A morte simbólica do Parque do Ingá

Eu sou um homem com poucas lembranças de minha infância. Entretanto, das poucas e saudosas que tenho, uma das que mais gosto é a imagem viva e saborosa dos piqueniques em família no Parque do Ingá, área de conservação florestal situada no coração de Maringá. 

A cena que tenho na memória é singela: eu e meu irmão sentados numa toalha xadrez, lambuzados de bolo de chocolate, enquanto minha mãe contempla o verde, o lago e os gansos, apoiada com o braço numa cesta trançada de madeira. Essa imagem me traz uma série de lembranças dos gostosos passeios que fizemos durante a segunda metade da década de noventa, quando voltei a morar em Maringá após alguns anos no Mato Grosso do Sul.

Ir ao Parque do Ingá era um programa comum, um tradicional passeio em família dos habitantes de Maringá (e também dos turistas). Era a atividade dominical preferida da maioria das crianças da cidade e também dos pais, que tinham a oportunidade de esfriar a cabeça respirando um pouco de ar limpo.

O divertido itinerário era quase sempre o mesmo: dar risada com os macacos, imitar o som das araras, observar com olhos brilhantes e levemente amedrontados o leão Kimba (o Rei daquela pequena selva de pedra), andar de pedalinho e, finalmente, estender uma toalha sobre os verdes gramados do parque para desfrutar coisas gostosas preparadas em casa.

Mas esse tempo se foi. E o pior é que não se foi somente a infância, mas também o próprio Parque do Ingá  (famoso cartão postal de Maringá), que encontra-se fechado há dois anos - uma triste afronta ao direito de lazer de todo cidadão maringaense.

A morte de Kimba - o majestoso leão que lá vivia - ocorrida nesse mês de março apenas simboliza a verdadeira falência do Parque do Ingá, abandonado pelo poder público local e pela população maringaense que, inerte, nada faz. 

Até pouco tempo, era possível ouvir seu rugido solitário ao se caminhar ao redor do parque. Mas agora não mais.

Como escreveu meu amigo Wilame Prado numa crônica publicada hoje no jornal O Diário (que reproduzo abaixo), "o rei está morto. E o Parque do Ingá também".


O Rei Morto do Parque Assombrado

Faz quase dois anos que ninguém anda no pedalinho da lagoa, vê mais de perto a vegetação nativa do interior e tampouco estende um imenso lençol na grama para ficar observando aves no chão, na água ou no ar. Faz quase dois anos que um dos maiores e mais importantes cartões postais de Maringá está fechado para visitação. Dois anos praticamente inteiros que milhares de pessoas apenas vivem a rodear pelo lado de fora do Parque do Ingá.

Nem mesmo o rei leão suportou a solidão a dois juntamente com sua companheira leoa e quase sem ninguém para ostentar a sua imponência felina ou a sua sonolência diária em meio a fechos de raios solares. Quando me aliei ao batalhão de pessoas que insiste em ficar rodeando do lado de fora do Parque do Ingá, vez ou outra ouvia o rugido do leão – talvez uma forma emergencial de gritar para Maringá que ainda havia vida dentro do parque ou simplesmente apenas mais uma conversa fiada com a leoa.

Registre-se a data: no dia 16 de março de 2011, uma quarta-feira, por volta das 8h da manhã, o rei leão do Parque do Ingá, Kimba, 18 anos, foi levado a uma clínica para se verificar um problema na pata, tomou anestesia geral, mas não resistiu e morreu. Os médicos veterinários aproveitaram o sono anestésico e inclusive fizeram limpezas nos afiados dentes do felino. A leoa Doti, agora mais sozinha do que nunca em um parque assombrado, bem que iria gostar do Kimba com os dentes limpinhos. Mas não houve nem tempo para um afago final e consolador dos leões.

O rei está morto. E o Parque do Ingá também. Virou um parque assombrado, o parque das sombras, sem vida. Não sei no quanto isso pode influenciar na atração turística para Maringá. Posso afirmar, no entanto, que, pelo menos em nível regional, o belo e aprazível parque era destino certo para muitas turmas escolares passarem um dia especial. Os ônibus estacionados todas as manhãs em volta do parque, quando passava por ali todos os dias a pé para trabalhar, não me deixam mentir.

Quando resolveram interditar o parque, logo no início, a promessa era de que o local seria revitalizado para atender ainda melhor aos turistas. Nunca vi na minha vida um chaveiro sequer com a imagem do Parque do Ingá, nem uma camiseta. Uma lojinha de souvenirs instalada dentro do parque estava nos planos da administração para quando o local fosse aberto. Talvez uma taxa de entrada também fosse cobrada para a visitação.

Ficou a impressão de que o objetivo seria terceirizar a administração do local, motivo para grande parte da população suspeitar de que o Parque do Ingá seria privatizado. Se isto realmente foi verdade, muito provavelmente não houve interessados no negócio. Os portões continuam fechados, o rei está morto, pedalinho nem deve ter mais no lago e as pessoas continuam rodeando e rodeando e rodeando apenas do lado de fora do parque das sombras.

Olho para uma foto tirada quando entrei pela primeira vez no Parque do Ingá. Sobre um imenso lençol xadrez providenciado pela professora de catequese e estendido na grama de frente para o lago, jovens sorriem e demonstram descontração naquele momento único. Naquela tarde gostosa que passamos dentro do parque, ninguém nunca poderia jamais imaginar que, um dia, ou melhor, por dois anos, aquele belo local estaria fechado para visitações.

6 comentários:

Lucas Trabuco disse...

Ta aí um lugar que sempre sonhei em levar meus futuros filhos e assim por diante...mas acho q será sempre um lugar que foi somente da minha epoca mesmo... o//

Wilame Prado disse...

Obrigado pela visita, pela leitura e também pela publicação, caro Zanatta. Se não fossem os direitos ambientais garantidos que o protege, não sei não se até mesmo o Parque do Ingá ficaria somente na memória ou naquele chaveirinho que nunca em vida eu vi e talvez nem queira ver. Obs.: a rodoviária velha virou estacionamento e nem sequer há, que eu saiba, projetos concretos para se ter, no local, um centro cultural, uma biblioteca ou alguma coisa que preste à comunidade maringaense e não somente a um seleto grupo de pessoas que se beneficiaria com os lucros exorbitantes do mercado imobiliário especulativo de Maringá. Por fim, meu caro, espero que os ares paulistanos e a solidão das capitais (que é igualzinha a de um solitário caminhando ao redor do Parque do Ingá) lhe faça bem e lhe motive a escrever mais sobre e para Maringá.

José Renato disse...

Mas o Parque do ingá está em reforma... eu vejo maquinas, areias, pedras e tudo o mais la dentro...

Esileda disse...

Passei momentos maravilhosos de minha infância no parque...pena não poder levar meu filho pra conhecê-lo!

Anônimo disse...

Falar em ética, senhor, é difícil, quando você posta que a morte do leão foi descaso! Isso é uma afirmação que dá processo! prove isso! acompanho os trabalhos com animais do parque e não tenho nada a dizer, pois recebem o melhor alimento e são tratados dentro de excelentes condições de saude, alimento. O leao morreu por problemas de saude que eras irreversíveis.

Rafael A. F. Zanatta disse...

Estranho, Sr. Anônimo, reli meu texto e não encontrei nenhuma afirmação que o leão Kimba morreu por descaso. Não sei como você chegou a essa conclusão.

A única coisa que está escrita é que a morte de Kimba simboliza a verdadeira falência do Parque do Ingá, este sim abandonado pelo poder público. Não há nada a respeito das condições de saúde e alimentação. É apenas uma analogia a algo mais complexo, que, pelo jeito, você não entendeu.

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