Rélpi Mi

O que é ser musicalmente antropofágico? Difícil dizer. Mas é certo que a música brasileira sempre teve esse caráter devorador, essa coisa de absorver tudo o que está presente em terrae brasilis, seja o ritmo africano, a gaita alemã, o rock americano, a guarânia hispânica, e tudo mais, facilitado pela nossa miscigenação.

Não só os Tropicalistas (Caetano, Gil, Tom Zé, entre outros) foram antropofágicos, mas muitos outros artistas e bandas, que não precisam ser listadas aqui. Enfim, podemos afirmar (sem medo de errar) que a música brasileira, em si, é aberta a toda e qualquer influência externa e essa é a riqueza da música brasileira.

Ontem no Tribo's Bar em Maringá o que se viu no palco foi uma legítima demonstração radical de antropofagismo musical.

Os Rélpis: neotropicalismo pós-moderno antropofágico. Entendeu?

Os Rélpis, banda dos campos de Araraquara (SP), apresentou-se entre os shows de Hospital Doors e Nevilton (que fizeram excelentes apresentações, como sempre), e roubou a cena com um show marcado pela impressionante mistura de rock n' roll, música nordestina, country americano, bossa nova, tropicália, frank zappa, lirismo teatral, ritmos quebrados, distorções, radiohead, novos baianos, marchas de carnaval, belchior, johnny cash, beatles, concretismo, mutantes, secos e molhados, comicismo trágico e jazz.

Além do impacto visual (legítimas roupas de brechó setentistas), Os Rélpis misturaram teatro e rock pluralista numa coisa só e surpreenderam (ao menos a mim, surpreendeu) o público presente pela riqueza das composições.

As músicas são malucas, sem brincadeira. Tudo é muito poético e tragicômico. Em "A Grande Janela", Garboso canta "Eu vou entrar no seu chuveiro usando um secador. Rá rá rá.". E no final cantam em coro: "Sente na varanda, a esperar sua vida". É algo como Ouro de Tolo, do Raul Seixas.

"Agora quem foi que disse" tem um violão de nailon brilhante e duas vozes bem arranjadas, algo bem do interior. De repente, a música deixa de ser caipira e passa a ser bossa-nova no refrão, numa transição quase imperceptível, o que mostra o talento dos músicos e da composição.

Mesmo sendo relativamente desconhecidos em Maringá, Os Rélpis fizeram um show cativante. Muita gente dançou, riu e cantou junto.

Se você ficou curioso, confira abaixo o áudio de uma apresentação da banda em São Carlos, no Grito Rock, em Fevereiro desse ano. É só ir passando as músicas (clique na seta forward) pra conferir a sonoridade da galera paulista.



Parabéns ao Culturanja (Lobão, Nevilton e galera de Umuarama) por trazer uma banda diferente e de qualidade para Maringá.

Precisamos ser menos caretas e nisso a arte ajuda.

Um comentário:

prisci disse...

É! Foi realmente impressionante!

Fomos ver o show no Nevilton, sabendo o que iríamos encontrar. Música boa e apresentação cheia de energia, como sempre.

Sabíamos que a Rélpis iria tocar antes de Nevilton, nunca tínhamos ouvido a banda - o que é estranho, pois antes de irmos para qualquer show sempre tentamos conhecer a música de quem vai se apresentar..

E, como a nossa vida acadêmica tá um pouquinho perturbada, nosso programa foi decidido meio que de última hora naquela sexta-feira fria. Minha aula de História e Literatura foi até as 23h e tudo que queríamos era ouvir um bom Nevilton pra fechar bem a semana.

Ouvir Rélps de "sopetão" foi a coisa mais surpreendente da noite.

De cara já pensei em Otto e Cidadão Instigado, duas artes que eu adoro. Só que a música deles vai rolando e as muitas referências vão surgindo... Antropofagia pura! O resultado, extremamente paradoxal é algo ÚNICO e inédito. E foi isso que mais me encantou nos meninos do Rélpis!

Aquela Sexta-feira sóbria - devido a operação intensiva da polícia na cidade - foi surpreendentemente bem aproveitada!

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