O ser mulher e a feminilidade

"Après le bain, femme s'essuyant la nuque vers" (1899), Edgar Degas

Eu sou homem, não sou mulher. Portanto, por mais que eu me esforce, é muito provável que qualquer tentativa pessoal de responder à questão "o que é ser mulher?" será falha e insatisfatória. Mesmo assim, eu não posso deixar de refletir sobre o tema, considerando que passei o Dia Internacional da Mulher com duas mulheres fundamentais na minha vida: i) minha mãe Marcia Regina e ii) minha namorada Priscila - responsáveis por me mostrarem com alguma clareza um pouco do universo feminino, além de serem minha referência quanto à feminilidade, o que torna minha percepção um tanto quanto suspeita, pois ora me vejo como filho, ora como amante (no sentido original da palavra, isto é, aquele que ama outrém).

Mas deixemos de lado essas reflexões sobre minha posição de observação do universo feminino e voltemos à questão por excelência, força motriz desse texto.

Há uma grande diferença em pensar "o que é ser mulher" e "o que é ser mulher hoje". Deve ter havido, há muito tempo, uma sociedade comandada pelas mulheres - dizem que existiu, não sei quando nem onde -, entretanto precisamos reconhecer que a realidade é outra e nos mostra claramente que os últimos séculos foram dominados pelos homens. O poder - físico, político, religioso ou em qualquer modalidade - era (e ainda é) masculino. De fato, toda a estrutura familiar moderna tem sido organizada, desde os tempos da "Cidade Antiga" de Fustel de Coulanges, em torno da figura do pai - o homem responsável em ditar as regras e sustentar os outros membros dependentes (mulher e filhos).

Uma das explicações para esse fenômeno é que esse tipo de organização familiar foi uma estratégia utilizada pelos homens para exercer maior controle sobre a mulher (que segundo a moral cristã, foi a "pecadora" responsável pela expulsão do Paraíso), uma vez submetida apenas aos afazeres domésticos e maternos.

Pois bem. Eu não pretendo fazer uma investigação sobre as origens do machismo e do poder simbólico exercido sobre as mulheres nos últimos tempos. Entretanto, é preciso compreender que o poder patriarcal e o "machismo" cultural é um mutável fenômeno das sociedades capitalistas.

Não há dúvidas que "ser mulher" em 1925 - quando minha avó Ana Zimiani veio ao mundo - era muito diferente do que "ser mulher" em 1987 ou nos dias atuais. De geração em geração, é possível notar as diferentes perspectivas sobre  o papel da mulher na sociedade - o que se explica, no campo econômico, (i) em razão da independência econômica alcançada pelas mulheres após a Revolução Industrial e as Guerras Mundiais, e, no âmbito cultural, pela (ii) "Revolução Feminista" ocorrida durante as décadas de 60 e 70, que trouxe à tona o "segundo sexo" e a "mística feminina".

Mesmo com todas essas mudanças de óticas sobre a função da mulher, creio que há algo mágico e atemporal em ser mulher. O que me inspira não é analisar o papel da mulher na sociedade hoje, mas sim explorar a essência da feminilidade, estabelecer uma possível ontologia feminina, investigar esse "algo" místico que permanece durante a história da humanidade, essa insustentável leveza (e beleza) do ser feminino. Seria possível fazê-lo ou essa é uma tarefa impossível? Existe um único signo presente no sorriso de Mona Lisa e no olhar de toda mulher? Esse é o enigma que me fascina.

Um psicanalista belga chamado Serge André uma vez escreveu que a oscilação entre o culto da mulher como mistério e o ódio à mulher como mistificação seriam posições que só serviriam para alimentar o desconhecimento sobre a verdadeira questão da feminilidade, pois postulam que a mulher é como um esconderijo que dissimularia alguma coisa.

Mas se o culto da mulher como mistério (o ser "esconderijo"; o enigma) só levaria ao desconhecimento, então no que consiste a feminilidade? É possível conceituar a feminilidade ou é possível apenas analisar o processo de busca de tal conceito?

Na minha frágil visão masculina, o "ser mulher" carrega em si a leveza, o erotismo e a sublimação. Leveza, pois é o mais belo e delicado dos seres existentes; erotismo, pois desperta nos homens (heterossexuais) um desejo inexplicável e inebriante; e sublimação pois é um ser capaz de tornar tudo sublime (paradisíaco, ideal).

Mas, afinal, o que quero dizer com "sublimação" e tornar tudo sublime? Como a mulher pode elevar algo?Não seria essa sublimação um processo que se dá na mente dos homens? Não seria, portanto, uma perspectiva masculina da feminilidade originada em nosso inconsciente?

A psicanálise entende a sublimação de outra forma, muito mais complexa. Sigmund Freud a definiu, no início do século XX, como o deslocamento inconsciente das cargas instintivas sexuais para objetivos novos, ou o "desvio da pulsão de um alvo sexual para alvos não sexuais". Para Freud, o "alvo mais elevado" dizia respeito a valores da cultura, mais elevados em relação ao indivíduo. Esse alvo não sexual poderia ser a arte (nesse sentido, o "belo" seria tudo aquilo que um dia foi "sexualmente estimulante"), a religião e a curiosidade cientifica. Entretanto, mesmo o alvo não sendo sexual, a libido permaneceria como energia utilizada no processo de sublimação. No ensaio sobre o Narcisismo, escrito em 1914, Freud escreveu que: "a sublimação é um processo que diz respeito à libido objetal e consiste no fato de o instinto se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade da satisfação sexual; nesse processo, a tônica recai na deflexão da sexualidade"

Neste viés freudiano, esse texto poderia ser entendido como um ato de sublimação (criação cultural) motivado por cargas instintivas sexuais. Ou seja, somente escrevo sobre o "ser mulher" por uma pulsão instintiva, transformando minha libido objetal sexual numa libido do ego. A sublimação seria esse ato de transformar a baixeza das paixões da carne em matéria-prima de coisas sublimes.

Mas espere um momento. Será que Freud está certo? Seria a manifestação dinâmica da sexualidade responsável por originar esse texto? Seria a busca do conceito de feminilidade (ao pensar o "ser mulher") uma criação do homem originada pelo desvio de seus impulsos sexuais?  Não seria um exagero explicar tudo pelo sexo e pela satisfação?

Jacques Lacan formulou de outra forma o conceito de sublimação e afirmou que: "a fórmula mais geral que lhes dou da sublimação é esta - ela eleva um objeto à dignididade da Coisa". Este objeto, na visão lacaniana, não é outro senão o objeto narcísico e imaginário, pois somente um objeto narcísico, ou identificado com o ideal de ego do narcisismo, poderá desencadear o processo sublimatório. A ideia de Lacan é que, a princípio, o homem havia se satisfeito com algo que ele chamou de Coisa (Das Ding), mas a consciência de que essa Coisa havia existido só existiria a partir do momento em que tivéssemos entrado em contato com a cultura que dizia que poderíamos nos satisfazer com determinados objetos. A Coisa é um objeto de satisfação, entretanto a satisfação é sempre parcial, pois a pulsão nunca atinge a Coisa.

Onde estamos indo com todo esse papo? Não sei, confesso que me perdi nas reflexões da teoria psicanalítica sobre o processo sublimatório - que nada explica sobre a essência feminina, mas apenas dá alguns indícios das motivações desse texto. Voltemos à questão da feminilidade e o contraste do sexo feminino com o masculino.

Ser mulher é aceitar não ser homem? Porque nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" Freud afirma que a libido é, "regular e normativamente", de natureza masculina?

Freud não consegue explicar o que é ser mulher e o máximo que faz é conceituar o "tornar-se mulher". Na perspectiva freudiana, no percurso à feminilidade, a menina tem que mudar de objeto de amor (mãe-pai) e de zona erógena (clitóris-vagina) para tornar-se mulher, recalcando sua sexualidade masculina inicial.

Para Freud, a feminilidade é considerada uma experiência que coloca as insígnias fálicas em suspensão, o que leva a que se delineie de maneira radical o universo caótico das pulsões e do descentramento do sujeito. A feminilidade seria a fonte de uma experiência psíquica marcada pelo horror, produzido pela perda da referência fálica. Em suma, na visão negativista freudiana, a mulher é um ser castrado e desamparado.

Freud foi incapaz de compreender o "ser mulher" através da sexualidade masculina. Para ele, a feminilidade seria um insondável dunkler Kontinente ("continente negro")Não é atoa que Sophie Freud, neta do próprio, chegou a dizer: "Meu avô era um homem bom e carinhoso, mas ele não entendia nada de sexualidade feminina".

Mas nem tudo se resume a Freud. Outros pensadores reformularam a psicanálise freudiana (que só foi capaz de analisar a feminilidade de seu tempo) e propuseram outras formas de pensar a questão da feminilidade. Joel Birman, psicanalista brasileiro e autor do livro "Cartografias do Feminino" (1999), a interpretou através da positivação (gesto teórico que implica na crítica contundente à teoria sobre a diferença sexual que tem no falo o seu principal operador) e afirmou que "a feminilidade é a revelação do que existe de erógeno no desamparo, a sua face positiva e criativa, isto é, o que este possibilita ao sujeito nos termos de sua possibilidade de se reinventar permanentemente".

Para Birman a feminilidade é a incompletude, essência do ser. Criticando a perspectiva freudiana, ele pontua de forma genial: "a feminilidade é a forma crucial de ser do objeto, pois sem a ancoragem nas miragens da completude fálica e da onipotência narcísica, a fragilidade e a incompletude humanas são as formas primordias de ser do sujeito. Justamente por isso que o sujeito seria desejante. O que nos move no erotismo é a certeza de nossa incompletude, por um lado, e a crença na completude a ser oferecido pelo gozo, por outro. Contudo, como essa segunda possibilidade não se realize nunca, sendo uma utopia, pois se na pontualidade o gozo como uma pequena morte nos faz crer momentaneamente que a fusão cósmica se realizou para o sujeito, logo no despertar a incompletude se apresente novamente. A pulsação se apresenta de novo, evocando a nossa insuficiência e finitude. Por isso mesmo, o erotismo é marcado pela repetição no seu ser, sendo um eterno recomeço e um eterno retorno (Nietzsche)".

Portando, reformulando minha colocação inicial, a feminilidade carrega em si a leveza, o erotismo, a sublimação e a incompletude. E isso não é negativo, como colocou Freud. Talvez a incompletude seja a própria essência da humanidade. 

O erotismo humano se funda no desamparo do sujeito e na feminilidade. Por isso, para Birman, devemos reconhecer que somos desamparados por vocação, pois é o nosso desamparo que nos remete permanentemente para o erotismo, num movimento infinitamente marcado pela circularidade.

No sedutor desamparo feminino reside a força enigmática que encanta todo homem. 

Se aceitamos nossa condição humana de desamparo e incompletude, logo incorporamos melhor a "feminilidade", tal como expõe a psicanálise contemporânea. Não nos tornamos inferiores (superando a interpretação negativista freudiana), mas sim mais humanos.

Talvez a mulher traga em si a essência da condição humana.

Mesmo assim, essa é apenas uma suposição longe de atingir a ontologia da feminilidade de forma satisfatória (e não seria a satisfação total impossível?).

4 comentários:

Rafael A. F. Zanatta disse...

Acho que a análise de Denise Maurano, do Rio de Janeiro, vai mais a fundo: "Nosso querido Freud já se coçava com essa questão: o que quer uma mulher? Eis o enigma central do insondável continente negro, maneira pela qual designa a mulher. Essa, inclusive, não existe, radicaliza Lacan, autor tão caro à autora do livro. Mas não se espantem! Nós existimos em nossa materialidade empírica, contadas uma a uma, o que não existe é a possibilidade de sermos generalizadas frente a um artigo definido: A mulher. Somos mesmo é marcadas pela indefinição, um pouco isso, um pouco aquilo, nunca totalmente. A psicanálise e a vida nos ensinam: um homem se mede por outros; o poder viril visa sempre à totalidade. Já a mulher, em sua dimensão feminina, quer ser contada como única, escapa a toda representação que tente apreendê-la".

Luiz disse...

oee zapa, andou lendo muita simone de beauvoir foi?? hahaha
ficou muito bom o texto rapaz =)

Rafael A. F. Zanatta disse...

Beauvoir é uma influência!

Marcia disse...

Filho,
Que posso dizer sobre um texto tão questionador sobre o que esta posto (Freud)e também muito sensível. O que é ser mulher e o que as mulheres querem é de fato esse exercicio permanentemente que vc faz comigo e com a Pri. Seu grande valor é a seu processo de escuta e de profunda busca de compreensão nesse universo feminino tão vasto. Amo ser mulher, amo minha condição feminina e amo mais ainga o prazer de confidenciar as vc meus sonhos de mulher. Parabéns!!!!a reflexão foi maravilhosa. bjs

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