Aaron Swartz: um pensador de esquerda?



Desde de janeiro de 2013, milhões de pessoas descobriram a vida de Aaron Swartz (1986-2013), um "programador, ativista político, sociólogo aplicado e defensor da Internet livre", morto aos 26 anos de idade após um absurdo e angustiante processo criminal nos Estados Unidos da América.

O filme The Internet's Own Boy, dirigido por Brian Knappenberger e financiado coletivamente por plataformas virtuais, teve um papel crucial nesse processo. A partir dele, milhões de pessoas não ligadas ao ativismo da Internet tomaram conhecimento de sua trajetória, seus projetos, suas lutas e a injustiça de sua morte (cf. 'Aaron Swartz, guerrilheiro da Internet livre' e 'Perdão, Aaron Swartz', da Eliane Brum).

Esse mês, três anos após sua morte, a publicação do livro The Boy Who Could Change the World: the writings of Aaron Swartz sinaliza ao mundo -- em especial o de língua inglesa -- a importância intelectual de Aaron Swartz, a partir de uma seleção de textos publicados no blog Raw Thought. O livro compreende ensaios e pensamentos de Swartz escritos entre os 18 e 25 anos de idade, período em que o programador abandona a Universidade de Stanford e passa a demonstrar enorme amadurecimento político e envolvimento com lutas por acesso ao conhecimento e democratização do acesso à rede e a bens culturais.

Eu ainda não li o livro, mas considero desnecessário comprá-lo na Amazon, pois todo o material produzido por Swartz está disponível em seus arquivos de forma aberta. O que há de valor é a seleção e o prefácio de Lawrence Lessig. De todo modo, parece-me estranho a publicação dos ensaios de Swartz em formato proprietário (com direitos autorais), sendo que sua maior batalha era o livre compartilhamento de textos em formato digital. Talvez, em vida, ele não aprovaria esse projeto.

Aproveito essa oportunidade -- os três anos de sua morte e a publicação desta coletânea -- para explicar como é possível descobrir os materiais de Swartz por conta própria. É simples. As únicas barreiras para essa descoberta são acesso à Internet e conhecimento de língua inglesa.

Uma leitura atenta dos textos de Swartz mostra os trajetos de sua autoformação intelectual e sua proximidade com grandes intelectuais e projetos da esquerda nos EUA.

O pensamento do jovem Swartz
Para aqueles que não podem comprar o livro The Boy Who Could Change the World, recomendo uma exploração no site Raw Thoughts, onde centenas de textos de sua autoria estão organizados em categorias como (i) política e paródia, (ii) pensamento, (iii) resenhas, (iv) diário e (iv) tecnologia.
Swartz considerava o Raw Thoughts -- um sistema de blogging que ele mesmo programou -- uma espécie de caderno de pensamentos experimentais e crus. Ele levou a sério a ideia de Charles Wright Mills de criar um "arquivo" para testar ideias e pensar de forma artesanal, como uma prática que melhora a cada tentativa real (ideia presente em The Sociological Imagination). Em "What is Going on Here", ele escreveu:

"(...) tornar-se um pensador científico requer prática e escrever é um auxílio poderoso à reflexão. Então, é isso que o blog é. Eu escrevo aqui sobre pensamentos que tenho, coisas que estou trabalhando, experiências que eu tive, e mais. Assim que um pensamento se cristaliza na minha cabeça, eu escrevo-o e publico aqui. Eu não releio, não mostro a ninguém e não edito. Eu simplesmente publico aqui. Eu não considero isso escrever, considero isso pensar. Eu gosto de compartilhar meus pensamentos, gosto de escutar os seus e gosto de praticar expressas ideias, mas fundamentalmente este blog não é para você, mas para mim".

É interessante ver o entusiasmo de Swartz com as ciências sociais, o pensamento científico e a filosofia. Dois textos ilustram bem isso. O primeiro é The Intentionality of Evil, um texto que discute por que nunca nos enxergamos como "pessoas más" tendo como pano de fundo as discussões de Hannah Arendt sobre Eichmann e a banalidade do mal. O segundo é Serious Social Science, um ensaio sobre a necessidade das ciências, os exageros das crenças cientificistas e a importância de romper o fechamento universitário das ciências sociais. Swartz propõe nesse texto uma estratégia distinta para os intelectuais -- algo mais próximo dos trabalhos de Christian Parenti e Doug Henwood -- e enxerga no fechamento das universidades algo inefetivo para grandes mudanças sociais:
"dificilmente disciplinas existentes podem ser reformadas. Ao invés, o que é necessário é uma cultura de ciência social séria construída fora dos sistemas existentes da academia. Seu trabalho deve ser primariamente direcionado para fora da universidade, pois esse é o público importante. Isso significa escrita clara para consumo público. E significa compilações de grande escopo, ao invés de monografias obscuras".

Os textos escritos em 2005 descrevem situações e pensamentos extremamente variados, como o envolvimento de Swartz com Lawrence Lessig e o grupo de trabalho do iCommons na Faculdade de Direito de Harvard, seu incômodo com os métodos de meditação transcendental promovidos por David Lynch, e as impressões de Swartz sobre os jargões econômicos, muitas vezes próximos da mera pregação religiosa. São textos ágeis, rápidos e diretos. 

Swartz lia muito, centenas de livros por ano. O que impressiona em suas resenhas, como The Disappearance of Thought, é a capacidade de contra-argumentar um ponto específico de um livro, sem a pretensão de explicar toda a obra ou produzir uma espécie de roteiro para leitores preguiçosos. Ou seja, Swartz realmente travava diálogos com os livros e derivava pensamentos próprios, que depois eram registrados em Raw Thoughts.

Um dos meus textos favoritos de Swartz nesta época é The Book That Changed My Life, escrito há dez anos. Trata-se de um relato da descoberta do livro Understanding Power do linguista e teórico Noam Chosmky. O relato começa com as preocupações de Swartz com a desestruturação do sistema representativo e o papel da mídia em manter a inefetividade das instituições democráticas nos EUA:

"Há dois anos deste verão eu li um livro que mudou toda a minha maneira de ver o mundo. Eu estava pesquisando sobre vários temas - direito, política, meios de comunicação - e estava cada vez mais convencido de que algo estava seriamente errado. Os políticos, fiquei chocado ao descobrir, não estavam realmente fazendo o que as pessoas queriam. E a mídia, minha pesquisa descobriu, realmente não se importava muito sobre isso, preferindo se concentrar em coisas como cartazes e urnas. Na medida em que pensei mais sobre isso, suas implicações me pareceram maiores e maiores. Mas eu ainda não tinha uma moldura maior para encaixá-las".

Após relatar a experiência de assistir ao filme Manufacturing Consent e ler os textos de Chomsky, Swartz explica como seu mundo foi virado de cabeça para baixo e como seu olhar foi transformado por uma nova perspectiva crítica sobre fabricação de consensos e estrutura da grande mídia:

"Lendo o livro, eu me senti como se minha mente tivesse sido abalada por explosões. Às vezes as idéias eram tão intensas que eu literalmente tive que deitar. (...) Durante semanas depois, tudo o que eu via estava em uma luz diferente. Toda vez que eu via um jornal ou revista ou pessoa na TV, eu questionava o que eu pensei que sabia sobre eles, e pensava como eles se encaixam nesta nova imagem. As perguntas que tinham me intrigado por anos de repente começaram a fazer sentido nesse novo mundo. Eu reconsiderei tudo que eu sabia, tudo o que eu pensei que eu tinha aprendido. E eu descobri que eu não tinha muita companhia (...) Desde então, eu percebi que eu preciso passar a vida trabalhando para corrigir o quebrantamento chocante que eu tinha descoberto. E a melhor maneira de fazer isso, eu concluí, era tentar compartilhar o que eu tinha descoberto com os outros. Eu não podia simplesmente dizer de cara, eu sabia, então eu tive que fornecer as provas. Comecei então a trabalhar em um livro para fazer exatamente isso".

Não tenho conhecimento deste livro que Swartz começou a escrever seis anos antes de sua morte. No entanto, é interessante ver como que Chosmky o inspirou e forneceu o diagnóstico crítico que incentivou a criação de plataformas como Demand Progress, pensado por Aaron anos depois. 

Evidências de um pensamento de esquerda
Após essa "guinada chosmkyana" do início de 2006, as investigações e reflexões de Swartz passam a tocar em pontos centrais do debate da esquerda. Um exemplo claro é sua série de textos sobre a organização dos think tanks conservadores nos Estados Unidos e seus modelos de financiamento, formas de atuação e táticas de modificação do discurso público (ver Making Noise, Spreading Lies, Saving Businessess).

Em What's Freedom, Swartz discute as teorias de George Lakoff sobre nossas estruturas cognitivas e a influência das palavras no modo como emolduramos nosso pensamento. Apesar de criticar duramente o livro de Lakoff (Whose Freedom?: The Battle over America's Most Important Idea) e algumas de suas propostas, Swartz presta a devida atenção ao debate sobre o modo como os Republicanos atribuem significado à palavra liberdade em uma perspectiva conservadora e de direita. Swartz também elogia, neste texto, a tática de "hackear" os métodos dos republicanos em uma perspectiva democrata, promovendo think tanks progressistas que sejam capazes de influenciar a opinião pública.

Ao lado de teóricos de peso da sociedade em rede, como Yochai Benkler, Swartz também prestava atenção ao potencial de colaboração em massa por "estrangeiros mútuos". Em The Fruits of Mass Collaboration, Swartz antecipa discussões que se popularizam com a publicação de The Wealth Of Networks de Benkler:

"A Internet é o primeiro meio para tornar esses projetos de colaboração em massa possíveis. Certamente muitas pessoas enviam citações para Oxford para compilação no Dicionário Oxford de Inglês, mas uma equipe em tempo integral é necessária para editar essas notas para construir o livro (para não mencionar todos os outros trabalhos que devem ser feito). Na internet, no entanto, todo o trabalho - coleção, sumarização, organização e edição - pode ser feito no tempo livre por estranhos mútuos. (...) A Internet muda fundamentalmente os aspectos práticos de grandes projetos de organização. Coisas que antes pareciam tolas e impossíveis, como a construção de um guia detalhado para cada programa de televisão, estão agora sendo feitos. Parece que estamos em uma explosão de tais obras de referência modernas, talvez com novos experimentos em ferramentas para fazê-los".

Essas reflexões reforçam o envolvimento de Swartz com grandes projetos de seu tempo, como a programação e modelagem institucional da Wikipedia -- o maior exemplo de commons-based peer production deste século, para usar uma terminologia de Benkler. Em uma de suas poucas aventuras políticas, Swartz concorreu ao conselho executivo da Wikipedia em 2006. Sua proposta de "campanha" envolvia uma série de estudos e análises sobre o funcionamento da maior enciclopédia aberta do mundo e suas possibilidades de expansão (ver Code and Other Laws of Wikipedia).

Os textos de juventude de Swartz detalham seu envolvimento com discussões de diferentes áreas e sua constante advocacia por "problemas estruturais que demandam mudanças estruturais". Seus textos mostram familiaridade com grandes intelectuais estadunidenses, como John Dewey e Noam Chosmky, além de uma intimidade com textos produzidos por psicólogos, linguistas, sociólogos e cientistas políticos. Há, ainda, um repúdio contra o modo como a informação é filtrada, modelada e falsamente produzida pela grande mídia. Em um ensaio intitulado I Hate The News, Swartz explica que não lê o New York Times ou qualquer outro noticiário desde os 13 anos de idade e que isso nunca impactou negativamente sua capacidade de entender o mundo:

"A obsessão do noticiário em ter um pouco de informação sobre uma grande variedade de assuntos significa que a mídia, na verdade, entende a maioria desses assuntos de forma errada. Sua obsessão com o criminoso e o desviante nos torna pessoas menos confiantes. Sua obsessão com a pressa do dia-a-dia nos torna pensadores menos reflexivos. Sua obsessão com superfícies nos torna vazios".

A crítica de Swartz ao modo como nossas mentes são estruturadas pela mídia conecta-se com sua proposta geral de um "pensamento maior", registrada no breve ensaio Think Bigger: a Generalist Manifesto. Swartz desdenha da rotina de especialização das universidades (e.g. estudar a dança de acasalamento de abelhas do Leste da África) e afirma que as pessoas têm medo de grandiosidade, pois o pensamento maior desafia o status quo. "Não os ouça, olhe mais para cima deve ser o seu mantra. Pense maior", dizia ele.


Outro texto que evidencia as crenças intelectuais de Swartz é Sociology or Anthropology. Após discutir a diferença fundamental entre "estudos sobre sociedade" e "estudos sobre cultura", Swartz nega que a matriz de explicação (ou o fator determinante) para o comportamento dos homens e mulheres seja o ambiente cultural em que eles foram criados. Nega também o relativismo cultural que explica as diferenças a partir das diferenças culturais. Para Swartz, são instituições que criam ambientes que forçam um curso de ação, e não a cultura. "Por isso sou um sociólogo", dizia Swartz antes de completar 21 anos.

Alguns textos não exprimem ideias de Swartz, mas indicam leituras que foram fundamentais em sua formação. O texto Sociologist's Creed, por exemplo, traz um excerto de Karl Marx escrito em 1852 (The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte):

"Os homens fazem sua própria história, mas eles não fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias auto-selecionados, mas em circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos" (K. Marx).

É ingenuidade, portanto, acreditar que Swartz era apenas um "programador genial" que se envolveu com ativismo e a luta contra o SOPA. Esses anos de formação, período em que ele passou a frequentar as bibliotecas de Harvard, Stanford e MIT, foram fundamentais para que forjasse um pensamento próprio a partir de fortes influências da teoria crítica e do pensamento dito de esquerda, como Marx, Dewey e Chomsky.

Uma proposta
Precisamos de um trabalho colaborativo de decifragem do pensamento de Aaron Swartz a partir da leitura de seus textos e identificação de suas influências intelectuais. Em termos de teoria social, ao menos para mim, está claro sua familiaridade com clássicos como Marx e teóricos contemporâneos da linguística e da sociologia. No entanto, existe uma pergunta ainda não respondida: afinal, há uma teoria social inarticulada em Aaron Swartz?

Seus textos ainda estão desorganizados, porém todos disponíveis online. É preciso um trabalho bem maior do que o que foi apresentado aqui. Meu ponto é que existe algo de precioso nesses textos, algo que pode ser lido com mais cuidado em busca de insights, teses e reflexões que são próprias a Aaron.

Isso não quer dizer que Swartz seja um gênio marginalizado ou um dos maiores pensadores deste século. Ele era, acima de tudo, um "sociológico aplicado", alguém que pensava em mudanças práticas e em ação (postura que o levou a processos criminais por invasão de sistemas e compartilhamento de arquivos supostamente privados). Não proponho mistificações. É preciso também criticá-lo: mostrar seus pontos fracos, problemas de raciocínio ou eventuais vieses.

Retorno ao ponto central: as pessoas ainda desconhecem os textos e ideias de Aaron Swartz -- e mereciam conhecer. Talvez possamos colaborar e organizar esse material da nossa forma, independentemente de outras coletâneas, como a lançada nos EUA. O material está em nossas mãos. Por enquanto.

Um comentário:

Pedro H. J. Nardelli disse...

Eu não conhecia esse cara. Logo após eu terminar de ler esse post, acessei alguns dos textos selecionados e achei fantásticos. Eles nos fazem questionar e pensar mais.....

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação