Em sala de aula, costumo dizer aos meus alunos que a tarefa de compreender o presente é dificílima, senão impossível. É preciso olhar para trás, e não para o lado, para melhor entender as dimensões dos fatos. Geralmente relembro que é extremamente atual a metáfora escrita por Georg Hegel em 1820, no Prefácio aos Princípios da Filosofia do Direito, quando constatou que a filosofia, enquanto pensamento do mundo, só aparece quando a realidade efetuou e completou o processo de sua formação: "Quando as sombras da noite começaram a cair é que levanta voo a coruja de Minerva". A famosa passagem da coruja de Minerva - símbolo do conhecimento - evidencia esse delay constitutivo do ato de interpretação, capturado tão bem por Hegel. Essa mesma ideia lançada à filosofia pode ser utilizada no desafio de fazer um balanço de um ano que acabou de terminar.
Em termos de aprofundamento da experiência democrática (valendo-me da expressão de Roberto Unger), 2012 deve ser lembrado por dois bons momentos. O primeiro é o início da vigência da Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) em 16 de maio, que acabou com o sigilo de documentos e garantiu acesso a qualquer cidadão sobre quaisquer informações constantes de dados oficiais dos Três Poderes. O acesso agora é regra, o sigilo é exceção. A lei rendeu excelentes frutos: os órgãos públicos criaram o Serviço de Informação ao Cidadão (SIC). Como diz a norma jurídica, cabe aos órgãos do poder público assegurar a (i) gestão transparente da informação, propiciando amplo acesso a ela e sua divulgação, (ii) proteção da informação, garantindo-se sua disponibilidade, autenticidade e integridade; e (iii) proteção da informação sigilosa e da informação pessoal, observada a sua disponibilidade, autenticidade, integridade e eventual restrição de acesso. Qualquer interessado poderá apresentar pedido de acesso a informações aos órgãos e entidades dos três poderes, por qualquer meio legítimo, devendo o pedido conter apenas a identificação do requerente e a especificação da informação requerida, sem necessidade de explicação sobre as motivações do acesso à informação.
Políticas industriais em um mundo em crise e a guerra aos spreads bancários
2012 também será um ano conhecido pelas fracassadas tentativas de decolagem da economia brasileira. A promessa de Guido Mantega de crescimento do Produto Interno Bruto em 4,5% se frustrou, restando ao Brasil um dos piores desempenhos latino-americanos. Ao longo do ano, foram inúmeras políticas industriais criadas às pressas para atender aos anseios e angústias de grupos empresariais organizados. O maior exemplo talvez tenha sido o pacote de medidas para crescimento das vendas de veículos. Além de mudanças no sistema financeiro, o governo fez uso da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Assim, o socorro do governo às montadoras reverteu a tendência de queda no mercado automotivo e representou vendas adicionais de 400 mil veículos no ano passado. Estaria o governo perdendo dinheiro? Segundo analistas, a queda na arrecadação de IPI – de R$ 19,3 milhões por dia – foi compensada por ganhos nos demais impostos - ICMS, PIS/Cofins e IPVA – em decorrência do crescimento das vendas. O resultado? Mais financiamentos para veículos, mais endividamento da população brasileira e mais carros nas já lotadas ruas e avenidas das principais cidades do Brasil.
Diante do cenário global de recessão econômica (pelo quinto ano consecutivo) e acirramento da competitividade, a equipe econômica do governo federal tomou medidas para expansão do crédito e do mercado consumidor doméstico. Um dos eventos mais importantes do primeiro semestre de 2012 foi a política de redução da taxa básica de juros iniciada pelo governo, que declarou "guerra aos spreads bancários". Com o objetivo de reduzir os lucros astronômicos da instituições financeiras privadas, o governo utilizou de estratégias sofisticadas: primeiro, gradativamente reduziu a taxa básica de juros (taxa Selic), através das decisões do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central. Em meses, a taxa básica foi reduzida de 12% para 7,5% ao ano. Além das decisões coordenadas por Alexandre Tombini, os bancos públicos e de economia mista (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) coordenaram políticas de redução de suas taxas em contratos de financiamento e empréstimos, forçando os bancos privados a acompanhar a tendência de redução por dois motivos: (i) competitividade e captação de clientes; e (ii) possibilidade de ações judiciais de revisão de juros contratuais (considerando a definição jurisprudencial de que o Código de Defesa do Consumidor é aplicável aos contratos bancários e que a abusividade de juros pode ser demonstrada mediante a comparação com a taxa média do mercado).
A política de crédito foi bem sucedida e recebeu elogios de diversos segmentos da sociedade. As regras da poupança mudaram (sempre que a taxa básica de juros, a Selic, estiver em 8,5% ao ano ou abaixo desse patamar, o rendimento da poupança é 70% da Selic mais a Taxa Referencial (TR). Quando a Selic for superior a 8,5%, vale a regra antiga de reajuste pela TR mais 0,5%.), o que não impediu que esta modalidade de investimento batesse recorde de captação em 2012. Com juros menores e novas regras, o mercado de produtos financeiros aqueceu-se, especialmente o de fundos de investimento (tal como os fundos de investimentos em participações em empreendimentos imobiliários).
O novo-desenvolvimentismo de Rousseff em crise
Apesar da alta popularidade de Dilma Rousseff com a população brasileira e da simpatia do setor empresarial, o governo do Partido dos Trabalhadores enfrenta o grave problema de falta de alternativas frente ao cenário de crise econômica global. 2012 sinalizou que o desenvolvimento a qualquer custo provoca grave tensões sociais, como foi o caso da Hidrelétrica de Belo Monte e os protestos ambientais contra a obsessão do governo Rousseff com o projeto de uma nova matriz energética às margens do Rio Xingu. Até o momento, o país não apresenta um projeto robusto e inovador de desenvolvimento, erroneamente confundido com crescimento econômico (ou enriquecimento das grandes firmas).
2012 também mostrou que o fenômeno dos novos aneis burocráticos é bastante presente no país. As políticas desenvolvimentistas, em especial as industriais, parecem surgir de pressões de grupos econômicos organizados, em geral uma pequena elite empresarial com poder de trânsito na cúpula do governo (tal como o Movimento Brasil Competitivo). Há vários canais de comunicação entre a elite da burocracia privada e a cúpula da burocracia estatal. O governo federal parece não estar preocupado com a democratização dos canais de participação e nenhum esforço foi feito para evitar a formação de aneis burocráticos na formulação de políticas públicas industriais. Não seria esse um risco do novo-desenvolvimentismo (cf. o texto 'The Risk of New Developmentalism')?
A não-conclusão (ou por que Hegel está certo)
Retomando as notas do início deste texto, não há como fazer um balanço completo do ano e chegar a uma firme conclusão. Reflexões futuras darão conta do recado, quando for mais fácil olhar para trás e perceber com nitidez as transformações sociais, políticas e culturais de um país em constante transformação. O Brasil é uma panela de pressão. Só não se sabe que tipo de sopa sairá desses ingredientes tão peculiares. Qual será o sabor de 2012? Melhor esperar. A coruja está apenas ganhando velocidade para lançar voo. Ainda há muita luminosidade no ar.
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