Trabalho imaterial e bioprodução

Nós precisamos de novos conceitos para pensar o tempo presente. Talvez resida aí a tarefa do filósofo, de que Gilles Deleuze falou: criar, inventar conceitos. Sem eles, nos limitamos às barreiras teoréticas impostas pelos jogos de linguagem compartilhados. Não avançamos. Ficamos presos ao resultado de um enorme esforço analítico realizado no passado, em face de problemas e aporias anteriormente surgidos. Mas e o agora? O agora demanda reflexão crítica incansável.

A questão da compreensão do trabalho hoje enfrenta esse problema. Como se dão as relações de trabalho? No que consiste o trabalho? O que é produzido? Ainda existe trabalho puramente material,  separado do intelecto, tal como aquele dos mineradores de carvão no interior da França retratados por Émile Zola no seu clássico Germinal? Até que ponto o paradigma do trabalho material do período industrial nos é útil para uma análise das relações trabalhistas contemporâneas? O arcabouço teórico de Karl Marx, construído de forma assombrosamente magnífica durante a segunda metade do século XIX, seria suficiente para compreender os fenômenos atuais?

A divisão entre trabalho material e intelectual de Marx era adequada ao seu tempo. Infelizmente, Marx não viveu o suficiente para acompanhar a "revolução silenciosa" de que fala Maurizio Lazzarato, ocorrida no século XX dentro das realidades antropológicas do trabalho e dentro da reconfiguração de seus significados. O trabalho assalariado e a subordinação direta não mais constitui a principal forma de relação contratual entre capitalista e trabalhador. Um trabalho poliforme auto-empregado (autonômo) surgiu como forma dominante, um tipo de "trabalhador intelectual" que é, ele próprio, um empreendedor, inserido dentro de um mercado em mudança constante e dentro de redes que são cambiáveis no tempo e no espaço. Nessa nova forma de trabalho, há um alargamento da cooperação produtiva que inclui tanto a produção e reprodução da comunicação quanto a subjetividade. Como ressalta Lazzarato, se o fordismo integrava o consumo dentro do ciclo de reprodução do capital, o pós-fordismo integra a comunicação deste ciclo. Ao invés da ideia keynesiana de oferta e demanda, seria mais sensato falarmos de uma redefinição da relação produção-consumo: agora, o consumidor é inserido na fabricação do produto desde sua concepção.

Esse fenômeno está intimamente ligado com os tipos de indústrias de larga escala e serviços comerciais surgidos no século passado. Nas indústrias, por exemplo, o negócio é focado no terreno fora do processo de produção, principalmente nas vendas e na relação com o consumidor. Ele volta-se mais à comercialização e financiamento do que à produção em si. Antes mesmo de ser manufaturado, o produto deve ser vendido. A estratégia, portanto, baseia-se na produção e consumo da informação. A commoditie pós-industrial é o resultado de um processo criativo que envolve tanto o produtor quanto o consumidor. Esse mesmo fenômeno acentua-se mais ainda nos serviços como crédito bancário, seguros, etc. A organização pós-Taylorista é caracterizada pela integração da relação entre produção e consumo, na qual o consumidor intervem de forma ativa na composição do produto.

Acompanhando o raciocínio de Lazzarato, todas essas características da economia pós-industrial são acentuadas na forma de uma produção imaterial. A produção audiovisual, a propaganda, a produção fashion, o desenvolvimento de softwares, entre outros, são definidos por meio de uma relação particular entre produção e consumidores. O trabalho imaterial continuamente cria e modifica formas e condições de comunicação, as quais atuam como a interface que negocia a relação entre produção e consumo. A produção é diretamente a produção de uma relação social na qual o "material cru" do trabalho imaterial é a subjetividade e o ambiente ideológico na qual essa subjetividade vive e se reproduz.

Aqui chegamos a um ponto crucial, a bioprodução. A produção da subjetividade deixa de ser um instrumento de controle social (reprodução de relações mercantis) e passa a ser diretamente produtivo, eis que o objetivo da sociedade pós-industrial é justamente construir a relação consumidor/comunicador de forma ativa. Os trabalhadores imateriais satisfazem a demanda dos consumidores e, ao mesmo tempo, estabelecem tal demanda. "O fato do trabalho imaterial produzir subjetividade e valor econômico ao mesmo tempo demonstra como a produção capitalista invadiu nossas vidas e rompeu todas as oposições entre economia, poder e conhecimento", constata Lazzarato. Estamos diante de algo distinto do capitalismo experimentado por Marx. Utilizando as palavras de Antonio Negri e Giuseppe Cocco numa obra sobre o biopoder: "o trabalho imaterial consititui a correia de transmissão entre as tendências do capitalismo cognitivo e a construção de um novo espaço público".

O conceito de trabalho imaterial - recriado por filósofos italianos críticos (já citados nesse texto) como Maurizio Lazzarato e Antonio Negri - nos força a questionar as definições clássicas de trabalho e força de trabalho, porque resulta da síntese de diferentes tipos de know-how: habilidades intelectuais, manuais e empreendedoras. O trabalhador não é apenas aquele que está dentro da relação salarial, mas também se encontra difuso no conjunto das redes sociais, nos territórios metropolitanos, nas atividades de produção e reprodução, nas redes de terceirização. O paradigma não é a fábrica, mas a rede.

Nesse ponto, o filósofo Giuseppe Cocco propõe uma reflexão central e busca responder três perguntas sobre o valor, o tipo e como se dá a exploração deste novo tipo de trabalho: "No capitalismo contemporâneo, produz-se conhecimento (formas de vida) por meio de conhecimento (formas de vida): bioprodução. Seu paradigma é a rede (a sociedade), e não a fábrica. Em suas 'estradas' circulam informações. É uma mudança radical de paradigma: ao passo que o carro que circula nas estradas de rodagem se consome e quanto mais circula mais perde 'valor', a informação adquire valor porque circula e quanto mais se hibridiza na circulação mais se torna 'valiosa'. Os dogmas da teoria econômica vão por água abaixo: as informações são cumulativas, não rivais e não exclusivas. Diante da mudança de paradigma, a renovação de um ponto de vista de classe passa pela resposta a estas perguntas: 1) Que valor é esse que, circulando, aumenta em vez de se consumir? 2) Qual é o trabalho que produz esse valor? 3) Enfim, como funciona aexploração desse “trabalho” e, pois, a acumulação desse “valor”? 1) A fonte dovalorsão as formas de vida que se produzem e reproduzem, entre circulação e reprodução. Esse valor não pode mais ser definido pela 'medida dos excedentes' (de tempo de trabalho), mas depende da desmedida dos suplementos de vida que são fruto da mistura de tempo de trabalho e tempo livre. A principal fonte de valor reside, portanto, na combinação social do saber-fazer do trabalho vivo, e não mais na combinação (assalariada) de capital fixo e trabalho de execução repetitivo e despersonalizado. O bem material (o carro, o sapato, a roupa, o telefone celular) passa a ser o suporte de todos esses elementos intangíveis que dependem, por um lado, da tecnologia e, por outro, das atividades de comunicação. Desse modo, empresas sem fábrica procuram conectar-se a determinadas dinâmicas de produção do intangível, enquanto terceirizam a produção material em qualquer lugar do planeta. Assim, a Volkswagen concentra suas atividades nos serviços de design, distribuição, logística, propaganda e tecnologia para que os fornecedores dos diferentes módulos entrem com seus próprios operários na fábrica (em Rezende, no Rio de Janeiro) e montem os ônibus. A multinacional Nike procura a parceria da Central Única de Favelas (Cufa) ou do cantor Mano Brown para desenvolver produtos ligados a valores do “mundo” (cultura) da periferia. A firma carioca Osklen lança um sapato “Samba” (o “mundo do Carnaval”) e os chinelos Havaianas vendem mundo afora o “mundo da praia do Rio de Janeiro”. Os serviços também precisam dessa alavanca cognitiva: a abertura da primeira agência do Banco Santander no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro (meses antes da ocupação militar de novembro de 2011) foi preparada por propagandas interpretadas pelo líder do AfroReggae: o banco multinacional “significa” sua expansão nas periferias como 'inclusão social'; quanto à Nextel, ela mobiliza o rapper MV Bill ou um jovem talento do futebol: a telefonia móvel como serviço do 'sucesso' dos jovens pobres. 2) Trabalhar, nesse contexto, significa produzir 'suplementos' de vida, ou seja, produzir subjetividade: significação e conhecimento, relação e julgamento, cultura e natureza. Trata-se de um trabalho imaterial: recomposição da mão e da mente, de trabalho manual e intelectual, de tempo de vida e tempo de trabalho. O trabalho vivo, articulado em redes (redes de cérebros) passa a conter o capital variável e ao mesmo tempo o capital fixo. O trabalhador não é apenas aquele que está dentro da relação salarial, mas também se encontra difuso no conjunto das redes sociais, nos territórios metropolitanos, nas atividades de produção e reprodução, nas redes de terceirização. O trabalho intelectual, aquele que caracteriza a performance virtuosa de um bailarino, de um professor, de uma mãe de santo ou de um médico e que Marx dizia não ser produtivo por não objetivar uma obra separada do ato de sua produção, torna-se o paradigma do trabalho em geral. O trabalho imaterial – comunicativo, cognitivo, afetivo – assume as formas da execução virtuosa cujo produto é totalmente relacional e inseparável do processo de sua produção. A partitura que os trabalhadores virtuosos executam é o intelecto geral: o nível de educação, saber, cooperação que caracteriza as redes e os territórios, em particular aqueles desenhados pelas redes metropolitanas. É esse trabalho relacional e público do virtuoso que produz 'mundos', ou seja, 'culturas': o samba dos sapatos da Osklen, a cultura da praia dos chinelos Havaianas, a centralidade da periferia exaltada pela Cufa, as políticas de mediação dos conflitos articuladas pelo Afro Reggae, as redes logísticas e de serviços que permitem às montadoras de não montar mais nada e concentrar suas atividades no intangível: projeto, design, marca, distribuição. O “carro” é material, mas nesse caso também o valor é cognitivo: o fato da tecnologia (incorporada no processo e no próprio bem) e do intangível. 3) No capitalismo cognitivo, a disciplina dos tempos e métodos é substituída por mecanismos de controle indiretos: obrigatoriedade dos resultados, prescrição da subjetividade e precarização. A exploração do trabalho imaterial investe a posteriori uma valorização que ocorre fora da relação salarial e/ou dentro dos processos de sua segmentação. Ou seja, na medida em que o valor tem como bases as fortes doses de subjetividade e, pois, de autonomia do trabalho imaterial, a exploração funciona como um aparelho de captura de duas 'molas': por um lado, pela fragmentação e segmentação sistemáticas das relações sociais (via privatizações e desregulamentação); por outro, pela multiplicação dos esforços de 'colar' aos fluxos de criação e invenção que as redes (sociais e técnicas) proporcionam (via leis da propriedade imobiliária e intelectual). Os dispositivos de exploração do trabalho imaterial articulam-se assim nas infinitas modulações da relação paradoxal que liga entre si a precarização da relação salarial e a autonomia do trabalho: de um lado, fragmentos socializados pelos dispositivos privados e estatais (a telefonia móvel privatizada, as leis do copyright, as milícias nos territórios); de outro, a multidão de singularidades que cooperam entre si produz o comum por meio do comum (nos pré-vestibulares comunitários, nos pontos de cultura, nas comunidades do software livre, nas reservas, nos quilombos, nas favelas)".

Em razão da invasão da produção capitalista em todas as esferas da vida, só é possível pensar em lutas de classes no capitalismo contemporâneo em termos de biolutas: elas ocorrem justamente em torno do duplo e paradoxal processo de inclusão e fragmentação da vida no trabalho. Giuseppe Cocco vê nesse processo algo positivo: "Na luta contra a fragmentação, elas produzem o comum: os territórios da mestiçagem entre cultura e natureza; a cidade dos pobres; um emprego decente; a rede dos movimentos culturais; o trabalho de amor dos professores dos pré-vestibulares, dos animadores dos Pontos de Cultura e dos hackers que colaboram gratuitamente em rede". Seria então a expansão da esfera do comum no pós-capitalismo, algo que Antonio Negri acredita ser possível.

Independentemente da possibilidade de solidificação das instituições do comum (como processo resultante do desenvolvimento do capitalismo pós-moderno e a consequente colisão das forças produtivas com as relações sociais de produção), algo que Slavoj Žižek parece descordar, é fundamental pensarmos sobre esses novos conceitos e analisarmos as relações de produção a que estamos submetidos atualmente.

As universidades ainda estão incompreensivelmente distantes dos debates sobre questões sociais que necessariamente exigem reflexão (pelo simples fato de envolverem a vida de boa parte da sociedade). Para dar um exemplo, um curso de Direito poderia muito bem adotar essa discussão como conteúdo a ser aplicado em aulas de filosofia do direito ou mesmo direito do trabalho. Ao invés disso, os estudantes preferem realizar uma leitura acrítica e dissociada do contexto histórico e político da Consolidação das Leis Trabalhistas.

O exemplo dos bacharéis em Direito é apenas um dos efeitos negativos da ausência de reflexão sobre o tema. O distanciamento da filosofia crítica nas universidades também é danoso para os futuros profissionais da moda, da tecnologia de informação, da publicidade e propaganda, da administração, entre outras áreas notadamente marcadas pelo trabalho imaterial.

Mal sabem eles (esses trabalhadores recém-formados) que, de certa forma, integrarão também o corpo de trabalhadores imateriais e terão seus comportamentos e afetos moldados pela bioprodução. Muitos simplesmente não compreenderão a dimensão ontológica do labor que realizam. Só resta a eles incorporar a "alma" da empresa e desfrutar da vida líquida.

2 comentários:

HU disse...

Olá Rafael. Cá estou eu de novo. Tenho aqui uma resenha de um livro do Sérgio Lessa (mesmo professor dos vídeos que mandei em meu outro comentário). http://adrianonascimento.webnode.com.br/news/resenha%20do%20livro%20trabalho%20e%20proletariado%20no%20capitalismo%20contempor%C3%A2neo,%20de%20sergio%20lessa-/
A principal crítica do livro é exatamente sobre a tendência atual de "esquecermos" alguns princípios marxianos. Recomendo enormemente, afinal Lessa produziu um estudo gigante acerca de Lukács, o qual em sua "Ontologia do Ser Social", dedica várias páginas à categoria do trabalho em Marx. Atualmente estou lendo os Prolegômenos, recém lançada pela Boitempo.
Concordo plenamente com sua crítica à universidade. Vivo diariamente esta dificuldade de análise de meus colegas, professores e gestores. Sou aluno de Ciência da Computação na Unesp de Presidente Prudente. Sou também militante do movimento de Software Livre, o qual tem produzido diversas teses interessantes acerca das teorias de propriedade aos bens imateriais, também bastante relacionado com seu texto. Vale a pena ler a tese de doutorado em Ciência Política do professor Sérgio Amadeu ( http://wiki.softwarelivre.org/TeseSA/WebHome ).
Enfim, novamente, continue com suas ótimas indicações...

Marcia disse...

Rafa,

O que posso comentar acerca de um texto tão profundo que mexe agudamente com os professores e a sua práxis. Como professora universitária eu simplesmente só posso agradecer por compartilhar suas inquietações conosco e a partir delas, eu particularmente pretendo, avançar na discussão sobre o trabalho e o capitalismo. "Essa noite eu tive um sonho que eu era arrastada por mais que eu não quisesse" ao ler seu texto, compreendi ainda mais o meu sonho e a minha dor em ter a profissão que tenho, ela não é facil. Falar, discutir,em especial, como vc discute no seu texto de bioprodução é quase desumano para alguns( em sala os estudantes entram em panico normalmente, querendo algo estavel pela formação academica). Mas, na realidade é a humanização que vc busca.Ou seja, aquilo que nos difere de outros animais por termos a capacidade de refletir por nos mesmos. Agora...Até quanto pensamos por nos mesmos...bom...ai já é tema para outro artigo seu.ahahahah. te amo.

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