Dissecando Frank The Tank

O processo criativo, em si, é inexplicável, eu sempre digo isto. Por isso que eu não acredito que exista uma forma de criar arte, seja ela música, poesia, literatura, pintura, etc. Em se tratanto de música, cada músico tem sua técnica de composição, que a maioria nem mesmo sabe explicar como é. Vi uma vez o Amarante (Los Hermanos/Little Joy) dizendo que composição significa lápis, papel e suor: tem que ficar lá martelando, tentando diferentes coisas, esculpindo uma sequência de acordes e notas que pode ter surgido do nada. Concordo, mas em parte.

Três anos se passaram desde o surgimento da Frank The Tank, banda de rock alternativo/country, que tive (quer dizer, ainda tenho) em Maringá com meu irmão Renan, mais o Rocha (bateria) e o Shiozaki (baixo). Ontem visitei o estúdio (dessa vez pra conversar sobre outro projeto) onde nós gravamos o nosso EP independente, o "Northwest Roll", e fiquei relembrando de todo aquela fase de criação, composição, empolgação e, enfim, a gravação das músicas. Depois de ficar mastigando isso na cabeça me surgiu a idéia de analizar, cançao por cançao (que nao sao muitas, apenas cinco), e tentar expor as influencias (as vezes óbvias) e como surgiu cada música.

Faixa 1 - Hangover

Hangover foi a primeira música feita pela banda. O Renan fez a letra (que é mais um conselho de como é o espírito de ter uma banda, curtir seu show, achar teu caminho...mas as vezes voce exagera no porre e se encontra jogado num canto, sem se importar com a vida) e me mostrou uma base bem simples em e Lá Menor. O The Strokes foi uma grande influencia na hora de criar a melodia para a guitarra, sendo que uma faz uma base extremamente simples e a outra tem um riff agudo (como na música Someday).


Pois bem, a música começa somente com a bateria. Depois, vem a guitarra base limpa, o contra-baixo e o riff de guitarra. O Shiozaki nos disse que usou uma base grave que havia ouvido numa música clássica chamada Carrosel do seu antigo professor de violao clássico, e a transformou em o ritmo de baixo para Hangover. O refrao é simples, carregado apenas de distorçao. Logo vem o solo, no qual eu fiz a primeira metade e o Renan a segunda. Este solo tinha a intencao de soar bebado ou ao menos soasse estranho como os solos do Pavement e do Television. Nao sei se conseguimos bem esse efeito, mas se voce prestar atençao na gravaçao, o solo divide-se nas caixas Esquerda e Direita fazendo algo como um vai-e-volta na sua cabeça. Essa idéia surgiu apenas na mixagem das músicas.

Depois do solo vem um brigde (mudança que antecede o refrao) que mantém apenas uma guitarra limpa fazendo a base enquanto o Renan canta sobre a ressaca. Em seguida, um final falso, uma idéía que tínhamos desde o começo da banda ("temos que fazer uma música com um final falso"). Nos segundos de pausa, a idéia inicial era o de colocar um som de uma lata abrindo e uma voz no fundo dizendo: Just take a pill and drink again. Mas a idéia acabou sendo rejeitada no dia da gravaçao porque esquecemos de levar uma lata de cerveja pro estúdio.

O final da música tem uma batida de quatro vezes do acorde (acho que a idéia surgiu do Rocha), e se parece muito com o final de A Flor, dos Los Hermanos.

Faixa 2 - Old's Cool

Old's Cool surgiu do álcool. Eu lembro bem que nos reunimos eu, Renan e Rocha para compor uma música em casa. Ficamos bebendo e nao saiu merda nenhuma. Depois resolvemos ir pro posto tomar umas cervejas lá, pois a breja tinha acabado na minha casa. O Renan, por sorte, levou o caderninho pro posto. Depois de algumas cervejas eu fui dormir no banco de trás do carro, enquando o Renan e o Rocha ficaram escrevendo a letra.


No outro dia olhei a letra e dei muita risada. Bem desconexa, mas passava uma mensagem legal (coisas do tipo In the book of live you to turn the page / try to find some inovation). Coisa de bebado mesmo. Peguei o violao e o Renan logo alertou: essa música tem que ser country. Comecei uma base em e , muito parecida com Happy Alone do Kings of Leon (nossa banda referencia). A idéia era a de cantar os primeiros versos sempre com segunda voz, e nós acabamos por criar uma melodia muito influenciada por Midnight Rider do Allman Brothers. Com a base criada, fiz uma espécie de riff country pra segunda guitarra - algo muito simples também. O pré-refrao surgiu facilmente, sendo apenas uma progressao de acordes (Dó, Ré menor, Mi menor, Fá, Sol), e eu acabei de utilizar um toque de guitarra bem parecido com os do The Edge do U2, que é apenas as notas agudas do acorde nas primeiras cordas.


O solo também foi muito influenciado pelas guitarras do Kings of Leon, sendo uma mistura de escala pentatonica e alguns toques manjados do country americano. No estúdio, utilizamos uma meia-lua de percussao pra dar maior animo ao solo. O contra-baixo do Shiozaki segue um padrao hegemonico, bastante influenciado pela música country (sempre utilizando a sétima nota do tom como apoio), mas sem chamar a atençao. A bateria do Rocha também foi bem harmonica, sem viradas excessivas, primando pelo estilo simples da música.


Concluída a letra e a melodia, faltava apenas o nome. Como o nome da banda surgiu do filme Old School, alguém da banda, num momento embreagado, sugeriu o trocadilho com o nome do filme: Old's Cool. Estava pronta a música.


Faixa 3 - Glass

Estávamos reunidos mais uma vez na sala de casa, discutindo algumas idéias. De repente, o Renan vem com um riff de acordes maiores descendentes muito bacana (Mi - Ré - Si - Lá - Sol - Lá - Mi). Eu nao sei explicar daonde surgiu, mas soou muito interessante, algo como os riffs do The Hives. Eu estava tocando um acorde blues da música We're Gonna Groove do Led Zeppelin (acorde este muito utilizado por outras músicas) e tudo se fundiu. No final do riff encaixamos esse acorde e assim surgiu a base de Glass. Eu lembro bem que o Rocha animou com a idéia da música e disse: "nessa a gente vai quebrar tudo, vou fazer uma bateria bem louca!". E o cara fez. Glass é a música com a bateria de viradas mais complexas.


Com várias latas de cerveja e no mesmo dia fizemos a letra de Glass. Com certeza, é a música mais rock'n'roll da banda e a letra foi feita num tapa, falando dum sentimento anormal que bateu numa pessoa do nada (just needed a spark to start this fire that burns my soul). Mais uma vez, rock sem pretensoes poéticas.


A música é cheia de complementos por parte da guitarra solo. Fiz coisas bem simples, muito influenciado pela guitarra de Baby, Please Don't Go do AC/DC. Tem uma hora que a banda para e fica só um toquezinho bem country da guitarra. Nós nos divertíamos muito com todo esse processo, curtindo muito a progressao da música. O Rocha e o Renan chegaram num consenso: "nesse solo a gente vai subir o tom de Mi pra , depois de forma crescente, pra Si, Ré e Mi, acelerando a música". Pro solo, iniciei-o como se fosse uma versao acelerada de Highway to Hell, usando a manjada escala pentatonica. Depois fiz algumas notas acompanhando o tom crescente do solo, terminando numa dissonancia muito parecida com Wasted Time, do Kings. Em seguida, a música entra numa das partes que eu mais gosto (especialmente ouvindo num som alto), só com o baixo de tres notas do Shiozaki e a levada de bateria do Rocha. Depois vem um lance de "frase e resposta", onde o Renan canta várias vezes "You don't really have to go" e a guitarra faz uma resposta bem sutil.


A pancadaria continua, com a bateria quebrando tudo. O riff é feito de forma invertida e mais uma vez fazemos um final falso, mas sem um longo tempo de espera.


Faixa 4 - 1984 (Home, Sweet Home)

Era Junho de 2006 e eu estava na praia com o Renan visitando nossa mae, que mora lá. Eu estava na cozinha tomando água e o Renan estava tocando uma sequencia de dois acordes (Ré com sétima aumentada e Lá - igual o pré-refrao de Time, do Pink Floyd) e eu bati o olho numa plaquinha: "Home, Sweet Home" e comecei a cantarolar o que seria entao o refrao da música 1984. Gostamos muito de como ficou a melodia, e a fizemos com duas vozes. Levamos a idéia de volta pra Maringá.


Eu tinha acabado de ler 1984, do George Orwell e senti que tava pra fazer uma letra em relaçao ao livro. Durante uma aula de sociologia escrevi a letra e levei pro ensaio da banda. Falamos pro Shiozaki como seria legal uma linha de baixo que fizesse o que faz a guitarra de King of Rodeo do Kings of Leon. Daí surgiu entao a linha de baixo que toca durante o acorde . O pré-refrao (Freedom's stolen / Dreams are gone) tem uma mudança singela, que antecede o refrao (nas mesmas notas que o verso).


A bateria que o Rocha fez é simples, centrada na caixa, rementendo as levadas do Coldplay. As duas guitarras, tirando os solos, fazem quase a mesma coisa, brincando com os acordes. Eu posso afirmar que o U2 foi uma grande influencia para os solos dessa música. A guitarra foi minimalista, sugurando no final a mesma sequencia de notas.


Devido aos elementos como: base simples de acordes e refrao fácil de ser cantado, 1984 (Home Sweet Home) se tornou a música mais "pop" da banda, sendo a música de mais fácil aceitaçao.


Faixa 5 - Hooked on Coffee

Era agosto de 2006 e faltavam poucas semanas pra banda entrar em estúdio pra gravar cinco músicas, mas nós só tínhamos quatro músicas prontas. Numa sexta-feira, de ressaca, nao fui pra UEM e resolvi ficar em casa com a guitarra no colo. Fiz um café, liguei o computador e comecei a fazer tocar uns riffs. A partir duma base em Sol, pensei em fazer um ritmo que fosse batido várias vezes e depois retornasse em semi-tons (Fá-Fá sustenido-Sol). Coisa simples. A partir dessa base fui escrevendo a letra, que falava sobre um dia cinza (another day filled with coffee / just a black and bitter day) e o vício por café, livros e cigarros .


Levei a música pro ensaio e a banda se animou com a música. O Rocha disse: "essa tem que ter uma bateria bem country" - como sempre. O Renan fez uma interpretaçao muito boa da letra e rasgou a voz de vez ao cantá-la. Acho que a música Spiral Staircase do Kings influenciou bastante a questao das linhas de guitarra.


A guitarrinha da introduçao (na qual a banda para e fica somente um toque country de guitarra) foi criada a partir duma parte deixada de fora de Old's Cool. Esse trecho de Hooked On Coffee era pra ser o final de Old's Cool, no qual hipoteticamente a banda iria fechar a música em e entraria esse riff (obviamente no tom da música).


O refrao, ao contrário das outras quatro músicas, é cantado apenas uma vez num ascensao de acordes (Sol, Lá sustenido e ). Repete-se o riff e a música parte pro solo, que surgiu num puro improviso, quando o Renan gritou no ensaio: "sobe o tom pra Dó!". Pelo fato de ter sido um solo que surgiu assim, do nada, que é o solo que eu mais gosto do Frank (é claro que sao todos solos simples, que nao implicam muita técnica por parte do guitarrista).


Pro final da música tivemos uma sacada: vamos fazer uma levada contínua e acelerada da bateria, como se fosse uma marcha-country, e um riff de guitarra no tom-base da música. Inconscientemente, estávamos fazendo o mesmo que fizeram os caras do Guns na música Welcome to the Jungle, até a sequencia de notas é muito semelhante. O Shiozaki executou com perfeiçao o riff e é uma parte muito marcante da música (essa que fica bateria e baixo). As guitarras entram depois (fazendo até uma terça depois), levando a música ao ápice e ao final.


Pra entender a dissecaçao do Frank:

Bom, se voce tem o CD ou as MP3s do Frank voce deve ter acompanhado claramente tudo o que eu falei - e aposto que muita coisa fez sentido. Mas se voce nao conhece o som da banda e tem curiosidade, aqui está o link pra baixar o álbum todo (mais uma faixa bonus) via Rapid Share.


5 comentários:

Markovitch disse...

Cara, muito louco essa de analisar suas próprias musicas. MUITO LOUCO mesmo!! :D
Confesso que ainda não tinha escutado as musicas caara, e as levadas country ficaram muito maneiras :D

Cara, espero que possamos tomar umas cervejas mesmo, trocar umas ideias sobre musica e sobre sua viagem. Em 2006 tive o prazer de conhecer o Rodolfo bicho (aqui no Brasil), um dos caras mais gente fina que conheci até hoje, e vi que voces se davam muito bem por lá cara, muito louco isso. HAHA

é isso ae então, abração zanatta.

(Ta linkado lá blog também ;D)

Bruno Rocha disse...

Maninho..
ficou mt legal o texto..
lendo td fiquei lembrando dos dias fazendo as músicas e td mais..
mt massa!!
e porra.. A BATERA TEM QUE SER COUNTRY MESMO!!
uhauhauhauhahuauh

Anônimo disse...

Eai Rafa... belezinhaa...
bom sempre to lendo o blog....
Achei muito massa o projeto musical que vc e o Bruno vao fazer... ideia a maneira diria o portuga numa hora dessa... esse ultimo post nao vai dar pra mim ler inteiro agora mas vou lendo pouco pouco....

keep up....

teh mais

Rooney

Anônimo disse...

iéééééxxxx!!

Renan disse...

HAhahahahaha, dei muita risada relembrando a composição do album aqui, cara.
Como saiu tudo rapido.
Ainda mantenho essa caracteristica pra compor.. as coisas saem do nada, sem muita matemática ou estudo.. bem na tiobilagem mesmo.
Vamos tocar esse ano cara!
marque um show pro frank ai que rola hem! hahahahah
abração, velhinho.. e parabens pelo blog, ta mto massa!

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação