Angústia invasiva (tragédia de Agosto)

"Noite Estrelada (1889), Vincent Van Gogh"

Escrever sobre os grandes temas é uma espécie de autodefesa. Pensar sobre movimentos sociais, economia política e direito não deixa de ser uma forma de se esquivar dos assuntos da alma, de impedir que o sentimento tome conta e se torne o próprio objeto de reflexão.

Tenho feito muito isso. Observando meus textos de agosto, vejo que me dediquei a temas como o discurso jurídico, trabalho imaterial e bioprodução, feminismo, teoria do direito e o movimento indiano anti-corrupção. Mas a verdade é que esses textos (de temas tão diversos) foram formas que encontrei para não falar sobre o que mais me aflingia, sobre a intensidade dos fatos familiares ocorridos neste mês. Escrever sobre teorias e acontecimentos políticos não deixa de ser apenas a criação de um escudo sentimental, de não falar do óbvio, do medo.

Os amigos mais próximos já sabem que o drama aparentemente chegou ao fim.  O pior já passou. O prognóstico do meu pai - Odacir Antonio Zanatta (para quem não o conhece) - no momento é bom: está quase recuperado da cirurgia que realizou para desarticular a parte superior do dedão do pé esquerdo em razão de um melanoma invasivo diagnosticado no início do mês  aqui em São Paulo. Por enquanto, não foram identificadas metástases.

Tudo aconteceu de forma muito rápida e intensa. Deixe-me explicar de forma suscinta. No primeiro dia de agosto, após retornar de uma viagem de férias em Minas Gerais, meu pai foi ao médico em Umuarama (cidade onde mora) para ver o que estava acontecendo com uma unha do pé, já tomada por um tecido preto subunguiano. O médico examinou a unha com preocupação e recomendou urgentemente que meu pai viesse a São Paulo para um tratamento adequado. Na quinta-feira, ele chegou na capital paulista e se consultou com o Ival Rosa, conhecido dermatologista da cidade. O médico, ao examinar meu pai, retirou sua unha e mandou o material para biópsia. No mesmo dia, deu-me a notícia de que, pelo estado do tumor, tratava-se de um melanoma invasivo, um câncer de pele maligno. Na sexta-feira, ao receber o resultado da biópsia e confirmar o diagnóstico ocular, Ival me ligou e avisou que era melhor comparecer até a clínica para desarticular o dedo receptor do tumor (ou seja, amputá-lo).

Decisões tiveram que ser tomadas de forma imediata. Eram cinco da tarde do dia cinco de agosto quando meu pai tornou-se ciente de sua condição médica e da urgência  em amputar a parte superior do dedo. Sem maiores reflexões, decidiu (com razão) desarticular o dedo no mesmo dia, por causa da possibilidade de metástase do tumor. Os minutos suavam a frio. Às 19h, ele recebeu a anestesia e passou por uma cirurgia de mais de uma hora para desarticulação da parte tomada pelo melanoma.

Enquanto meu pai fazia a cirurgia, eu esperava angustiado com o Michel no saguão da clínica. A Priscila, por sorte (ou azar), tinha ido para a universidade entregar um trabalho de conclusão de curso e não acompanhou o drama da escolha daquela tarde de sexta-feira. Tudo parecia muito irreal. Para tapear minha própria mente, li - durante a cirurgia - um romance do Jerzy Kosinski sobre um jardineiro sem passado e registro, Chauncey Gardiner, que, por mero acaso, havia se tornado uma das mais importantes figuras públicas dos Estados Unidos. Eu tentava disfarçar, mas a angústia, assim como o melanoma, era invasiva.

Naquela noite fomos para nosso apartamento na Augusta e conversamos sobre os próximos passos do tratamento. Havia uma lista de remédios (antibióticos, analgésicos, etc) para comprar. Fazia frio em São Paulo e a famosa rua estava lotada de gente contente e embriagada. Era o primeiro final de semana do mês e a massa cult estava prestes a gastar parte do salário em alguma noitada augustiana. Em contraposição,  eu caminhava deslocado daquela aurea compartilhada e me sentia noutra dimensão; noutro plano, mais denso e cinzento. Era difícil encarar a realidade. Eu não queria aceitar a possibilidade de que meu pai poderia em breve morrer (alguém consegue?).

O final de semana foi extremamente delicado e corrosivo. Não havia o que fazer, apenas esperar para realizar os exames na semana seguinte para, aí então, agir (conforme o nível de invasão do câncer). As emoções estavam à flor da pele, requestionando o que de fato tem valor na vida. É inevitável. Rubem Alves tem aqui uma importante lição nietzscheana: "a possibilidade da morte conduz aos pensamentos essenciais". Impossível não lembrar de Nietzsche: a doença tem mesmo essa capacidade de escancarar a potência de vontade de vida ("eis como me aparece agora aquele longo período de doença: como se eu tivesse redescoberto a vida, inclusive a mim mesmo; eu provei todas as coisas, as boas e mesmo as pequenas, de uma forma como os outros não podem facilmente provar. Transformei, então, a minha vontade de saúde, minha vontade de viver, numa filosofia").

A doença não abateu Odacir. Pelo contrário, serviu de ação para uma reação otimista de maior intensidade do que aquela que a gerou, declarando em alto e bom som a vontade de viver. A forma como meu pai encarou a notícia ("vamos lá enfrentar esse câncer!") foi fundamental para amenizar o mal-estar que sentia. É claro que ele estava com medo - e todos nós estávamos -, mas foi capaz de transformá-lo em esperança (em "sonho de um homem acordado", como dizia Aristóteles).

Entre os dias 08 e 12 de agosto todos os exames foram feitos para localizar possíveis metástases em órgãos vitais como pulmão, intestino e fígado. Na sexta-feira, uma semana depois da cirurgia de desarticulação, fomos ao Hospital Sírio-Libanes para fazer o PET Scan, o mais completo exame oncológico para identificação de tumores cancerígenos. No mesmo dia saiu o resultado de um outro exame, expressando que o pulmão de meu pai estava sem úlceras (e para comemorar tomamos um chopp weissbier!). O cenário começou a mudar, transformando a ácida angústia em tranquilidade básica.

O dia dos pais, celebrado no dia 14 de agosto, teve uma simbologia especial. Foi um domingo repleto de abraços, carinhos e reflexões. Almoçamos em família (com a presença do Renan, meu irmão, e da Máriam Trier, noiva de meu pai que havia chegado na cidade alguns dias atrás). A ocasião não deixou de ser mais uma ironia do destino: se não houvesse o tratamento em São Paulo, não passaríamos a data em conjunto, em razão das obrigações profissionais e acadêmicas de cada um.

No dia 15 saiu o resultado do PET Scan. Fui buscá-lo com a Priscila e a Máriam. Foi um momento tenso. Deveríamos abrir ali mesmo ou esperar a consulta médica? E se o resultado é positivo (de que há metástase)? Melhor receber a notícia ou saber de antemão?

Não resistimos e abrimos o resultado. O laudo era negativo: nenhuma metástase identificada, apenas uma inflamação do gânglio sentinela. Não sabíamos interpretar o resultado de forma completa, mas sabíamos que a coisa era boa. O tom do céu ganhou outra cor.

No final da tarde fomos ao consultório do Dr. Ival. Meu irmão também estava presente, vindo especialmente do litoral do Paraná para acompanhar o desfecho do caso. O dermatologista explicou que a inflamação do gânglio linfático (o chamado "sentinela") poderia ser em razão da cirurgia de desarticulação ou em razão de células cancerígenas e sugeriu que o gânglio fosse retirado cirurgicamente para exame histológico. No mesmo dia, o médico avisou que havia recebido uma ligação do responsável pela biópsia do tumor e que o mesmo havia lhe informado que a invasão do melanoma era superficial, minizando as chances de potenciais danos.

Eu havia lido diversos artigos sobre melanoma invasivo e sabia que o quadro clínico não era bom. Se fosse confirmada alguma metástase, meu pai teria menos de 10% de sobrevida em cinco anos. Esse é um dado científico que não é fácil de ser compreendido. Nenhum filho quer ler uma estatística desse tipo. Entretanto, como (até o momento) nada aconteceu em outros órgãos - e o tumor se mostrou grande, mas sem metástase identificada -, o cenário muda bastante. Obviamente cada organismo apresenta uma reação diferente ao câncer, mas a maior parte dos pacientes deste quadro (melanoma invasivo que não atacou outros órgãos) tem boas taxas de sobrevida.

Depois dessa notícia, meu pai ficou em casa até dia 22 para realizar os exames prévios para a última cirurgia de tratamento, que ainda não foi realizada. Ele foi para Maringá, onde há uma equipe médica com competência para tal procedimento cirúrgico. E foi feliz, levando sua espiritualidade integral e lentes positivas de enxergar o mundo.

O fato de ter perdido uma parte do corpo (um trauma para qualquer ser humano, sem dúvidas) foi encarado com bom humor. O episódio ganhou até trilha sonora. Segundo meu pai, a música "Na Primeira Manhã" do Alceu Valença serve como poesia musicada adequada para o caso (Na primeira manhã que te perdi / Acordei mais cansado que sozinho / Como um conde falando aos passarinhos / Como uma bumba-meu-boi sem capitão / E gemi como geme o arvoredo / Como a brisa descendo das colinas / Como quem perde o prumo e desatina / Como um boi no meio da multidão). E ainda soltou uma piada: como é paulista que fez a vida no Paraná, por questão de justiça, teve que "deixar um dedo pra São Paulo".

A angústia aos poucos retrai-se e se torna apenas um episódio na memória de cada um. As cicatrizes (não só do dedo) vão se fechando, lembrando que a vida é potente e que o viver está aí para ser saboreado. A tragédia do mês de agosto gerou uma espécie de catarse interpessoal necessária para o reconhecimento de que a vida tem valor por si só e que há um desejo intenso em vivê-la, superando qualquer desafio. Por fim, a produção do medo gerou sua própria libertação. Eis a lição de Aristóteles sobre a missão da tragédia na Poética: "produzir, através do exercício do medo e da piedade, a libertação de tais emoções".

10 comentários:

Priscila B.C. disse...

Que lindo texto, Rafa. Como sempre.

Interpreta, revive e torna poesia os momentos que vivemos nas últimas semanas.

É bom ter um registro tão belo e cheio de sentimento como este. É bom reviver, através da leitura da memória, da história. É bom reviver pra lembrarmos sempre do valor da vida.

Você foi muito bravo e firme durante o processo. Deu um tempo à dor e à confusão: Na primeira noite (da desarticulação), esses sentimentos tiveram todo o espaço que deveriam ter e percebi o quanto você estava aflito. Foi uma noite difícil e depois de tantos anos de convivência intensa, conheci uma nova expressão no seu rosto, um medo e um desconforto que jamais havia visto. Na manhã seguinte, nada mais parecia tirar-lhe a coragem. Não só sua mas como do lendário guerreiro Oda. Acordaram no sábado com uma disposição inacreditável para vencer essa sombria etapa da vida.

Uma lição, dessas de filme mesmo, tivemos neste mês que passou.

Um viva à vida!

Bruno Vicentini disse...

Acompanhei o drama de longe. Fico extremamente feliz com as boas notícias e contente com o bom humor do nosso velho companheiro. Bom humor é quase que tudo na vida.

Mas o autor de "Agosto" é o Rubem Fonseca, não o Alves.

Um abraço, Rafa.

Rafael A. F. Zanatta disse...

PS: Um forte abraço e agradecimento aos mais de cinquenta amigos que desejaram boas vibrações (mesmo que seja com o simplório botão "Like" do Facebook) na recuperação do Odaça. Ele é um cara querido.

Rafael A. F. Zanatta disse...

Corretíssimo, Bruno, Já está atualizado. Confundi os sobrenomes. Mas o Alves, apesar de não ter a projeção do Fonseca, é bacana. Ele lançou um livro em parceria com o falecido Moacyr Scliar recentemente.

Bruno Vicentini disse...

Entre os dois, fico com o Rubem Braga!

Rafael A. F. Zanatta disse...

Posso estar enganado, mas acho que o "200 Crônicas Escolhidas" (Braga) está lá na estante de livros do velho Oda.

Marcia disse...

Rafa,
Expressar é sempre muito bom. Fico feliz de vc ter materializado toda sua angustia e dor nessas linhas. De fato, o que passamos foi um grande susto que trouxe uma grande certeza do quanto somos unidos e nos amamos. Cada dia de espera por uma resposta, foi de fato, um dia de sofrimento e angustia para todos nós. Para mim, coube a capacidade de guardar dentro a dor que sentia e expressar fora a alegria que tinha pela colação de grau do Renan (afinal, foi tudo muito junto). A formatura, também era um momento esperado e importante para a familia. Graças a Deus e a todo esse amor manifestado, agora estamos todos bem e felizes com os resultados dos exames. Se pai esta bem, vc é claro sofreu ainda mais com a angustia de cada passo do tratamento, mas sai agora revigorado desse processo. Eu por aqui, posso apenas agradecer a maravilhosa familia que tenho e a coragem que possuimos de expressar o nossa vontade de viver e de amar. Obrigada por todo seu carinho e pelo cuidado que dedicou ao seu pai. De coração agradeço. Mama.

Odaça disse...

Texto muito apropriado, filhão.
Realmente, como você já escreveu, a batalha que travamos contra o melanoma já deve estar chegando ao fim.
Amanhã, dia 30/08, iremos (eu e a Má)para Maringá para dar continuidade aos procedimentos iniciados em São Paulo.
Terei uma consulta com o anestesista que irá me sedar no dia da cirurgia para retirada do gânglio sentinela, que ocorrerá no dia 01/09, às 16 horas.
Será um procedimento simples que acontecerá no Hospital do Câncer de Maringá, onde deverei pernoitar.
Caso a análise do gânglio seja negativa, assim esperamos, tudo se encerra por aí.
E vai encerrar, se Deus quiser.
Agradeço todo o carinho e atenção que me foram dispensados durante minha estadia em Sampa.
Um beijo.

Máriam disse...

Rafa,
Adorei seu relato! Você conseguir expressar exatamente todos os sentimentos vividos na República 34 durante esse mês.

Às vezes, quando estamos dentro do problema, não conseguimos enxergar sua dimensão, de dentro do furacão a visão fica desfocada pela alta velocidade. A única coisa que conseguimos fazer é ir com ele para onde ele vai.


Agora, já mais tranquilizados, gostaria de agradecer a todos vocês cada gesto nesses dias. Isso foi fundamental para a rápida recuperação e restabelecimento da saúde do Odaça. E está comprovado que rir é o melhor remédio! :)

Um beijo, Má

PS. as comidinhas especiais que a Pri fez também foram santos remédios!!

Rafael A. F. Zanatta disse...

E o caso teve o desfecho esperado!

Eis a mensagem do digníssimo: "Para aqueles que ainda não sabem, após realizar vários exames na capital paulista e completar a pesquisa de eventuais metástases em Maringá, onde realizei outra cirurgia para pesquisa de gânglio sentinela, na coxa esquerda, que ocorreu no dia 01/09, tive a Graça Divina de estar totalmente saudável.
Graças a Deus todos os exames deram negativos. Aleluia!
Ontem retirei os pontos da cirurgia e já estou na ativa.
Muito obrigado pela força e orações que recebi de cada um de vocês."


Maravilha!

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