mais uma segunda-feira

Estou numa tarde de descrença geral. É uma mistura de impotência, ceticismo, certa paz (seria conformismo?) e tentativas ingênuas de analisar a tudo e a todos, como se tudo fosse multicomplexo, mas explicável por muitas vezes.


Talvez tenha sido o papo após o almoço com uma colega chamada Ana, membra do Movimento Não ao Não - o ápice da dialética, como ela mesmo disse. Mas que dialética? O Aurélio me diz que segundo a filosofia, seria o desenvolvimento de processos gerados por oposições que provisoriamente se resolvem em unidades. Hegel aponta como a natureza verdadeira e única da razão e do ser que são identificados um ao outro e se definem segundo o processo racional que procede pela união incessante de contrários - tese e antítese - numa categoria superior, a síntese. Pra Marx, a dialética é o processo de descrição exata do real.


Eu fiquei ligeiramente interessado pelo movimento. O jornal tem um projeto gráfico muito bem montado pelo pessoal da arquitetura e urbanismo da USP. Bom, puxei uma cadeira e batemos um papo sobre o movimento em si. Depois de me informar sobre o que se tratava o movimento, iniciamos um papo sobre os objetivos do grupo. A Ana me disse que a única forma de se obter resultados era com a revolução.


A revolução? A revolução é um mito! Ainda mais no Brasil. Eu não se fiquei muito influenciado pelas leitura do Cyro Marcos, sempre com referências à Freud e Lacan, mas eu vejo as coisas muito mais pelo lado do indivíduo agora. Não há e não haverá revolução social. O que se pode mudar é uma estrutura econômica ou política, mas o que é inerente ao homem, a consciência sempre dependerá da reflexão, da angústia, do reconhecimento sólido da pessoa como indivíduo. Da fenda entre consciente e inconsciente.


Eu ando pelas ruas, a minha realidade, a cidade de Maringá, o meu bairro Zona 07, a Av. Herval, a Av. Brasil, e eu vejo uma grande massa extremamente perdida. É estranho olhar cada pessoa ali, saber que há milhões de concepções diferentes do que é a vida, do que é cidadania. Pessoas com diferentes noções de ética, diferentes juízos. Mas todos com um padrão de conduta parecido, cada um seguindo o seu caminho, a caminho do trabalho, a caminho de casa, a caminho do bar.


Na universidade não é diferente. Eu observo meus colegas, meus colegas do curso de Direito, meus colegas de outros cursos, e vejo centenas de realidades. Talvez sempre fomos assim, seremos sempre assim. É difícil idealizar a união hegemônica de todo um grupo social. Dos universitários, por exemplo. É loucura! O movimento estudantil são apenas dezenas de pessoas. A UNE, a CONLUTE, o Movimento Não ao Não. Eu os vejo falarem em nome de todos os estudantes. Falarem das mudanças, da revolução. Bobagem, cara! Cada um está tocando a sua vida, com interesses extremamente pessoais, e muitos altruístas são farsas egoístas. É difícil encontrar alguém que leve a sério o "ama o próximo mais do que a ti mesmo". Fico contente quando vejo. É raro.


Eu não sei nem porque estou tentando discutir isso. Eu deveria era estar mais preocupado com a minha documentação italiana, ou com minha acomodação em Londres pra final de Janeiro de 2008, mas essa impotência que eu sinto quando olho pra toda essa sacanagem mundana me deixa angustiado e ao mesmo tempo sem vontade de tocar somente a minha vida. Deveria estar preparando minha apresentação do seminário de Processo Civil na quinta-feira.


Parece que falta discutir. Discutir o que é chato. Essa nossa impotência de mudar as coisas, de fazer algo melhor, de deixar algo que valha a pena nessa vida efêmera.


Eu acho que seria bom seguir o conselho que deixei para meu pai esses dias ao invés de ficar nessa pseudo-crise:


Segue teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra
de árvores alheias.



Fernando Pessoa

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