Perigo, neném!

Ontem assisti ao filme "O Escafandro e a Borboleta" (2007), película dirigida de forma magnífica por Julian Schnabel, baseada no livro "Le Scaphandre et le Papillon", escrito pelo jornalista Jean-Domenique Bauby em 1997 através de um técnica na qual o autor memorizava os parágrafos e os ditava através de sua pálpebra (única possibilidade de se estabelecer qualquer comunicação, após um derrame que o fez vítima da síndrome locked-in).

O filme é belíssimo, ao mesmo tempo que é angustiante e triste. Vale a pena ver. É fantástico mesmo.

O que me chamou atenção, em especial, é a cena em que Jean-Do está em seu conversível no interior da França quando sua namorada decide ir para Lourdes por motivos religiosos (o que o incômoda, mas não a ponto de fazê-los não irem para lá). Nessa cena, toca a música Ultraviolet do U2 no som do automóvel, contrastando com as cores vivas da luz solar e dos campos franceses. É uma união maravilhosa (de som e imagem); uma cena linda. Imagine a beleza do interior da França (e de suas sinuosas estradas) com essa canção. Feche os olhos depois do play.



Hoje fiquei com essa cena na cabeça - uma das poucas cenas que não mostra o sofrimento e a agonia de Bauby em seu escafandro corporal - e lembrei que essa música faz parte de um disco incrível lançado há vinte anos. Estou falando de Achtung Baby, o disco que mudou a história do U2 no início da década de noventa.


Acho bacana ressaltar que esse é um disco que merece ser ouvido - principalmente pelos que odeiam a banda. O U2 às vezes carrega um estigma de banda inflada e mala, mas esse é um álbum que representa outra banda muito diferente daquela dos exageros da turnê Rattle and Rum. Esse é disco introspectivo, escuro, solitário ao mesmo tempo que é apaixonado e honesto.

Em termos sonoros, é uma guinada musical que difere em todos os níveis daquilo que foi feito no álbum Joshua Tree, considerado por muitos como o melhor disco do grupo. É um disco sujo e industrial - e o fato de ter sido gravado em Berlim após o colapso do socialismo real e a reunificação europeia somente veio a somar para esse novo momento.

A banda largou o forjado americanismo interiorano adotado durante a segunda metade da década de oitenta e voltou a se postar como uma banda urbana cosmopolita (inicialmente lançada em Dublin e Londres). O resultado foi o renascimento do U2: a morte dos falsos cowboys e o início de uma empolgante e misteriosa fase.



É claro que o U2 nunca deixou de fazer música pop (apesar de ter ganhado o Grammy por "best alternative album" em 1993 pelo lançamento do esquisito Zooropa) - e isso incomoda muita gente do rock que se autoproclama autêntico -, mas isso não tira os méritos da banda. Esse é, sem dúvidas (e todas as listas renomadas confirmam) um dos melhores discos da história da música contemporânea.

O grande mérito de Achtung Baby é ainda soar atual. O único lado ruim é que, depois deste disco, o U2 nunca mais conseguiu surpreender o mundo com algo inovador e instigante.

Esse é o perigo de se fazer um grande álbum. Corre-se o risco de nunca superá-lo.

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