A ameaça real segundo Žižek

Nessas férias de julho estou lendo dois livros de autores com posturas ideológicas diametralmente opostas. Um é o liberal Amartya Sen. O outro é o comunista Slavoj Žižek. O primeiro é um premiado filósofo e economista indiano que já realizou várias conferências ao Banco Mundial. O segundo é um filósofo esloveno leitor de Marx e Lacan, reconhecido como ícone da esquerda hoje.

Não pretendo escrever sobre um dos dois livros agora; afinal, não terminei ambos. Apenas gostaria de compartilhar uma passagem interessantíssima da segunda parte do livro do Žižek ('A hipótese comunista') que aponta para aquilo que o italiano Giorgio Agamben nos alerta há alguns anos: somos todos potencialmente homo sacer.

"Sutin's avenue (2008), Natalia Duritskaya"

"Não basta se manter fiel à Ideia comunista; é preciso localizar dentro da realidade histórica antagonismos que deem urgência prática a essa Ideia. A única pergunte verdadeira hoje é: endossamos a 'naturalização' predominante do capitalismo ou o capitalismo global contemporâneo contém antagonismos suficientemente fortes para impedir sua reprodução indefinida? Há quatro desses antagonismos: a ameaça crescente de catástrofe ecológica; a inadequação da noção de propriedade privada em relação à chamada "propriedade intelectual"; as implicações socioéticas da nova evolução tecnocientífica (em especial na biogenética); e, não menos importante, a criação de novas formas de apartheid, os novos muros e favelas. Há uma diferença qualitativa entre esse último antagonismo - a lacuna que separa os excluídos dos incluídos - e os outros três, que designam aspectos diferentes do que Hardt e Negri chamam de "áreas comuns", a substância compartilhada de nosso ser social cuja privatização é um ato violento ao qual deveríamos resistir também com meios violentos, se necessário:
(i) as áreas comuns da cultura, as formas imediatamente socializadas de capital 'cognitivo', sobretudo a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura compartilhada de transporte público, eletricidade, correio, etc;
(ii) as áreas comuns da natureza externa, ameaçadas pela poluição e pela exploração (do petróleo às florestas tropicais e ao próprio habitat natural);
(iii) as áreas comuns da natureza interna (a herança biogenética da humanidade); com a nova tecnologia biogenética, a criação do novo homem, no sentido literal de mudar a natureza humana, torna-se uma possibilidade realista.

O que as lutas em todos esses domínios têm em comum é a consciência do potencial para a destruição, até e inclusive a autoaniquilação da própria humanidade, caso se dê rédea solta à lógica capitalista de cercar e fechar tais áreas comuns. Nicholas Stern estava certo ao caracterizar a crise climática como 'o maior fracasso de mercado da história humana'. Assim, quando Kishan Khoday, gerente de projetos da ONU, diz que 'há um espírito crescente de cidadania ambiental global, um desejo de encarar as mudanças climáticas como uma questão comum a toda a humanidade', deveríamos dar todo o peso às expressões 'cidadania global' e 'questão comum', isto é, à necessidade de criar uma organização política global que, neutralizando e canalizando os mecanismos do mercado, exprima um ponto de vista propriamente comunista.

É a referência às 'áreas comuns' que justifica o ressuscitamento da noção de comunismo: ela nos permite ver o 'cercamento' progressivo das áreas comuns como um processo de proletarização dos que, assim, são excluídos de sua própria substância. Sem dúvida não devemos abandonar a noção do proletariado nem a da posição proletária; ao contrário, a conjuntura atual nos compele a radicalizá-la a um nível existencial muito além da imaginação de Marx. Precisamos de uma noção mais radical do sujeito proletário, um sujeito reduzido ao ponto evanescente do cogito cartesiano.

Por essa razão, a nova política emancipatória não brotará mais de um agente social em particular, mas da combinação explosiva de diversos agentes. O que nos une é que, em contraste com a imagem clássica do proletariado que 'não tem nada a perder, a não ser os grilhões', corremos o risco de perder tudo: a ameaça é que sejamos reduzidos a sujeitos abstratos vazios de todo conteúdo substancial, despossuídos de nossa substância simbólica, nossa base genética fortemente manipulada, vegetando num ambiente inóspito. Essa tripla ameaça ao nosso ser inteiro transforma todos nós em proletários, reduzidos à 'subjetividade sem substância', como explicou Marx nos Grundrisse. O desafio ético-político é nos reconhecermos nessa imagem; de certo modo, somos todos potencialmente homo sacer, e a única maneira de impedir que isso se torne realidade é agir de modo preventivo".

Slavoj Žižek, Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 82-84.

4 comentários:

HU disse...

Olá Rafael...sou um leitor novo, leio seu blog há uns dois meses, mas agora me deu vontade de comentar.
Existe um livro do Istvan Mészáros onde o autor faz uma análise maravilhosa dos movimentos sociais nas últimas décadas. O livro se chama "A atualidade histórica da ofensiva socialista", que é, na verdade, uma seção de sua obra prima "Para Além do Capital". Recomendo enormemente.
Aliás, como imagino que você não tenha muito tempo de sobra, recomendo também um curso do professor Sérgio Lessa. São 20 horas de vídeo sobre o livro "A ontologia do ser social" do Lukács que aborda muito bem a questão do trabalho em Marx. Está neste link: http://sergiolessa.com/Videosetalli.html

Enfim, parabéns pelo blog. Espero que continue escrevendo, suas indicações são muito boas...

Rafael A. F. Zanatta disse...

Caro "HU", obrigado pelas dicas. Realmente, ainda não tive coragem de encarar "Para Além do Capital", que é uma obra gigantesca. Mês passado assisti a uma palestra do Mészáros lá na PUC-SP. Foi bem bacana.

Tentarei ver esse vídeo sobre o livro do Lukács.

Um abraço!

davi disse...

Amartia Zen como referencia liberal? Sugeriria a obra dos austriacos Carl Menger, Böhm-Bawerk e Mises. Esses dois últimos refutaram completamente Marx. Mises, mais profundamente, refutou toda a ideologia marxista de forma estonteante com sua demonstração lógica da impossibilidade do cálculo econômico socialista feita em 1920. Até hoje não conseguiram demonstrar falhas em seu pensamento, que já demonstrou toda a força teórica pela história.
Aproveitando, sugeriria a leitura de Murray Rothbard sobre as contradições do estado em Man, Economy and State e a sociedade de leis privadas de H. H. Hoppe (cujo orientador de doutorado foi habermas). De Hoppe vale muito a pena a leitura de Democracy: the God that failed e seus artigos sobre a ética argumentativa.
Aproveitando pra comentar o post sobre o Spanistan, posso dizer que ele é uma completa falácia quanto às causas da crise. Pra um melhor entendimento, favor estudar as obras de Mises, em especial a sua Teoria dos Ciclos Econômicos de 1912. Também há os ótimos artigos de R. Murphy, que está desafiando o Paul Krugman pra um debate sobre a crise.
Todos os livros deles são disponibilizados de graça na internet (a propósito, eles rechaçam a idéia de propriedade intelectual)
Acho que de início você vai rejeitar tudo o que ler. Já fui um estatista-coletivista e sei como é. Espero que seja teimoso o suficiente pra tentar refutar a idéia central deles. Boa sorte

Rafael A. F. Zanatta disse...

Davi, obrigado pelo seu comentário e pelas referências bibliográficas. Farei um esforço para analisar essas obras. Conheço de longe as ideias centrais dos liberais austríacos.

Se tiver competência intelectual, farei um comentário aqui no blog sobre tais teorias econômicas.

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