A ascensão da extrema-direita islamófoba

Por motivos mais do que óbvios, a mídia internacional deu mais relevância à morte (tragédia anunciada) da cantona Amy Winehouse ("ex-colega" de bairro em Camden, nos tempos que morei em Londres) do que ao brutal ato de terrorismo de um norueguês cristão de trinta e dois anos chamado Anders Behring Breivik num acampamento do Partido Trabalhista em Utoya.

Breivik foi noticiado como uma pessoa insana que abriu fogo contra seus conterrâneos por motivos torpes (desejo de matar ou algo do tipo). Entretanto, um olhar atento aos motivos do ato de violência ocorrido em Utoya e o atentado à bomba em Oslo deixa claro que se trata de um evento que escancara a existência de fortes grupos de extrema-direita na Europa dispostos a promover o ódio e a segregação racial contra os povos islâmicos a qualquer custo. 

Pouco foi comentado sobre o assunto do fundamentalismo cristão, mas horas antes do atentado, Breivik publicou na internet, e enviou para diversos grupos de extrema-direita, o manifesto "A European Declaration of Independence - 2083", assinado sob o pseudônimo de Andrew Berwick. Trata-se de um livro de mais de 1.500 páginas sobre como a Europa Ocidental deve se opor ao multiculturalismo marxista e à islamização. É puro anti-multiculturalismo. Raramente vi algo tão assombroso. O manifesto é uma espécie de Mein Kampf hitleriano com estratégias de resistência anti-islâmica.

O que isso demonstra? Historicamente, sabemos que em tempos de crise o discurso fascista ganha fôlego e força. Talvez seja o caso de uma minuciosa avaliação do tempo presente para verificarmos a que nível está o discurso de extrema-direita e quem são os potenciais judeus alvos do ódio de massa.

No momento, guardo comentários mais profundos para uma ocasião futura. Reproduzo abaixo mais um brilhante texto do filósofo Vladimir Safatle publicado na Folha de São Paulo. Pra variar, Safatle tocou no cerne da questão.



Um fantasma na Europa
Vladimir Satafle

Há 60 anos, os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer forneceram uma das mais instigantes leituras do nazismo, do fascismo e de sua lógica de segregação. Consistia em mostrar como estávamos, na verdade, diante de um tipo de patologia social.

Isso não significava dizer que os fascistas seriam "monstros patológicos", "perversos" e coisas do gênero. É alentador acreditar que apenas monstros são capazes de produzir monstruosidades.

Tratava-se, na verdade, de mostrar como o fascismo conseguira se colocar como um modelo de forma de vida. No caso, uma forma de vida constituída através da transformação de comportamentos patológicos em norma social, de temáticas que normalmente aparecem em delírios paranoicos no conteúdo de discursos políticos tacitamente aceitos.

Assim, delírios de perseguição se normalizavam por meio da crença de que um elemento estranho estava infectando a bela totalidade de nosso corpo social. Elemento que destruiria, com o beneplácito de cosmopolitas ingênuos, nosso caráter nacional naquilo que ele teria de mais especial.

Força e disciplina eram convocadas para restaurar esse corpo quase moribundo separado de seu solo, mesmo que tal solo seja hoje uma fazenda de produtos orgânicos.

Por sua vez, delírios de grandeza animavam discursos que pregavam a amplidão redentora da nação. A identidade era, assim, elevada à condição de sistema defensivo ameaçado, e, por isso, compulsivamente afirmado.

Não por acaso, palavras como "limite", "fronteira", "território" tornavam-se os significantes centrais do discurso político. A defesa da identidade se tornava uma patologia.

Lembrar isso, após o massacre em que um norueguês islamófobo, cristão conservador e simpatizante de partidos de extrema-direita matou dezenas de jovens do Partido Trabalhista, é só uma forma de insistir como alguns não aprendem nada com a história.

Tal como o direitista americano que, meses atrás, atirou contra uma deputada democrata em Tucson contrária a leis mais duras contra a imigração, o que temos aqui é simplesmente alguém que quer realizar tal forma de vida fascista com as próprias mãos.

Eles não querem esperar os partidos xenófobos ganharem para "eliminar" os imigrantes. Preferem passar ao ato, literalizando o discurso que ouvem todos os dias.

De nada adianta lembrar que estudos recentes da OCDE mostram que os imigrantes contribuem mais para a seguridade social do que usam tais serviços, ou seja, geram mais riquezas do que consomem.

De nada adianta lembrar isso, porque não estamos no domínio do argumento, mas no dos afetos patológicos cada vez mais naturalizados como discurso no jogo político.

4 comentários:

Raquel Sirotti disse...

Discussão essencial!

Barbara Ann disse...

Rafa, escreve sobre a Amy! tô sofrendo.
uehiehieuhe
:*
(e a formatura, tava boa?)

Rafael A. F. Zanatta disse...

A Noruega - sim, a Noruega - também padece da corrosão social provocada pela rejeição aos imigrantes e pelo descrédito nas instituições públicas que minam os alicerces da Europa Ocidental. No país mais evoluído do mundo, se considerado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), parâmetro das Nações Unidas para medir progresso econômico e bem-estar social de uma nação, uma insatisfação silenciosa toma os subterrâneos do debate político, em especial por anônimos usuários da internet. É um descontentamento com matizes no pensamento xenofóbico e islamofóbico, sob um pano de fundo de ultradireita cristã.

Esse coquetel pode parecer familiar desde o dia 22 de julho. Ele está reunido no discurso de um homem: Anders Behring Breivik, de 32 anos, assassino confesso de 77 pessoas - a maioria jovens com idades entre 14 e 18 anos. Breivik é o autor dos atentados perpetrados em Oslo e na Ilha de Utoya, na Noruega, eventos que rompem com a ingenuidade poética do culto à paz, marca até aqui do país.

Breivik, ou O Cruzado, como se denominava em sua organização terrorista, a real ou imaginária Cavaleiros Templários, é a síntese bem-acabada de um conservadorismo extremo já conhecido dos noruegueses. O que esse jovem revela, dizem especialistas como o cientista político Marcus Buck, pesquisador da Universidade de Tromso, uma das seis do país, é um grau de violência devastador - até aqui inédito na Escandinávia. Para explicar as origens da inocência e as razões do ódio, Buck concedeu entrevista exclusiva ao Aliás nessa semana. Enquanto o país vivia nas ruas seu mais profundo luto, expresso sem revanchismos na comovente Marcha das Rosas, o cientista político buscava numa menor porção da sociedade norueguesa, mas também na história do conjunto, em suas religiões e seus povos, as explicações de tanta ira.

Em sua análise acurada, Buck reitera um ponto: os atentados de Oslo e Utoya, assim como os de Madri e Londres, não indicam que o multiculturalismo da Europa falhou, como sugere o recente consenso de líderes políticos da França, Reino Unido e Alemanha. Não falhou, diz o acadêmico, porque o multiculturalismo não passou de um discurso vazio em solo europeu. Não houve interação entre culturas autóctones e imigrantes, nem os diferentes povos e religiões passaram a partilhar um desafio comum, como ocorre nos Estados Unidos ou no Canadá, onde a consolidação de uma pátria forte é um cimento social.

Nesse sentido, a construção de uma Europa unida, tão almejada por líderes políticos ao longo de 60 anos, não parece mais agregar diferentes povos, línguas e culturas. Nem mesmo as sociedades mais bem- sucedidas do ponto de vista econômico e social, como a Noruega, estão imunes à trepidação. Daí, talvez, a cruel perda da inocência em Oslo e Utoya. De fato, reiteraria Theodor Adorno, não parece mesmo existir poesia após Auschwitz.

Rafael A. F. Zanatta disse...

Matéria acima assinada pelo Andrei Netto, do Estadão.

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