantir maior centralidade à transparência e uso ético das tecnologias em períodos eleitorais. Em uma carta assinada por mais de 30 organizações civis, o movimento Não Vale Tudo faz as seguintes ponderações:
Nós precisamos conhecer como estamos usando a tecnologia na política e nos responsabilizar coletivamente pelas consequências destes usos. As novas tecnologias devem representar uma oportunidade para um debate mais amplo, consciente e um campo fértil para inovação política. Precisamos informar, mobilizar e sensibilizar para que estas novas tecnologias sejam utilizadas a favor da construção de uma democracia mais aberta, participativa e justa. Nós não toleramos a produção e disseminação de notícias falsas. Quem as cria, promove a mentira e manipula os cidadãos em torno de interesses particulares e desonestos. Vinda por veículos tradicionais ou inovadores, a informação de qualidade deve ser um direito garantido a todas e todos os participantes de uma discussão política, seja qual for o lado. Nós acreditamos em informações cujas fontes estejam claras, cujos autores e veículos estejam evidentes. Desta forma, saudamos e encorajamos todas as iniciativas de verificação de fatos, dados e informações e de fortalecimento do jornalismo ético e transparente com suas posições políticas conduzidas hoje no Brasil. Nós acreditamos que informações detalhadas sobre o uso de tecnologias para fins eleitorais devem ser de conhecimento público, tais como softwares, aplicativos, infraestrutura tecnológica, serviços de análise de dados, profissionais e empresas envolvidas na construção e consultoria da nossa campanha. Além da prestação de contas financeira com doações e fornecedores, é necessário também uma transparência detalhada das tecnologias utilizadas em uma campanha.
Além da oportunidade de mudança de comportamento empresarial e dos políticos por um uso mais ético das tecnologias -- algo reforçado até mesmo pelo Papa Francisco em comunicação escrita aos jornalistas na Jornada de Comunicação Social da Igreja Católica --, há perspectivas otimistas de utilização desse momento para uma transformação social mais profunda no modo como consumimos informação. Conforme nos lembra João Paulo Charleux, do jornal Nexo, pesquisadoras como Nunia Fernandez acreditam que o debate sobre as “fake news” trouxe consigo a "oportunidade de impulsionar, sobretudo entre as crianças e jovens, o estudo sobre as formas de produção, de disseminação e de consumo das notícias no mundo hoje". Nas palavras de Fernandez, "é preciso empoderar os cidadãos e facilitar que eles adquiram as competências básicas para que possam ter acesso, que possam compreender, analisar, avaliar e produzir conteúdo, e para distinguir entre notícias reais e notícias falsas. A democracia sairá reforçada de todo esse processo, ao construir uma cidadania informada, que possa tomar decisões livremente".
A questão vai muito além de mudanças jurídicas ou propostas criminalizadoras. A abordagem policialesca sendo construída no Brasil mostra-se claramente limitada. O que faremos agora com o problema da desinformação traz grandes questões normativas sobre nossas crenças na democracia e na responsabilização coletiva por processos eleitorais mais éticos e transparentes.
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