O radicalismo zizekiano


Slavoj Žižek é, sem dúvidas, o mais influente e popular filósofo de vertente marxista no mundo hoje. Não é à toa que a mídia já rotulou o pensador esloveno como "the most dangerous philosopher in the West" (o filósofo mais perigoso no Ocidente).

De fato, a tarefa de Žižek é provocar os leitores do globo e propor outra alternativa à proposta hegemônica liberal-democrática, algo como uma resposta político-filosófica ao conceito fukuyamista de "fim da história", estabelecido após a Queda do Muro de Berlim.

Mas, afinal, que alternativa é essa?

A alternativa, diante do falso dualismo político atual ("com uma esquerda dessa, quem precisa de direita?"),  é a formulação de um novo projeto revolucionário para a esquerda, algo como um retorno às causas perdidas.

A tarefa não é fácil, ele reconhece. Na visão de Žižek, as coisas "estão feias" para as grandes Causas hoje, numa era "pós-moderna" onde, apesar da cena ideológica estar fragmentada numa panóplia de posições que lutam por hegemonia, há um consenso subjacente: de que a era das grandes explicações acabou e que a humanidade precisa de um "pensamento fraco" oposto ao fundacionalismo, um pensamento atento à textura rizomática da realidade. Essa mesma racionalidade se aplica à política: a humanidade não almeja sistemas que expliquem o todo e projetos globais emancipatórios; a violência imposta por grandes soluções deveria dar lugar a formas de resistência específica e intervenção.

Na sua última obra em língua inglesa (In Defense of Lost Causes, 2008), ele alerta: se o leitor sentir um mínimo de simpatia por essas teses, deve então parar a leitura e deixar de lado esse volume.

Žižek é pensador um radical que exige do mundo um "Leap of Faith" (um "Salto de Fé", como formulado originalmente por Kierkegaard). Propõe, portanto, um "Salto de Fé" nas Causas perdidas. Contra a aparentemente invencível "Roma" do capitalismo e contra o pensamento confortável do presente, Žižek entoa para que a causa socialista radicalmente fale. Entretanto, a questão que surge é: devemos mesmo crer no projeto de um radicalismo marxista?

Essa é uma questão de escolha. O importante é que o apelo de Žižek pode finalmente ser ouvido, ou melhor, lido em português. É que a Editora Boitempo lançou mês passado a versão traduzida do último livro do filósofo esloveno, com o título "Em Defesa Das Causas Perdidas".

Segundo os editores da obra, o livro consolida uma perspectiva de filosofia política que ganha ares de proposição específica: "a defesa das causas perdidas e o encontro das visões filosóficas não liberais existenciais e marxistas. Para além de Lacan e Marx, Žižek alinha Heidegger e Foucault em sua empreitada política. Ao discorrer sobre as formas de luta pela emancipação universal e a iminente crise ecológica global, reivindica a possibilidade de reinvenção do terror revolucionário e da ditadura do proletariado".

O prefácio da edição brasileira é assinada pelo Professor de Direito da Universidade de São Paulo Alysson Leandro Mascaro. Neste bem escrito prefácio, Mascaro busca responder o que, na opinião de Žižek, deve-se fazer para defender as causas perdidas: 

"Repetindo ao seu modo a crucial pergunta de Lenin e do marxismo do século XX, Žižek faz um balanço das possibilidades políticas que se apresentam ao nosso tempo. A maior parte delas encontra-se refém das próprias estruturas capitalistas, que não estão sendo postas em questão. São poucos os movimentos que, nos últimos dois séculos, restaram his toricamente consagrados como plenamente libertários, como foi o caso dos sovietes – que receberam a admiração até de liberais como Hannah Arendt. Mas, com o fim do mundo estatal soviético, também sucumbiu o modelo dos sovietes. Dirá Žižek, provocativamente, que “o modelo dos conselhos do ‘socialismo democrático’ era apenas um duplo espectral do ‘socialismo real’ ‘burocrático’, sua transgressão inerente sem nenhum conteúdo positivo substancial próprio, isto é, incapaz de servir de princípio organizador básico e permanente de uma sociedade”. O mesmo Žižek estende o problema do atrelamento ao Estado às práticas atuais de democracia direta, às culturas digitais pós-industriais, comunidades de hackers etc.: “todas têm de basear-se num aparelho de Estado, isto é, por razões estruturais não podem ocupar o campo todo”. Mesmo querendo afastá-lo, o Estado ainda é a precondição, no campo de fundo, de várias práticas atualmente toleradas ou apontadas como libertárias.

A articulação entre democracia, populismo, excesso totalitário e ditadura do proletariado de Žižek é inovadora. Não está perfilada ao lado de Habermas, Arendt, Rorty e Giddens, mas sim problematizando experiências concretas e insólitas como as de Chávez e Morales. As forças destes advêm dos vínculos privilegiados com os despossuídos das favelas. Chávez é o presidente deles, sua legitimação está no povo, embora respeite o processo eleitoral democrático. Para Žižek, em uma avaliação que é crítica, “essa é a ‘ditadura do proletariado’ na forma de democracia”.

A defesa das causas perdidas de Žižek revela-se, ao final, também uma escatologia. Cristianismo, marxismo e psicanálise alinham-se nessa mesma necessidade de repetição a partir do fracasso. “Isso nos leva a mais uma hipótese: necessariamente, o Evento falha da primeira vez, de modo que a verdadeira fidelidade só é possível na forma de ressurreição, como uma defesa contra o ‘revisionismo’. (...) Quando surge um novo ensinamento, do cristianismo ao marxismo ou à psicanálise, primeiro há confusão, cegueira a respeito do verdadeiro alcance de seu ato; as heresias são tentativas de esclarecer essa confusão com a retradução do novo ensinamento para as coordenadas antigas, e é só contra esse pano de fundo que se pode formular o âmago do novo ensinamento”.

Repetir não é provar a fraqueza do que se busca novamente, mas sim demonstrar a necessidade premente de volver ao passado para concretizar sua grandeza, buscando, no mínimo, errar menos nessa nova retomada do processo revolucionário. O potencial emancipatório que ainda não se esgotou continua a nos perseguir, e o futuro que nos persegue pode ser o futuro do próprio passado. A irrupção da revolução passada se deu em um momento incerto, e sua repetição presente também assim se apresentará, porque o ato revolucionário “é sempre ‘prematuro’”. Nunca haverá de se esperar um tempo certo para a revolução; então, para Žižek, o amanhã que é futuro do ontem pode já ser hoje.

Num tempo que naturalizou a dinâmica e o constante fluxo histórico, que considera a mudança como um cálculo da própria reprodução social, a pergunta crítica, para Žižek, é então: o que continua igual ? “É claro que a resposta é o capitalismo, as relações capitalistas”. Aí reside a matriz contra a qual há de se insurgir a radicalidade da mudança revolucionária. Sendo a mesma, cabe então, exatamente, a repetição das causas perdidas.

Com base na sua formação filosófica hegeliana, Žižek aponta a relação dialética entre senhor e escravo como exemplar da possibilidade de superação dos tempos presentes. Ilustra sua interpretação revolucionária com o Cristo: “É nesse sentido que Cristo é nosso senhor e, ao mesmo tempo, a fonte de nossa liberdade. O sacrifício de Cristo nos liberta. Como? Não como pagamento dos pecados nem como resgate legalista, mas assim como, quando tememos alguma coisa (e o medo da morte é o medo supremo que nos torna escravos), um amigo de verdade nos diz: ‘Não tema, olhe, eu vou fazer. Do que você tem tanto medo? Eu vou fazer, não porque eu tenho de fazer, mas por amor a você. Eu não tenho medo!’, ele faz e, dessa forma, nos liberta, demonstrando in actu que pode ser feito, que também
podemos fazer, que não somos escravos...”.

Para Žižek, em tempos dinâmicos que chegam até a plena manipulação tecnológica da natureza, onde a única grande estabilidade é a própria exploração capitalista, contra a qual já se luta e já se perde há tempos, trata-se de mostrar que é possível fazer a defesa das causas perdidas para agora perder melhor ou, quiçá, plenamente ganhar".

Resta saber se Žižek está sozinho nesta empreitada ou se a potencial esquerda está disposta a se reorganizar num novo projeto revolucionário. O espectro de Marx ainda nos ronda.

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