Porque voto em Dilma? Reflexões a partir de Dussel e Levinas

O segundo turno das eleições presidenciais estão finalmente chegando. Nós acompanhamos, durante semanas, correntes virtuais infundadas, provocações entre partidários, difamações, desconversas, boatos e pouca discussão séria sobre os projetos das duas coligações e as reais conseqüências de se eleger Dilma ou Serra na presidência da república.

Eu não votei no PT no primeiro turno, assim como muitos maringaenses. Mas agora é hora de escolhermos, meus caros. Dilma Rousseff ou José Serra. PT/PMDB ou PSBD/DEM.

Há duas semanas, participei do comitê universitário pró-Dilma da Universidade Estadual de Maringá e assinei o manifesto de apoio à candidata do Partido dos Trabalhadores. E porque fiz isso? Simplesmente, porque, neste momento crucial, é preciso posicionar-se e nivelar o debate político, que está baixíssimo. Uma campanha presidencial não pode ter como tema central a questão do aborto e tampouco pode limitar-se a questionar o currículo de cada candidato.

Não é disso que se trata. Um presidente não é um monarca medieval, que manda e desmanda, solito a reinar. Um presidente, num Estado Democrático de Direito, possui atribuições limitadas (veja lá no art. 84, da Constituição Federal) e não governa sem sua estrutura partidária. Portanto, a questão que iremos (nós, o "povo soberano") resolver nas urnas domingo é muito mais complexa: qual organização partidária é melhor para o Brasil? - isto é, qual plano de governo se adequa melhor ao presente momento histórico, econômico e social?

Para responder essas perguntas e decidir em qual candidato vamos votar, nós precisamos de conhecimento. Este é um ponto fundamental, pois além de conhecer os planos de governo, temos que saber um pouco de história, economia e ciência política. E mais: precisamos ter senso crítico e não senso comum (consensos fabricados).

Não é fácil. É cansativo, desgastante. Temos que ler, discutir, questionar dogmas, pesquisar as fontes (quem escreveu isso? e porque?), identificar a ideologia daqueles que produzem informação, repensar pré-conceitos e, nos termos do filósofo argentino Enrique Dussel, exercer a "dialética como ontologia fundamental", como um caminho para sair da ingenuidade da aparência (Dussel explica tal conceito: a dialética, como ontologia fundamental, é uma atitude prévia à ciência ou à filosofia. (...) Efetua a crítica não o cientista, mas o homem culto, o sábio. A 'cultura' não é ciência nem filosofia. A dialética é então uma atitude ou um método pré-filosófico, pré-científico, não por ser mera opinião, mas por ser o pensar que toma como tema de sua teoria os fundamentos de todas as ciências. Trata-se de um defrontar-se com o horizonte do mundo como totalidade fundante, radical. Supera a metafísica ou a filosofia, se esta tem a pretensão de ser ciência. Todo homem responsável deveria ter esta atitude ou método: o cientista,  estudante universitário em geral, o político, o sindicalista, todo homem enfim. Não se trata da filosofia como ciência, senão de uma sabedoria fundamental, de uma ontologia originária, que nos situa ante o 'factum a priori'. Na universidade deveria ser o tema privilegiado de um 'studium generale' que todo estudante universitário deveria cursar. É um saber enfrentar o cotidiano, o axioma da ciência e saber transbordá-los, des-fundálos e fundá-los sobre o ser).

Chamo atenção para um detalhe importante, neste aspecto. A população, em geral, está se deixando levar por informações pré-fabricadas e fatos descontextualizados sem exercer esta dialética dusseliana como atitude prévia, esta crítica fundamental cotidiana. Esta atitude não cabe ao filósofo ou ao intelectual. Cabe ao sábio, o homem comum. Ou seja, cabe a todos.

Assumindo essa dialética como ontologia fundamental, precisamos analisar os projetos de gestão de cada coligação e escolher.

Para mim, a coligação do PT/PMDB possui um plano de governo muito mais sólido e bem estruturado, que dará continuidade a um governo que se mostrou capaz de promover crescimento econômico com diminuição da desigualdade social.

O governo Lula foi muito bem sucedido. Além do crescimento econômico inabalado pela crise de 2008, a miséria diminuiu em todos os aspectos e o acesso à educação, alimentação e mercado de trabalho foi ampliado, especialmente aos mais pobres.

 
A proposta de Dilma é a mesma de Lula. Afinal, o Partido é o mesmo, o projeto é o mesmo. Portanto, será um governo voltado às necessidades de milhões brasileiros, não só às necessidades (?) da elite e das classes dominantes no país.

Esta é a diferença fundamental das duas propostas (PT x PSDB).

A coligação PSBD/DEM é formada por políticos de tradicionais famílias, que há anos governam o país (e eu já discuti isso em outros textos, a partir das reflexões de Raymundo Faoro). Nós sabemos que a proposta econômica é hayekiana, neoliberal, de proteção à propriedade privada e facilitação das transações econômicas num ambiente de mercado livre. O Estado deve regular o mínimo possível, pois a "ordem espontânea do mercado" é responsável por distribuir de forma mais eficiente a riqueza.

Ora, esse é um discurso que não mais convence. É retrógrado e fracassado. É o discurso utilizado por Fernando Henrique Cardoso para liberalizar a economia brasileira, seguindo à risca os programas de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

A questão é: hoje, o programa neoliberal é o melhor?

A resposta é não. Basta olhar os reflexos de políticas não-intervencionistas para tirar algumas conclusões. Se o Brasil não tivesse mudado com Lula em 2002, estaríamos nas mesmas condições de Chile, Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, países que adotaram políticas econômicas ditadas pelas instituições financeiras internacionais e que hoje enfrentam taxas de desemprego altíssimas, em razão da crise de 2008 e a incapacidade de saldar a dívida externa.

Hoje não há submissão frente ao FMI e o Brasil tem (pela primeira vez) plenas condições de ditar suas próprias regras.

O ponto fundamental é decidir quais regras queremos. Queremos a distribuição de renda com uma economia regulada pelo Estado ou queremos o princípio neoliberal da livre-iniciativa sem intervenção estatal? Queremos um governo para muitos que tem pouco ou para poucos que tem muito? Queremos a solidariedade ou o egoísmo?

Ora, eu tenho plena convicção que o governo Serra só me trará benefícios. Mas é claro. Eu sou quase Bacharel em Direito por uma das melhores universidades públicas do país. Já morei em Londres, falo inglês e italiano. Tenho experiência profissional na Caixa Econômica Federal e em escritórios de advocacia. Meus pais são professores Doutores e podem me auxiliar no que eu quiser, é só pedir. Eu posso fazer mais um curso fora do país, entrar num grande escritório de advocacia e ganhar rios de dinheiro com uma economia cada mais complexa, dependente de profissionais da área do direito.

Eu estou feito. Eu sou elite. E com PSBD/DEM no governo, as coisas só tendem a melhorar para a elite.

Mas será que isso basta para eu escolher em quem vou votar?

Essa racionalidade pequeno-burguesa, que só pensa no bem-estar de próprio grupo social a que está inserido (no meu caso, jovens profissionais da área de direito), é a forma adequada de se agir na hora de escolher um Presidente?

Essa forma de pensar (e agir) é individualista, egoística e burguesa. Justamente o que o sistema quer.

Numa democracia voltada ao social, não se pode pensar assim. Não na hora de se escolher um Presidente. Não em 2010, em meio a tantas mudanças paradigmáticas.

A questão, além de ser política, é ética. E a melhor forma de refletirmos a respeito do tema é a partir de Emmanuel Levinas. Levinas formulou no século passado um novo conceito: a ética da alteridade, fundada no humano, no outro ("descrevo a ética, é o humano, enquanto humano. Penso que a ética não é uma invenção da raça branca, da humanidade que leu os autores gregos nas escolas e que seguiu certa evolução. O único valor absoluto é a possibilidade humana de dar, em relação a si, prioridade ao outro. Não creio que haja uma humanidade que possa recusar este ideal, mesmo que se deva declará-lo ideal de santidade. Não digo que o homem é um santo, digo que é aquele que compreendeu que a santidade era incontestável. É o começo da filosofia, é o racional, é o inteligível").

Eu penso que a ética fundamental que deve guiar nossa escolha política é esta, a da alteridade. Ou seja, "eu sou responsável pelo outro mesmo que este outro não se considere responsável por mim". Esta máxima deve guiar nossas escolhas políticas.

E é isso que eu enxergo no PT: a alteridade, a inclusão do Outro. É um Partido que, por mais que tenha problemas de corrupção (e é por isso que votei em outro partido no primeiro turno), ainda é o que mais se preocupa com questões relativas a distribuição de renda, desigualdade social, inclusão e acesso.

É um desafio enorme este, o de pensar no outro. E não é uma forma cristã ou religiosa de pensar e agir (não devemos falar de fé ou religiosidade neste momento). Nada disso, é algo simplesmente humano. É a "relação entre Eu e o Outro totalmente Outro", nos termos de Levinas.

Eu não enxergo a ética da alteridade nos atos de Serra e tampouco no plano de governo PSDB/DEM. Só vejo o mesmo discurso individualista, burguês e desumanizador de sempre: "Cuide da sua vida, estude, trabalhe e você terá sucesso".

Nós precisamos pensar de uma outra forma. Chega de reproduzir discursos em prol do Capital. Vamos, nós mesmos, construir uma democracia mais humana e libertadora.

Serra e seus partidários não querem isso. A construção desse novo Brasil depende, por enquanto, de Dilma e do PT.

10 comentários:

Marcia disse...

Assim como você votei em outro no primeiro turno. No entanto, neste momento até panfletos já entreguei por Dilma, inclusive e-mails sobre algumas falas que levam para uma reflexão mais profunda do porque do voto ao PT. Concordo com suas colocações ques são pertinentes e reais. Precisamos de fato refletir sobre que país nos queremos? Precisamos também refletir além da escala familiar desenvolvendo a alteridade em nós para pensarmos no Brasil. A questão Serra ou Dilma passa pela questão da escolha de cada cidadão sobre que tipo de pais queremos, ou seja, o que reconhece a sua brasilidade e dá conta de valoriza-la e compromenter-se com uma outra economia ou uma abordagem que copia e reproduz buscando sempre a submissão ou adaptação ao mercado pautado por um modelo/lógica neoliberal proposto? Como vc, fiz milha escolha e assumo a minha responsabilidade por isso. Meu voto será da Dilma. Te amo filho Lindo.

Marco Alexandre (Kiko) disse...

Caro Zanatta.
Não preciso subscrever integralmente seu inspirado texto para apoiá-lo, aí sim, em sua inteireza.
Os fundamentos teóricos utilizados são muito apropriados, já que estamos a falar, ao fim e ao cabo, de nossa América Latina.
Receba o cordial abraço do,
Marco Alexandre.

Flauzino disse...

Nesta eleição não voto no PT. Assim como não votei no PSDB para descontinuá-lo, dar vez ao PT, que ajudei a chegar lá-lá. Neste primeiro turno votei em nenhum deles. Hoje, tenho duas opções. Votarei pela alteração de poder. Tenho pagado para ver e não é barato. Temos a opção de pedir nosso dinheiro de volta e devolvermos o produto. Já fizemos isto. É um retrocesso, sei, mas a conta para se pagar novamente e, de qualquer forma, é minha. Não a perpetuação de qualquer poder!

Anônimo disse...

Oi Rafa!

Recomendo-lhe três referências para as duas linhas de argumentação que você construiu. O Estado liberal é um mito, bem como o livre comércio. Dois autores lhes bastam para uma iniciação: William Lazonick - Businnes organization and the myth of free market; e John Gray - False Dawn. A prática da alteridade requer a aceitação do outro enquanto outro distinto de mim, visto não como oposição, mas como complementaridade. Um autor chileno discute bem a questão: Humberto Maturana, em Emoções e linguagem na educação e na política.

Boa ventura!
José Lannes

Rafael Zanatta disse...

Obrigado, José! Já haviam me recomendado a leitura do Maturana. Assim que conseguir uma brecha (em meio a tanta correria), vou lê-lo.

Um forte abraço!

aguinaldocavalheiro disse...

Olha Zanatta acho que precisamos separar duas coisas em seu argumento, que são as seguintes: 1º A de que um presidente não governa sozinho isso é fato sob quaisquer circunstâncias mesmo um déspota possuí algum tipo de base de apoio. 2º No nosso caso tupiniquim não podemos afirmar que o presidente não governa sozinho, me explico. Não me refiro a costura política, as tendências e aos apoios, mas a meneira como se comportam todos os cargos executivos existentes, repito todos, desde reitores, prefeitos, governadores. Nossos Conselhos, Câmaras e o Congresso ainda são tímidos muito aquém de um espírito verdadeiramente republicano.

Wilame Prado disse...

Depois de ler um texto que transborda conteúdo e sinceridade, tornei-me mais ainda seu fã. Esse é um daqueles textos em que você pensa assim: "eu queria ter escrito isso". Parabéns Zanatta! Você deveria ser articulista de jornal, um formador de opinião! Ainda que com teu blog já vem fazendo esse caminho.

Anônimo disse...

Legal suas assertivas e diretrizes de raciocínio, contudo no Brasil temos um problema constitucional grave, pois nosso diploma magno fala em sistema de representação PARTIDÁRIA, e, culturalmente exercemos cidadania pelo critério de representação PESSOAL/INDIVIDUAL, portanto, algo está errado, pois a figura pessoal fala mais do que as intenções de quaisquer partidos (falar do EU, EU, EU na política afasta um pouco dos princípios democráticos em uma sociedade, não acha?).

Aliamos ao voto em uma pessoa em sua FAMA perante uma estética e não naquilo que é fundamentalmente a razão do nosso pacto social (PARTIDO REPRESENTATIVO). A mais de 10 anos analiso que as propostas do partidos são as mesmas em termos de gestão, continuam em base daquilo que caminhamos em termos sociológicos, antropológicos e econômicos (salvos como o PSOL, e alas mais radicais), ou seja, a sociedade brasileira caminha, e a política mais disputa o poder e a titulação representativa do que agregar algo mais daquilo que já está feito e que, na minha opinião não irá mudar tão cedo, por isso cheguei a descrença em nosso sociedade em termos passiva na razão de sua cidadania.

Belo post, e obrigado pela atenção.

Rafael Zanatta disse...

Concordo com você. Esse é um problema fundamental da política brasileira.

A tão sonhada reforma política (veremos isso acontecer algum dia sem manifestações populares?) deve abordar com prioridade essa questão da representação partidária.

Mas isso já é tema suficiente para outro texto e outra discussão.

Hal/New disse...

Zanatta, gostaria de sua permissão para utilizar trechos desse texto para um cartun sobre as eleições que passaram. Te add no MSN que consta no blog pra conversarmos sobre.

Até!

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação