Para além do Estado e do mercado: o direito do comum

Os que acompanham o blog com certa assiduidade sabem que cito, repetidas vezes, determinados autores e blogueiros. É o caso, por exemplo, do carioca Bruno Cava (Quadrado dos Loucos) e do paulistano Hugo Albuquerque (O Descurvo), que já foram mencionados em diversos momentos aqui. E não é à toa. Além dos excelentes textos publicados em seus respectivos sítios, compartilhamos da leitura de alguns filósofos como Gilles Deleuze, já falecido, e Antonio Negri, importante neomarxista contemporâneo - o que gera um afeto provocado pelo conhecimento (naquele sentido expressado por Nietzsche, numa carta a um amigo após descobrir a rica obra de Spinoza, do conhecimento como o afeto mais potente). Temos, enfim, muito em comum.

De fato, em maio de 2011, tentamos criar um grupo de estudos virtual sob coordenação de Cava (UERJ), que contava com a participação de outros pesquisadores interessados como Murilo Duarte Corrêa (UFSC/USP), João Telésforo Medeiros Filho (UnB), Eduardo Rocha (UFG) e outros. A ideia era explorar mais a fundo a relação entre direito e imanência e direito do comum a partir de alguns autores spinozanos, marxistas e negrianos (Giuseppe Cocco e Maurizio Lazzarato, por exemplo). Infelizmente, a ideia do grupo virtual não vingou e a comunicação tornou-se menos frequente após as férias de julho.

No entanto, durante esse período (maio-julho), no Rio de Janeiro, Cava organizou um grupo de estudos presencial (veja o blog aqui), intimamente relacionado com a Universidade Nômade (entenda o que é a UniNômade aqui). Não sei se o grupo manteve firme a linha pesquisa, mas sei que avançaram em algumas discussões importantes sobre o direito do comum, algo que já é debatido com mais intensidade nos círculos universitários mais críticos da Itália (cf. 'Il Diritto del comune' de Antonio Negri e 'Il buon governo del comune' de Ugo Mattei). Além das diversas reuniões para discussão de alguns textos-chave para compreensão da construção do comum no século XXI, o coletivo carioca do "direito do comum" participou do seminário “Crise e Revoluções Possíveis”, organizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa e a Universidade Nômade no dia 9 de novembro de 2011. O evento contou com a participação de Giuseppe Cocco e o próprio Antonio Negri (autor amplamente discutido nas mesas de trabalho).

As conferências de tal seminário - importante para mapear o debate italiano e aprofundar a discussão em espaços brasileiros - felizmente estão disponíveis on-line. No vídeo abaixo é possível conferir a segunda mesa da conferência que contou com as falas de Bruno Cava (Uerj e Universidade Nômade): “O Comum Organiza o Direito”, Hugo Albuquerque (PUC-SP): “Os paradoxos do Desenvolvimentismo nos governos Lula e Dilma”, Pedro B. Mendes (UFRJ e Universidade Nômade): “ A anomalia brasileira”, Eduardo Baker (Uerj): “Direitos Humanos e Altermodernidade” e Alexandre Mendes: (Uerj e Universidade Nômade): “Políticas da cidade/ Políticas do Comum”.

Para os interessados, pode ser um caminho para compreender o que existe na fronteira entre o público e o privado, um campo - o do direito do comum - ainda incipiente, inovador e radical.

Um comentário:

Hugo Albuquerque disse...

Rafa, o afeto é recíproco. Aliás, Negri é fantástico, há muito tem feito muitas das melhores análises do nosso tempo, embora tenha passado desapercebido, atacado por ortodoxias - academicistas, sobretudo - de toda sorte, mas creio que ninguém trabalha melhor do que ele a conjuntura atual - e depois de 2011, é difícil pensar em algo diferente.

Creio que poderíamos pensar em destravar aquele grupo, não? Ele tinha uma potência enorme.

abraços

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