O verdadeiro Zombie Walk


A questão da desestruturação da Cracolândia do centro de São Paulo é realmente uma questão complexa e polêmica. As percepções e reações a este antigo problema social, debatido com mais intensidade esta semana em razão da ação policial, são diversas e levam a respostas por vezes perigosamente simplistas. Como colocou Hugo Albuquerque num texto recente sobre o assunto, "a simples enunciação de 'Cracolândia' já nos põe frente à tese de que a causa da problemática social da região é um mal intrínseco e fantasmagórico chamado crack, algo tão inerente que, inclusive lhe nomeia. Que solução teria um lugar com esse - pensa o incauto - senão ser varrido do mapa?"

O plano da "operação sufoco", estruturado em três etapas - a primeira de policiamento ostensivo, com abordagem e dispersão, de fato a expulsão, dos dependentes químicos da região; a segunda de assistência social e de saúde; e a terceira de manutenção do policiamento, com o intuito de inibir a formação de novas cracolândias -, foi estrategicamente colocado em prática na primeira semana do ano, período em que o movimento de pessoas é menos intenso no centro da capital. A ação, nesse sentido, foi "esperta": a classe alta e a média estão no litoral curtindo as férias, do mesmo modo que a atenção midiática é menor. Na cidade, só restaram os trabalhadores e donos de negócio da Luz, que celebraram a ostensiva policial, como era de se esperar (o vídeo abaixo retrata a satisfação dos comerciantes das ruas tomadas pelos dependentes). Grande parte da população também aplaudiu, o que repercutiu na internet. Fiz uma pesquisa rápida no Twitter com a palavra "cracolândia" para observar a reação dos internautas e li mensagens como essa, de um rapaz de vinte e poucos anos: "Enfim a limpeza da Cracolândia, nunca entendi como ninguém tinha feito nada na região até hoje". O senso comum também aponta para esse tipo de reflexão: mas por que não tinham feito essa limpeza antes?

Engana-se quem pensa assim. A maior crítica dos especialistas na área é que a operação de Kassab é mais do mesmo. Outros planos semelhantes já foram executados, como no ano de 2009, que foi abandonado por falta de recursos. Insiste-se na tradicional abordagem repressiva, interrompendo o trabalho de acompanhamento dos dependentes, já realizado por alguns profissionais da saúde. Estes, por sinal, são os que mais tem criticado publicamente a ação da polícia de São Paulo. Dartiu Xavier, diretor do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Unifesp, tem advertido que medidas repressivas sem a proposição de auxílio ou ajuda aos dependentes são equivocadas e ineficientes. Em entrevista a Gabriel Boni da Carta Maior, destacou: “As pessoas estão incomodadas com indivíduos se drogando na rua, mas se este é o grande mote para a ação, há uma medida higienista. Essa situação é atribuída à droga, mas a causa do problema é a exclusão social, ausência de moradia e saúde”.

A polícia justifica-se alegando que o acompanhamento por profissionais da saúde será realizado numa segunda etapa, após o policiamento ostensivo - necessário num primeiro momento. O resultado é o verdadeiro Zombie Walk de São Paulo; não aquele realizado por estudantes universitários cosmopolitas (fãs de filmes de zumbis) no dia 02 de novembro, mas a verdadeira marcha dos mortos-vivos, ou melhor, a marcha dos banidos, dos indiferentes, dos homo sacer, daqueles postos para fora da jurisdição humana sem ultrapassar para a divina - vidas absolutamente matáveis, objetos de uma "violência que excede tanto a esfera do direito quanto a do sacrifício", como ressalta Giorgio Agamben numa obra paradigmática (Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua).

Quem se importa com a vida dos usuários de crack do centro de São Paulo?

Muitos já enxergam o óbvio: que a operação sufoco atende aos interesses dos especuladores imobiliários que veem no velho centro da cidade a mais nova galinha dos ovos de ouro (projeto Nova Luz). Recorro novamente ao texto de Hugo Albuquerque, que toca o cerne da questão: "O objetivo de Kassab é limpar o Centro. Torná-lo um terreno propício para os novos negócios do setor imobiliário, uma vez que especular com prédios abandonados saiu de moda - o que a ausência de políticas sociais para a região central ajudava a mascarar, diga-se -, e agora a bola da vez são os novos empreendimentos. Os pobres, que moram nas ruas ou no Moinho, que se virem. Na falta de meios para a eliminação física direta e imediata, um processo de expulsão e confinamento na periferia da própria capital ou da região metropolitana. Gestão dos corpos alheios por meio do álibi das drogas e gestão desumana dos espaços urbanos". Como sempre, Estado e setor privado caminham de mãos dadas.

Uma das poucas demonstrações de preocupação e solidariedade por parte dos paulistanos tem sido a chamada para um novo "churrascão da gente diferenciada" - evento criado em 2011 para protestar contra a decisão dos moradores de Higienópolis, que votaram contra a construção de uma estação de metrô no bairro em razão do aumento do número de "populares" na região. Eis a convocação, publicada por Júlio Delmanto no Blog Coletivo Outras Palavras: "Higienismo, preconceito, segregação, violência, intolerância, tortura, abuso de autoridade e mesmo suspeitas de assassinato passaram a ser ainda mais constantes nos dias e principalmente nas madrugadas do bairro. (...) O objetivo da dor e do sofrimento é meramente expulsar aquelas pessoas dali para que o projeto da “Nova Luz”, que prevê demolição de um terço das construções da região e reconstrução do espaço com vistas ao lucro da especulação imobiliária, possa ser implementado. Em reação a isso, dezenas de coletivos, grupos e entidades organizaram para este sábado mais um 'churrascão diferenciado', tipo de mobilização que ficou marcada na cidade como forma de combater, de forma bem humorada e crítica, o preconceito e o racismo dos políticos e das elites paulistanas. Traga seus instrumentos, cartazes, idéias, alimentos e o que mais achar necessário para tornar agradável este sábado de protesto e diálogo em defesa de políticas corretas, respeitosas e abrangentes em relação à população de rua (ou em situação de rua) e aos usuários e dependentes de drogas. Quando: Sábado, 14/01, às 16h! Onde: Rua Helvétia com Dino Bueno, São Paulo".

Esse tipo de encontro, mesmo que promovido pela elite intelectualizada que vive longe dos problemas enfrentados pela população carente, pode ajudar a humanizar a compreensão do processo de desarticulação da Cracolândia, criando laços, por mais frouxos e superficiais que sejam, entre a população paulistana e os dependentes químicos que tomam as ruas do velho centro. Acima de tudo, é um alerta para as autoridades de que "nós somos os pobres" e todo mundo é gente como a gente.

2 comentários:

Rafael A. F. Zanatta disse...

"Estamos assistindo ao desmonte de um conjunto de políticas modernas e revolucionárias na área da Saúde Mental e a reimplantação de um modelo cruel e historicamente falido. Vamos olhar a questão por uma lente grande angular: setores hipócritas da sociedade, uma mídia alarmista e políticas públicas equivocadas (quando não intencionais) estão usando o crack para criminalizar a pobreza e atacar os bolsões de populações em situação de vulnerabilidade com o eufemismo do “acolhimento involuntário”. Construção inconciliável, que nós, os que trabalhamos no campo da Saúde Mental, sabemos ser falsa: ou bem o acolhimento é voluntário ou, se involuntário, aí não é mais acolhimento, e sim recolhimento".

Leia o restante do texto de Edmar Oliveira aqui: http://www.outraspalavras.net/2012/01/05/estamos-usando-o-crack/

Hugo Albuquerque disse...

Rafa,

Agora há pouco, estava aqui no meu Centro Acadêmico, calculando o que o setor imobiliário pode ganhar com isso. No duro, alguns bilhões, talvez uma centena deles - embora o ganho por meio da "valorização"de imóveis em Perdizes, Pacaembu e Higienópolis seja, na prática, incalculável (falamos de valores que decorrerão da especulação, não existe cola disso com a realidade da produção). Isso mudaria a face do Bom Retiro e da região central que fica imprensada entre a linha Rubi da CPTM (que passa do lado da Favela do Moinho) e a Marginal do Tietê. A vida daquelas pessoas que se dane, dentro dessa lógica. Trata-se de um plano velho de Kassab e do conservadorismo paulistano que virá com nova face para as eleições de Outubro (ou algumas delas, seja Soninha, Chalita ou algum tucano).

abraços

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