Publicado originalmente em Outras Palavras em 30 de junho de 2017
Essa semana, Google e
Facebook – dois dos maiores gigantes do capitalismo de vigilância contemporâneo
– sofreram duros golpes em suas reputações corporativas, abrindo um debate
mundial sobre a ética de suas ações e as vulnerabilidades de nossa dependência
a esses monopólios da era digital.
Na terça-feira (27/06), a
Comissão
Europeia impôs uma multa de quase 9 bilhões de reais ao
Google por “abuso de posição dominante como motor de busca” e “por dar vantagem
ilegal a seu próprio serviço de compras comparativas”. Trata-se da maior
punição antitruste a uma única empresa já realizada na Europa.
Em anúncio realizado por Margrethe
Vestager, forte liderança do Partido Social-Liberal da
Dinamarca e responsável
pelas investigações de defesa da concorrência na Comissão Europeia,
demonstrou-se que o Google colocava
sistematicamente em lugar destacado seus próprios serviços de compras
comparativas, “colocando em lugar pior os serviços de comparação rivais nos
resultados de busca”. Para a Comissária, o Google “ocupa uma posição dominante
nos mercados de busca de Internet no Espaço Econômico Europeu” e, com suas
práticas de manipulação, “abusou da posição dominante dando a seus próprios
serviços uma vantagem ilegal”.
Em um processo
de investigação sigiloso, realizado desde 2014, Vestager
reuniu um amplo conjunto de provas, incluindo 5,2 terabytes de resultados de
busca (1.700 milhões de consultas), experimentos e estudos que demonstravam a
visibilidade e o comportamento de consumidores em número de cliques, dados
financeiros da Google e seus competidores e o declínio de acessos em websites
europeus.
Para analistas
do Financial Times, a decisão é um
divisor de águas na regulação antitruste aplicada à “nova geração de empresas
de tecnologia dominantes dos Estados Unidos”. Um terço da receita do Google com publicidade
em buscas na Europa vem dos anúncios de compras que foram analisadas pela União
Europeia. A decisão, enfim, “abre o coração do mecanismo de busca do Google” e
possibilita o debate sobre como outros poderão utilizar seu mecanismo para
conseguir uma melhor exposição.
Para quem se recorda do
chamado
de Richard Sennett de 2013 para “quebrar o poder de mercado
do Google”, a decisão reabre um debate sobre monopólios na era digital. “A
dominação é real e deve ser combatida”, dizia Sennett, por mais que essas
empresas nos pareçam boazinhas.
De acordo
com a denúncia do ProPublica,
os algoritmos – fórmulas matemáticas que executam ações e comandos – do
Facebook geram resultados socialmente questionáveis, assegurando os direitos de
grupos com posições sociais asseguradas (e.g.
homens brancos) e desprotegendo grupos minoritários (e.g. crianças negras). Documentos internos vazados da empresa
mostram que revisores de conteúdo eram orientados a trabalhar com uma fórmula
simples (protected category + attack =
hate speech). “Sexo” e “identidade de gênero”, por exemplo, são
consideradas categorias protegidas, ao passo que “idade” e “ocupação” não. Como
a fórmula exige uma dupla combinação de categorias protegidas (PC + PC = PC), discursos voltados a
mulheres motoristas não são considerados de ódio, pois há uma categoria não
protegida, que é ocupação (PC + NPC = NPC).
O simplismo de fórmula
matemática do Facebook e a tentativa de “proteger todas as raças e gêneros de
forma igual” despertou a crítica de acadêmicos. Denielle Citron, da
Universidade de Maryland, argumentou que as regras do Facebook ignoram o espírito
do direito e a análise contextual da proteção. O Facebook saiu em defesa
própria, alegando que as políticas não possuem resultados perfeitos e que é
“difícil regular uma comunidade global”.
Em ensaio para revista
Wired, Emily Dreyfuss analisou a denúncia da ProPublica e argumentou que o
problema é maior é que o
Facebook é “muito grande para ser deletado”. Ao conectar um
quatro da humanidade, as pessoas que precisam de uma plataforma para expressão
não são capazes de sair – mesmo se forem alvos de censuras arbitrárias ou
desproteções, como o caso dos algoritmos de “discurso de ódio”.
Isso leva a uma
situação paradoxal. Ativistas em defesa da privacidade e lideranças do
movimento negro – que atacam práticas realizadas pelo Facebook, como coleta
massiva de dados e tratamento tecnológico desigual para brancos e negros –
dependem do Facebook para compartilhar informação, pois as perdas são muito
grandes ao deletar sua conta e isolar-se da rede de Zuckerberg. “São poucos os
que podem se dar ao luxo de abandonar o Facebook e utilizar outras redes”, afirma
Dreyfuss.
Retomamos, assim, à
grande provocação de Richard Sennett: se sabemos que esses gigantes devem ser
quebrados e se estamos cientes dos aspectos prejudiciais desses monopólios
sociais, o que podemos fazer?
A The Economist, em
matéria de capa no mês de maio, surpreendeu os
progressistas ao oferecer uma crítica ao poder do Google e Facebook (Regulating the internet giants: the world’s
most valuable resource is no longer oil, but data). A revista inglesa
argumentou que é necessário “repensar radicalmente” os instrumentos antitrustes
para os gigantes de coleta de dados (Google e Facebook), pois os reguladores
ainda estão presos a conceitos de era industrial, ao passo que os instrumentos
de análise devem ser voltados a empresas de tecnologia focadas em dados.
A Economist também propôs duas ideias embrionárias: aumentar a
transparência sobre como os dados pessoais são coletados e monetizados
(aumentando poder de barganha dos “fornecedores” – ou seja, nós mesmos) e redefinir
conceitos jurídicos aplicáveis a essa nova indústria, tratando os data vaults (bancos de dados modelados
para fornecer armazenamento histórico de longo prazo) como “infraestrutura
pública”, forçando o compartilhamento de dados para estimular a competição.
Seriam ideias viáveis? Talvez. O mais importante, nesse momento, é mobilizarmos essas perguntas e forçarmos uma discussão sobre alternativas políticas e institucionais.
Rafael,
ResponderExcluirVocê teve acesso à decisão que condenou o Google ? Poderia postar um link ?
Obrigado