Cidadão Kane


Finalmente (FINALMENTE!) assisti Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), filme que está em toda lista de melhores filmes, seja qual for a instituição ou revista que realize a votação. Para alugar o bendito filme, tive que abdicar do conforto de alugar filmes andando somente uma quadra e ir à Video-X. E fica aqui meu recado para o dono da Vídeo-X, o cara que parece o baterista do Ira!, caso ele passe por aqui: pelo amor de Deus, coloca uma bendita seção "Clássicos" na sua locadora. Que diabos de estabelecimento empresarial do ramo locatício-cinematográfico é esse? A Video-X é ótima, mas somente para alugar os lançamentos a preços baixos. Entretanto, o prazo de devolução é uma merda e a quantidade de bons filmes antigos é baixíssima. As únicas coisas que você encontra lá são a trilogia do Poderoso Chefão e uma coleção do Kubrick. É o mínimo, também, né?

Bom, chamei a Tonis, o Bruninho e a Vanessa pra assistirem em casa. Grande Bruno, um prodígio no quesito arte. 18 anos e um conhecimento de poesia, música e cinema de deixar no chinelo alguns coroas que se intitulam "conhecedores" da verdade e do belo.

Pra você entender a importância desse filme, você tem que se colocar na pele de um americano em 1941. Agora pensa comigo, o que você lembra da década de 40? Algum filme espetácular? Algum efeito de filmagem inovador? Lembra da guerra? Lembra da importância dos jornais? Lembra do american way of life? Dinheiro, fama, mulheres, ópera, jazz, ternos risca-de-giz?

Depois de se situar no tempo e no espaço e do contexto sócio-cultural daquele momento você entende a paulada que é Cidadão Kane. Principalmente na questão técnica. Olha só, o filme já começa com a morte de Charles Kane, murmurando "Rosebud" - palavra que se transforma em enigma para o jornalista que irá investigar toda a vida de Kane, pra descobrir o significado real dessa palavra e como ela pode refletir a vida turbulenta do ex-milionário dono do extinto império de comunicação. O filme é recheado de flashbacks, iluminações diferentes, cenários surreais, ângulos inusuais (filmagem do teto, por exemplo). Além do som, muito bom, na minha opinião.

Outro lado da paulada é a destruição do sonho americano, na visão do indivíduo. Nesse caso, pense comigo: o que pode ser mais degradante do que o final da vida do Kane? Todas aquelas estátuas, aquele palácio imenso inabitado. E a idéia de amor que Charles tinha? A declaração de princípios, o "altruísmo", o auto-engano. Dá pra tirar desse filme um discussão psicanalítica intensa. Não seria esse "amor", essa necessidade falsa de proteger os interesses do povo, reflexo do amor paternal/maternal obstruído pelo banqueiro que retirou Charles do lar? É lógico que é, e Rosebud é a deixa de Welles para essa discussão.

Amigos mariganeses, passem na Art-Vídeo (olha o jabá gratuito) e aluguem essa pérola. Vale a pena.

E ah! O fato de ter assistido Cidadão Kane me lembrou do documentário "Além do Cidadão Kane", que eu encontrei na íntegra na net. Quem puder, assista. O filme foi proibido no Brasil e é surpreendente como mostra a manipulação da TV Globo e de Roberto Marinho, mafioso da mídia brasileira.

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