Estagiariocracia

Lênio Streck, procurador de justiça e um dos principais nomes da hermenêutica jurídica e da "filosofia da consciência" no Brasil (cf. a resenha de 'O que é isto - decido conforme minha consciência?' escrita ano passado pelo caro amigo Michel Roberto), publicou um texto provocativo sobre a estagiariocracia brasileira e a falta de organização desta classe. Trata-se de uma brincadeira sobre a dinâmica política de grupos organizados que toca um ponto muito sério da justiça brasileira: a "justiça invisível". Quem é profissional do direito sabe muito bem que inúmeras petições são escritas por estagiários em escritórios de advocacia, pareceres são elaborados por estagiários em gabinetes de promotorias públicas e sentenças são redigidas por estagiários assistentes de juízes estaduais e federais. São atores invisíveis para o grande público, mas que dominam a estrutura interna. Tenho uma teoria um tanto quanto óbvia que sempre compartilho com meus amigos em mesas de bar: no Brasil, o estagiário é a base de funcionamento de tudo. Sem os estagiários, o sistema desaba.

O texto de Lênio, razão desta postagem, foi originalmente publicado no jornal gaúcho O Sul e está circulando alguns blogs. Até imagino como Streck o escreveu: num laptop durante algum voo de Porto Alegre para alguma outra capital. Veja só.

"Respeito muito os estagiários. Valorosa classe. Ainda não assumiram o poder porque não estão bem organizados. Deveriam aderir à CUT. Em alguns anos, chegariam lá. Dia desses veremos os muros pichados com a frase: 'todo o poder aos estagiários'.

Eles dão sentenças, fazem acórdãos, pareceres, prendem, soltam, elaboram contratos de licitação, revisam processos... Respeito profundamente os estagiários. Eles estão difusos na República. Jamais saberemos quantos são. E onde estão. Algum deles pode estar com você no elevador neste momento. Ou em uma audiência. Ou no Palácio do Governo. E pode estar controlando o seu vôo. Uau!

A Infraero tem muitos estagiários. Torço para que eles sejam tão bons quantos os que estagiam no meu gabinete. Estagiários de todo mundo: uni-vos. E estocai comida. E indignai-vos face à exploração a que estão submetidos.

Quando chegardes ao poder, por favor, poupem-me! Sou da 'base aliada dos estagiários'. Mas não fico exigindo liberação de emendas parlamentares. Eu apoio sem chantagear! E não peço para a 'base aliada' colocar minha mãe no TCU. E nem mando a conta do dentista. E não moro em hotel pago por um escritório de Advocacia. E nem recebo o presidente da Petrobrás no meu quarto. Aliás, nem o conheço".

3 comentários:

Ann disse...

É aquela coisa né, você foi, é ou ainda vai ser.

Guiga disse...

por isso sou free lance da educação.

Anônimo disse...

Quando era um acadêmico de Direito do Bloco D-34 e estagiário, há quase dez anos, pensei a mesma coisa: uma greve geral da "classe"... paralisaria o judiciário!

Joseph K.

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