Compreender a crise que não sentimos

Tenho despendido muita energia intelectual para entender o que se passa na Europa e nos Estados Unidos em termos econômicos, políticos e sociais. Não sei se vale a pena o esforço analítico voltado à crise, afinal, por que se preocupar com o que se passa lá? Não seria mais adequado focar no local, na América Latina e no Brasil? Não é excitante viver no país que irá se tornar, no final de 2011, a 6ª economia do mundo? Qual a razão de olhar para fora?

Não sei. Mas o fato é que não consigo ignorar alguns aspectos gritantes da reestruturação pós-crise de 2008. Está muito claro que o clima de instabilidade social é enorme no Velho Mundo e no país que venceu a Guerra Fria (ícone da democracia liberal estruturada no capitalismo de massa). Novos movimentos organizados em rede, como o 15-M na Espanha, o Occupy Wall Street e o Occupy Oakland - oprimidos violentamente pela polícia (alguém viu a covardia da ação policial ao jogar uma bomba num grupo de pessoas que tentavam socorrer um manifestante baleado na cabeça?) -, buscam a criação de espaços para a discussão substancial de novas formas de participação política e democracia real numa nova economia, existente apenas no plano imaginário. Esses fenômenos, somados a tantos outros protestos anti-sistêmicos (o que optei por chamar provisoriamente de "indignação globalizada"), estão todos ligados aos limites e falhas da ortodoxia econômica que levou à desregulamentação de um complexo sistema financeiro e bancário em escala global, algo que é pouco compreendido pela população (cf. o didático vídeo francês 'Compreender a Dívida Pública').

A crise é intensa lá fora. Em conversas com amigos sempre repito os dados da Espanha, pois considero os mais assustadores. O governo anunciou que a taxa de desemprego está em 21.9%. E mais, entre jovens de 20 a 30, a taxa está em 46,8%. Isso significa que se eu fosse um jovem espanhol e tivesse nove amigos, provavelmente eu e mais quatro estaríamos desempregados, mesmo buscando qualquer tipo de serviço, como atendente de loja ou auxiliar de construção civil. Isso não acontece no Brasil. A taxa de desemprego no país está em torno de 6,5%. É fato que há certa dificuldade para ingresso no mercado de trabalho, mas se você estiver disposto a aceitar qualquer tipo de emprego (e muitos espanhois estão), há vagas.

Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego dobrou nos últimos cinco anos: saltou de 4,5% para 9%. Enquanto isso, houve elevação de concentração de riqueza e aumento das discrepâncias sociais. A elite econômica está mais rica, enquanto que a massa trabalhadora está mais pobre. A classe média, por sua vez, está consumindo menos. A sensação de 1% dominando 99% é clara, sendo este o slogan das ocupações de espaços públicos nos principais pólos econômicos dos Estados Unidos. No Brasil, por outro lado, a sensação é de redução das desigualdades sociais. A revolução brasileira se deu por um feito histórico: o ingresso de 40 milhões de consumidores de baixa renda, que antes viviam em estado de miserabilidade. Esse é o trunfo do governo Lula: a revolução pela transformação de atores sociais invisíveis em visíveis (não politicamente, mas pelo consumo), fenômeno que impulsionou o mercado doméstico. O projeto de Rousseff é o mesmo: o plano Brasil Sem Miséria objetiva elevar a renda de famílias extremamente pobres, numa modalidade de capitalismo socialmente inclusivo.

Não é de se espantar que o brasileiro não compreenda o que está acontecendo no antigo epicentro do capitalismo. Aparentemente, não há motivos para se preocupar. O cenário é de otimismo com relação à situação socioeconômica do país (cf. o estudo 'Índice de Expectativas da Famílias', realizado pelo Ipea). Ontem mesmo, ao conversar com meu pai pelo telefone, disse a ele todos esses dados sobre a crise estadunidense e europeia. Ele me ouviu espantado, mas logo riu: "Deixem eles lá com esses problemas, o negócio finalmente ficou bom pra gente". É justamente isso. Esse é um consenso entre analistas políticos e sociólogos: a América Latina, em especial o Brasil, não será gravemente afetada pela crise enquanto ela não atingir o nível sistêmico.

Se há possibilidade de crescimento econômico a longo prazo no Brasil, o objetivo maior é compreender como operacionalizar políticas públicas de redução da desigualdade (afinal, este é o um objetivo declarado na Constituição Federal) e imaginar novos arranjos institucionais que permitam maior participação democrática, visto que a herança do coronelismo e do estamento patrimonialista ainda é muito forte no país (refiro-me a duas obras clássicas de juristas voltados à ciência social, 'Coronelismo, Enxada e Voto' de Victor Nunes Leal e 'Os Donos do Poder', do Raymundo Faoro).

De qualquer forma, não deixa de ser interessante compreender possíveis caminhos para o incerto futuro da Europa e dos Estados Unidos, vistos que ainda são - podem não ser daqui algumas décadas - a força motriz da economia global. Há um verdadeiro campo de batalha sobre a mente dos estadunidenses e europeu em como lidar com a crise. A grande mídia busca vender a imagem de que ela foi algo natural, inerente aos ciclos econômicos e que pode ser revertida através do comprometimento dos cidadãos com um crescimento modesto, reduzindo elementos welfaristas e o papel do Estado. Outra vertente, também mainstream, defende que medidas keynesianas devem ser adotadas para expandir os gastos públicos e aumentar a demanda, fazendo com que o consumo impulsione novamente o crescimento. Por fim, há um crescente número de pessoas que estão incrédulas com o modelo irrefreável de consumo, bem como o modelo político de representação, o qual consideram sem legitimidade. Esse movimento busca algo além da dualidade Mercado-Estado para resolução da crise. Trata-se de uma proposta de redefinição econômico, política e cultural, um esforço vanguardista em reinventar as instituições e redefinir visões de mundo (subjetividades estruturantes). O primeiro passo é acabar com a imagem abstrata de crise sistêmica, para uma crise que foi provocada por determinadas ações de atores sociais. A economia, afinal, é a "gestão da casa", que é feita por homens.

Para os interessados, recomendo o documentário dirigido pelo holandês Bregtje van der Haak sobre os resultados da crise ocidental. O filme foi divulgado no início de outubro e trata da percepção de um grupo de sociólogos independentes - liderados por Manuel Castells - que se debruçaram sobre o tema com o objetivo de realizar um esforço analítico mais abrangente. As reflexões vão além do senso comum. O campo de interpretações está em aberto.

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