RUltimato na UEM

"Ocupação da Reitoria da Universidade Estadual de Maringá em 25/08"

A foto acima foi tirada há alguns minutos (16h) e retrata a invasão do prédio da reitoria da Universidade Estadual de Maringá. A encontrei no blog de um jornalista da cidade após ficar curioso sobre o que estava acontecendo em minha terra natal. Como desde dezembro estou oficialmente desligado da instituição, só tomei conhecimento dos fatos após uma ligação do meu cunhado (Vinicius Costa, estudante de Economia) relatando que mais de trezentos alunos estavam furiosos com a ausência de declarações do Reitor a respeito de mudanças que garantisse melhoras substanciais no Restaurante Universitário. Quando desligou o telefone, os ânimos estavam exaltados e alguns estudantes já estavam em confronto com servidores públicos responsáveis pela segurança do prédio.

A questão dos cortes orçamentários na UEM é séria e demanda atenção de todos aqueles (de alguma forma) ligados com a instituição. O Diretório Central dos Estudantes ("Movimente-se") elaborou um texto muito claro expondo como o corte de verbas imposto pelo governo estadual atinge os professores, funcionários e estudantes. Num brilhantismo sociológico que deveria ser o modelo de produção científica na universidade, o texto escancara a exploração dos "estudantes bolsistas" e o aumento das horas extras dos funcionários como estratégia de funcionamento do restaurante frente ao elevado número de estudantes matriculados na "melhor universidade do Paraná", que dependem da alimentação subsidiada: "Existem vários modos de a administração da UEM junto ao governo estadual suprirem a falta de funcionários. Qualquer pessoa sensata, falaria que a medida mais cabível para isso seria a contratação de mais funcionários, já que eles estão faltando. Aí é que nos enganamos. Para o governo do estado, contratar funcionários efetivos custa muito, porque aumenta a folha salarial da universidade, e consequentemente ele tem que gastar mais (a curto, médio e longo prazo). Dentre as várias maneiras que existem de se driblar isso três são descaradas na UEM: 1ª) Aumento do efetivo de Bolsas Trabalho: As bolsas trabalho são bolsas pagas aos estudantes para que esses possam fazer o trabalho dos funcionários que deveriam ser contratados. Esses estudantes são mais baratos por que se paga a eles (R$ 300,00 valor que nem leva em conta o salário mínimo), não se paga férias, nem décimo terceiro, nem nada, eles não tem nenhum direito trabalhista. 2ª) Aumento das horas extras: Outra maneira de se driblar a contratação de funcionários é aumentar enormemente o número de horas extras para os funcionário que já trabalham na instituição. 3ª) Contratação de temporários: A contratação de temporários também é uma forma de se driblar isso, porque como eles são contratados sem seres servidores públicos efetivamente, eles perdem uma série de direitos, que todos os servidores públicos tem, além de serem mais baratos e de poderem ser facilmente demitidos. O que vemos esse ano acontecendo na UEM, é que além de todas essas medidas que vem sendo tomadas para “baratear” a universidade, a administração ainda vem cortando as horas extras dos funcionários, atacaram as Bolsas Trabalho, ameaçando cortar R$ 60,00 dos míseros R$ 300,00 que os estudantes ganham e nem cogitam junto ao governo a abertura de concursos para funcionários efetivos".

O texto do DCE explica como a gestão de Décio Sperandio (ex-reitor da UEM) driblou a questão do baixo número de funcionários através de um acordo para pagamento de horas-extras. O problema é que a gestão de Julio Santiago Filho (apoiado por Sperandio) foi incapaz de se opor à imposição do governo estadual (Beto Richa) de contenção de gastos: "A atual gestão da reitoria, na tentativa de conter gastos, cortou o quantitativo de horas extras acordado entre o antigo reitor e os funcionários do Restaurante, e manteve o almoço de sábado e o café da manhã contratando apenas dois funcionários! Para piorar a situação o Restaurante Universitário ainda conta com o trabalho de estudantes, que para não pagar a taxa da refeição e receber 500 cópias de xerox e 250 impressões mensais, fazem funções que deveriam ser de funcionários contratados. Nesse caso específico, desde o início da campanha levada a cabo pelo DCE: 'RU: Uma fila que não anda', o diretório se manifestou contra essa medida e apontou uma solução para o problema, que seria a 'Política de Isenção da Taxa do RU', onde estudantes que provem que não podem arcar com o custo do restaurante, receberiam a alimentação gratuitamente e também as cópias e as impressões. Até o presente momento a reitoria não se manifestou quanto a essa proposta e ignorou-a, deliberadamente, nas reuniões feitas com os estudantes e na carta de reivindicações entregue pelo DCE no início do ano. A avaliação aqui é categórica. A universidade teve um aumento significativo no quantitativo de alunos nesses últimos 5 anos. Mas nenhuma melhora significativa em termos de infraestrutura (aumento do prédio, construção do RU II, contratação de funcionários e etc.) foi feita no RU. Se cortar gastos é um modo de administrar um corte de verbas, os gastos do RU já foram cortados a um bom tempo".

Para escancarar o descaso com o Restaurante Universitário - que eu conheço bem e sou testemunha de que está muito abaixo da qualidade da Universidade Federal do Paraná e da Universidade de São Paulo - um curta-metragem (de quase 4min) foi produzido por acadêmicos da Universidade Estadual de Maringá. A direção é de Felipe Bonifácio.



Segundo Luiz Modesto (da Folha de Maringá), os idealizadores do projeto constataram que o problema do RU vai muito além do que os olhos podem ver. Há um ambiente de preocupação e medo tomado por relações de poder autoritárias e altamente burocratizadas. Os depoimentos dos funcionários demonstram a falta de coletividade da teia de poder local. Falta uma política organizacional mais participativa com um dialogo mais próximo, com maior respeito e valorização.

Em razão da precariedade do RU e da falta de sinalização de políticas concretas pela reitoria, o DCE entrou em cena e elaborou uma carta exigindo melhorias na universidade, exigindo quinze dias para a manifestação do Reitor: "Dia 11/08 cerca de 100 estudantes, em um ato organizado pelo DCE e por Centros Acadêmicos, através do Conselho Estudantil de Entidades de Base (CEEB), que reúne o conjunto dos Centros Acadêmicos, entregaram uma carta, aprovada no CEEB, reivindicando melhorias no RU, com propostas, e pautando a garantia do financiamento das entidades do Movimento Estudandil, CA`s e DCE, que está ameaçado. Foi dado um prazo de 15 dias para que o reitor atendesse os pontos propostos na carta e marcado um retorno no vencimento do prazo para cobrar. Assim, faremos um grande ato no dia 25/08 e uma Assembléia Geral para decidir nossas ações em relação a resposta do reitor, buscando garantir o atendimento de nossas reivindicações".

A ocupação de hoje (25/08) - organizada em rede pelo Facebook (tal como as manifestações globais neste agitado ano de 2011) - é reflexo da inércia da reitoria frente à reivindicação estudantil para questões cruciais como o Restaurante Universitário e o corte das verbas públicas. Logo após a ocupação, o DCE declarou que não arredaria o pé enquanto não houvesse manifestação por parte do poder público: "A reitoria não atendeu às reivindicações e nem mesmo sinalizou um prazo para atendê-las. Os estudantes não podem simplesmente virar as costas e ir embora. Reitoria ocupada, só saímos com uma resposta da reitoria e do Governo Estadual".

Rapidamente, a reitoria tratou de minimizar os potenciais danos e enviou à imprensa local um comunicado informando providências que seriam tomadas para contornar a situação. Segundo a Gazeta Maringá, no documento, "o reitor, Júlio Santiago Prates Filho, informa que já foi feito o pedido de contratação de mais seis servidores para o RU; que o projeto de expansão do restaurante e o cardápio vegetariano estão sendo viabilizados; e de que estudos estão sendo feitos para instalar unidades do restaurante nos campi".

O protesto massivo dos estudantes demonstra que o movimento estudantil, adormecido há muito tempo, renasceu na Universidade Estadual de Maringá. Os líderes não são estúpidos para acharem que esse é um problema fácil de se resolver. Eles sabem que a questão orçamentária é resolvida na esfera estadual e que a precarização do RU é um fenômeno consequente do corte de 38% das verbas para a educação pública ocorrido em dezembro de 2010.

Entretanto, os estudantes também sabem que o Reitor é o representante político da universidade e é responsável por se opor à precarização do ensino público, algo que não ocorre hoje. A universidade abraçou o projeto de criação de 14 novos cursos mas não questionou a capacidade estrutural de manutenção desses cursos e da recepção adequada de centenas de novos alunos ("ao invés de a reitoria lutar para que mais verba venha do governo estadual para a nossa universidade, ela insiste em tentar cortar o que ela entende que é desimportante", diz o manifesto). O que os estudantes querem é que a UEM cresça e tenha o apoio integral do Estado, garantindo ensino público de qualidade.

A ocupação é necessária (os menos esclarecidos irão utilizar dos velhos e rasos argumentos de que trata-se apenas de baderna de desocupados) e tem uma bandeira política fundamental: a luta contra o sucateamento da universidade pública em face aos interesses corporativos daqueles que hoje dominam importantes setores da política paranaense e nacional.

Todo apoio aos estudantes da UEM!

5 comentários:

Maria Joana Casagrande disse...

Seu post está me fazendo pensar bastante! Trabalho na Assessoria de Comunicação da UEM e não acho que não exista diálogo ou descaso com as reinvindicações que surgem, vendo de uma maneira mais rasa, talvez. Não costumo defender invasões como essa, mas também fiquei me perguntando qual poderia ser outra alternativa. Sinceramente, não tenho uma resposta pronta, mas acho que precisa sim colocar o tema em pauta e discutir alternativas para os problemas da UEM e como solucioná-los. Faço uma ressalva ao documento do DCE: o professor Décio Sperandio, colocado como oposição à gestão anterior do Estado, é assessor do governador e parceiro do reitor atual da UEM. E o próprio professor Júlio foi chefe de gabinete do Décio.

HU disse...

Olá Rafael. Poderia disponibilizar um link para o texto do DCE?

Puglia Guilherme disse...

Olá Rafael,

Tudo bem?

Não sei se lembra de mim, mas fui algumas vezes na sua casa. Fiz inglês com seu irmão e era fã do Frank. :)


Também fui aluno da UEM e hoje sou aluno da USP.

Fico muito feliz por ver um movimento assim na "nossa" universidade. A grande verdade é que existe um grande descaso com o RU há muito tempo.

Quando sai da UEM, no ano de 2009, era absurdo o desprezo com a situação, filas enormes, serviço ruim, problemas operacionais, entre outras deficiências. Lembro que ficar hora na fila não era algo casual, era rotina.

Ainda, tudo isso sempre ocorreu nos 4 anos que estive na universidade.

Por outro lado vi a reitoria criar o café da manhã.

Tenho uma opinião um pouco distinta da maioria do pessoal. Acho que algumas coisas podem ser resolvidas se os alunos
também abrir mão de algumas coisas.

Não sei se subiu o valor dos tickets, mas lembro que era 1,65. Cara, 1,65!
Como sempre estive na universidade, acho
que esse valor está congelado a uns 10 anos. Com certeza absoluta, o valor da comida é subsidiada pela universidade. Pq não aumentar esse valor? Alguns problemas como hora extra e cardápio seriam resolvidos.

Pq não criar um fundo com o que restar? Seria legal ver uma gestão transparente administrando este valor para assim investir em itens que possam melhorar o restaurante!

Acho que já escrevi demais!

Ahh, tenho outros assuntos para falar contigo!

1) Parabéns pelo blog!
2) Espero que dê tudo certo com seu pai! Estou torcendo por aqui!

Abraços e muita paz!

Rafael A. F. Zanatta disse...

Enquanto isso, no Chile: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2011/08/25/segundo-dia-da-greve-nacional-chilena-comeca-com-protestos-em-santiago.jhtm

Pepito disse...

Fala Zanatta
Cara, parabéns pelo texto. Cada dia que passa vejo você melhorando o jeito de escrever.
Pois é, e o pessoal do nosso D-34, pra variar, defendendo o reitor. É incrivel como as pessaos curtem defender o intitucional, o burocratico, o administrativo. A situação é quase óbivia no RU: o governador cortou 38% das verbas destinadas às universidades estaduais paranaenses, de modo que ou o reitor luta para que venham mais verbas e tenta melhorar a situação, ou simplesmete precariza, corta, e explora ainda mais os funcionários. Ou sobra pra um lado, ou para o outro (menos pro Beto Richa claro). Quando houve a paralização do RU no dia 28/03, eu fui pessoalmente entrevistar os funcionários do restaurante para saber o que estava acontecendo. As tias me relataram a existencia de uma chefia extremamente autoritária, que fazia algumas barbaridades la dentro (como apagar horas extras da folha de horas da funcionária, na frente dela). Mas essas coisas só são defendidas pela boca do DCE, como se o lado das fincanças da UEM fosse o unico motivo que interessa (embora não esteja falando que não é importante). Me censuraram dizendo que "eu não sei nem metade da missa, que eu não tenho nem noção de como andam as finanças da UEM..." Ai, acham certo que isso seja repassado para a bolsa do estudante (que ja é pouca), que se precarize o RU, e acham errado que ocupem a reitoria (ja que o reitor não se moveu.
Enfim, apoio total à ocupação. Julião que se vire.

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