A Era Humaliana no Peru


As contagens ainda não encerraram. Na verdade, mal começaram. Entretanto, pela contagem de boca de urna, diversos portais de notícia (como o BBC) já anunciaram a vitória de Ollanta Humala (Partido Nacionalista Peruano) sobre Keiko Fujimori (sim, a filha do criminoso Alberto Fujimori - queridinho dos Estados Unidos durante a década de noventa) para a Presidência do Peru.

A disputa foi extremamente acirrada e cheia de polêmicas. A elite peruana declarou apoio total a Keiko, enquanto que as classes baixa e média manifestaram intenção de voto a Humala, especialmente depois que o líder afastou-se das figuras de Chavez e Morales e declarou que sua maior inspiração era Luis Inácio Lula da Silva (estratégia de marketing?).

Os ânimos exaltaram-se tanto na disputa entre direita e esquerda que sobrou até para o prêmio Nobel Mario Vargas Losa, que declarou repúdio à candidatura de Keiko Fujimori. Segundo matéria publicada na CartaMaior, "Vargas Llosa acaba de renunciar a sua coluna no diário El Comercio, de Lima. O grupo é dominante no Peru, com veículos gráficos e televisivos. Para Vargas Llosa, El Comercio ficou como 'os piores pasquins que vivem de sensacionalismo e escândalo' porque 'silencia e manipula a informação, deforma os fatos, abre suas páginas às mentiras e calúnias que podem prejudicar o adversário, ao mesmo tempo em que, em todo o grupo de comunicação, jornalistas independentes são demitidos e intimidados'. Em abril, foram demitidos do Canal N os jornalistas Patricia Montero e José Jara, produtora geral e produtor de notícias, respectivamente. A polarização chegou a tal ponto que, nos últimos meses, o economista Hernando de Soto chamou seu antigo amigo Vargas Llosa de 'filho da puta' e este chamou De Soto de 'partidário da ditadura fujimontesinista'. 'Fuji' é por causa de Alberto Fujimori, que dissolveu o Congresso por meio de um auto-golpe em 1992. Hoje está preso pela prática de peculato e assassinatos. 'Montesinista' é por conta de Vladimiro Montesinos, chefe da Inteligência e dos negócios sujos de Fujimori".

Com a divulgação do resultado parcial, Losa comemorou e declarou que trata-se da vitória da democracia. “Hemos ganado todos los peruanos que no queríamos que toda nuestra democracia se desplomara y que resucitara toda una mafia que destruyó nuestras instituciones, saqueó los recursos públicos, llenó de sangre, de sufrimiento, de dolor nuestro país, que felizmente no resucitó”. Vargas Losa havia declarado que Humala era o "mal menor" e que é preciso vigiá-lo, em razão de tendências populistas e autoritárias.

Mas, afinal, quem é Ollanta Humala e por que ele representa uma nova Era no Peru?

Conforme informações de Daniel Chaves, "Ollanta Humala Tasso, coronel reformado, também é cientista político e especialista em Direito Internacional pela Sorbonne, tendo ainda frequentado a School of Americas para a formação em defesa para assuntos hemisféricos. Com uma carreira militar conturbada, participou da caçada a membros remanescentes do Sendero Luminoso na década de '80 e teve processo aberto contra si pelo acusado abuso aos direitos humanos de populações camponesas nesta caçada. No fim da década de '90, se rebelou contra o governo Fujimori (1990-2000) juntamente a seu irmão Antauro Humala, próximo do seu final. Bem como Chávez fizera na Venezuela, liderou assim uma campanha castrense contra os governos liberais - então em pleno colapso após a renúncia de Fujimori. (...) Humala deve ser destacado, na sua formação ideológica, como parte fundamental do 'Movimiento Etnocacerista', um grupo de nacionalistas étnicos que evocam a junção da memória étnica nacional quéchua, identificada com a restauração do Império Inca, com o legado de Andrés Avelino Cáceres, líder da resistência peruana contra a ocupação chilena durante a Guerra do Salitre (1878-1894). O etnocacerismo propõe, assim, a superação das orientações liberais e ocidentais do Estado peruano, para abraçar a sua natureza indígena e nacional assim compondo objetivos bastante claros: a restituição das empresas e industrias privatizadas e a promoção da autonomia indígena".

Se há hoje um líder nacionalista que rejeite as opções e doutrinas liberais no Peru, esse líder é Ollanta Humala - o que o identifica com Evo Morales, na Bolívia.

A notícia repercutiu no mercado financeiro. Logo após o resultado de boca de urna, a Bloomberg e outros sites anunciaram que há um leve temor que Humala dificulte a vida do investidor estrangeiro. Mas todos sabem que é apenas um burburinho. O Peru apresenta altas taxas de crescimento econômico (em média, 8% ao ano) e pretende seguir com a mesma política econômica, financeira e cambial.

O grande desafio peruano é superar as desigualdades sociais, que são agudas e preocupantes. Segundo o Banco Mundial, 34% da população vive na pobreza extrema.

Para Humala, o país cresce mas somente enriquece as elites. Sua proposta é de continuar promovendo o crescimento econômico, mas com maior redistribuição de renda e programas de inclusão social, inspirados nos modelos de Lula (Bolsa Família).

A derrota de Keiko demonstra que a classe média peruana aposta suas fichas na diminuição das desigualdades como objetivo maior do que o simples crescimento econômico. Mesmo com o apoio de importantes economistas como Pedro Pablo Kuczynski e Hernando de Soto, o sobrenome de Fujimori (manchado pela violência e corrupção) pesou nas eleições de domingo.

Vargas Losa e outros não esqueceram o quão difícil foi lutar pela democracia no Peru. Eles preferem correr o risco com Humala do que entregar o poder à velha elite que, há pouco tempo, arruinou as instituições e vendeu os bens públicos do país.

Ollanta já comemora o resultado, apesar de Keiko Fujimori se recusar a reconhecer a derrota. Em discurso ao povo feito na Praça Dois de Maio, Humala ressaltou que o Novo Peru será marcado pelo crescimento econômico com inclusão social.



Com Ollanta Humala no poder Executivo do Peru, o quadro geral latino-americano se torna mais homogêneo e confirma a tese de que a recente experiência brasileira serve de modelo para os países vizinhos do cone sul.

É um longo caminho pela frente. Erradicar a miséria parece ser o sonho latino-americano.

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