Só não sei se seus leitores terão estomago pra tudo isso

"Ao sair, seguindo o Vampiro, entendi a Curitiba, a Curitiba que só é enxergada a noite, com seus bêbados, com suas características peculiares, com suas maldições, com mocinhas de todas as formas passeando de um lado para o outro, oferecendo-se, seus corpos, suas pequenas vidas. Conheci Curitiba, o local perfeito para habitar o Vampiro. Andamos até a Avenida Marechal Floriano Peixoto e entramos em um prostíbulo barato, adornado de pequenos e velhos sofás e uma luz vermelha, que tremeluzia, ao som de boleros antigos e de canções de Caruso. Principalmente, adornava o local algumas mocinhas, que maliciosas teceram comentários afirmando que o tiozinho trouxera mais senhores distintos consigo. Inútil afirmar que com mais mimo fomos tratados, quando descobriram pela nossa fala que éramos estrangeiros, mimo doce de meninas novas, algumas fugidas de casa, outras fugidas da vida, meninas de espartilho, de saias curtas, de roupas de couro, com chicotes, com todos os tipos de adereços. O Anfitrião então se sentou em um dos sofás da casa, chamou com o olhar duas mocinhas que prontamente se aconchegaram aos seus braços e disse: “Isso é literatura. Aqui verão o que mil livros têm pudores de dizer” Sentamos ao seu lado e fomos acompanhados de muitas meninas, que sentaram conosco. Nossa curta estadia com o Vampiro se resume nesta cena: três escritores, calados, tomando vinho barato feitos em uma cidade próxima e encharcados da atmosfera criada pela luz vermelha, escutando histórias fantásticas de prostitutas, guiadas pela batuta do mestre de cerimônia... o Vampiro. As histórias escutadas naquela noite são as histórias que as prostitutas têm a contar em todos os locais, pelos séculos, com limitadas variações. A história do amor entre a prostituta e o cliente. A rejeição deste amor. A história do rapaz virgem, que conhece os mistérios do amor com uma prostituta. A história da prostituta que engravida, da que nunca saberá o rosto do genitor da criança, ou da que sabe, da que casa com seu cliente, mas não abandona o ofício, o dom que lhe foi destinado. A eterna história que se compra o corpo, não a alma. Que se compra um cu, mas não um coração. Que se pode bater, falar palavrões, mas não se pode beijar – porque o beijo é intimo demais pra ser comprado. Embriagados todos de vinho, nós quatro rimos e choramos das comédias a tragédias que nos foram ditas e que tantas vezes foram vividas, em tantos locais, em tantos tempos... E, já bêbados, fomos mais uma vez inquiridos pelo Vampiro, dono da noite, dono da situação. “Isso é literatura. A literatura que não pode ser contada, que não pode ser escrita, por que os leitores, por que os editores, são pudicos, tem vergonhas, famílias, por que as mulheres não podem aceitar que seus maridos mintam que vão trabalhar e venham para esse sagrado local em busca de sexo e prazer. O mundo não pode escutar nossas verdadeiras palavras, a verdadeira literatura, porque eles não querem escutar, porque nada disso é conveniente a eles."

Gostou?

Então leia mais do texto Tiferet, do blog Crônicas de Gaia, de meu amigo (e jurista formado na UEM) Marcos Peres Gomes Filho.

Um comentário:

Guacira Leika disse...

Ótimo texto de prostitutas sofisticadas de espartilho e roupas de couro...

Maravilhoso trecho: "...A eterna história que se compra o corpo, não a alma. Que se compra um cu, mas não um coração. Que se pode bater, falar palavrões, mas não se pode beijar – porque o beijo é intimo demais pra ser comprado..."

E ai Rafa, corrido o quinto ano? Esses dias tava fazendo minha monografia, e vi que tava fazendo a sua, só por curiosidade, sobre o que?

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