A inversão de valores e a ausência do pensamento crítico no curso de Direito

Certa vez, um amigo, que já é bacharel pela Universidade Federal do Paraná, me falou: "a graduação em Direito é o intermediário entre dois cursinhos". Achei a frase impactante demais, pois reduziria cinco anos de estudos a um mero intervalo entre o curso preparatório do vestibular e o curso jurídico preparatório para o Exame de Ordem, ou para algum concurso público, dependendo da escolha do recém-graduado.

Entretanto, reavaliando o perfil e a atitude do acadêmico de Direito, em geral, após cinco anos de convivência (pois ingressei na Universidade Estadual de Maringá em 2005), tenho que concordar com o colega curitibano: a graduação se tornou, para a grande maioria, mera ponte entre dois cursos na vida do estudante de Direito.

Para chegar à esta triste conclusão, parto da análise de dois fatores que constatei na vida acadêmica dos futuros juristas de nosso país: (i) a inversão de valores; e (ii) a ausência do pensamento crítico.

Debater a inversão de valores é uma tarefa árdua, que pressupõe a própria reconstrução do termo valor. Afinal, o que são valores? E mais, quais são os valores dos acadêmicos de Direito? Partindo de conceitos da filosofia, valores são critérios segundo os quais valorizamos coisas ou são as razões que justificam ou motivam as nossas ações. Pois bem, com base nessa premissa, me indago quais seriam os valores (sejam éticos, como solidariedade ou lealdade, ou políticos, como justiça ou liberdade) que justificaram o ingresso de um jovem no curso de Direito de uma instituição pública como a UEM. Seria o ideal de mudar o país com base na justiça? Seria o desejo de compreender como está estruturado o Estado Democrático de Direito e a dominação legimitada pela racionalidade deste sistema? Seria a pura busca do sucesso profissional em termos patrimoniais?

Me parece que o estudante de Direito, ao ingressar na Universidade, é um ser aberto às discussões, pluralista, pronto para desbravar o universo jurídico e tentar responder à questão básica e inicial de seu primeiro dia de aula: o que é o direito?

Todavia, diante de um curso que se revela majoritariamente dogmático, positivista, tecnicista, assim como todas as graduações de Direito no Brasil, no qual o corpo docente ainda preocupa-se em transmitir conhecimentos (geralmente leis), com respostas previstas em seus manuais (códigos e doutrinas), ignorando as transformações sociais e a complexidade da vida dos indivíduos, naquilo que Paulo Freire denominou de educação bancária, cabe ao aluno a missão de receber, memorizar e repetir esse conhecimento.

Esta rotina acadêmica precária, isenta de qualquer crítica, frustra as perspectivas de transformação através da Universidade. O acadêmico, de fato, chega a pensar que a graduação em Direito representa simplesmente o seu Vade Mecum, a leitura de artigos da Lei e da jurisprudência durante a sala de aula e o "estágio" extracurricular em algum cartório de Vara Cível da Comarca de Maringá, carimbando mecanicamente as folhas dos autos. E pior: os que estagiam em gabinetes de Juízes ou escritórios de advocacia, ingressam no cruel (e velado) sistema da magistratura e advocacia invisíveis, no qual o acadêmico do curso de Direito chega a desenvolver sérias patologias psicológicas, achando que já é Juiz ou que já é advogado, pelo simples fato de peticionar ou sentenciar, sem repensar sua condição dentro desta rede exploratória.

Com esta falsa noção do que representa o curso de Direito, as atividades fora da sala de aula resumem-se simplesmente em jogos jurídicos, "cervejadas" e festinhas de arrecadação de dinheiro para formatura.

Ou seja, razões ou critérios valorativos que antes justificavam o ingresso do acadêmico num curso de Direito invertem-se completamente, ao ponto de o acadêmico achar que realmente a sua formação em nível superior significa a memorização de códigos, leis e posições da doutrina majoritária (típica mentalidade de concurseiro) e a diversão alcoolizada em jogos jurídicos, com suas baterias, uniformes e hinos à torcida adversária, alienando o acadêmico no chamado Circus Sportivus, nos dizeres do educador Francisco Freitas.

Não há mobilização e discussão no ambiente acadêmico do curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá. O Centro Acadêmico está em decadência, é uma associação falida. Não há interesse em discutir questões jurídicas que estão em nosso cotidiano, como por exemplo, a demolição da antiga Rodoviária no centro de Maringá, que hoje foi suspensa por uma decisão liminar do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Questões básicas não são levantadas ou comentadas: Seria a Rodoviária parte do patrimônio histórico de Maringá? O que se entende por patrimônio? A Rodoviária faz parte da memória dos formadores da sociedade, nos termos do art. 226 da Constituição Federal? É competência do Município a proteção do patrimônio cultural de Maringá na forma de imóvel, conforme art. 23 da Constituição? Como se dá o tombamento? Seria o caso de intervenção estatal na propriedade privada com o objetivo de proteger o patrimônio cultural? Qual a verdadeira intenção por trás desta demolição? O que a própria população pensa sobre a demolição? O que a população sabe sobre o direito constitucional de proteção ao patrimônio cultural?

"Demolição da Rodoviária em 31/05/2010. Foto: JC Cecílio"

Questões importantes que não foram debatidas, nem mesmo nos corredores do bloco D-34. Tampouco houve mobilização por parte do Centro Acadêmico ou dos Departamentos para organizar um evento aberto ao público da cidade para debater as questões jurídicas desta ação pública.

Meus colegas não querem saber disto. Seus olhos estão voltados para os próximos Jogos Jurídicos Estaduais que acontecerão semana que vem em Maringá. Ou para o próximo concurso público. Ou para o próximo Exame de Ordem. Sempre há uma preocupação na mente dos acadêmicos de Direito, mas sempre individualista, elitista, sem qualquer preocupação com a disseminação do conhecimento com as próprias pessoas que estão pagando pela manutenção dos bancos escolares e do corpo docente da Universidade Estadual de Maringá, ou seja, o povo paranaense.

Há uma clara inversão de valores. Ou simplesmente não há inversão alguma, mas sim manutenção de valores burgueses dominantes, prolongando o status quo da sociedade maringaense e brasileira, em termos gerais.

No meu ver, um segundo fator para a construção deste cenário acadêmico é a ausência do pensamento crítico no curso de Direito. Com isto, quero dizer que o Direito há muito tempo já foi superado, no debate científico, pelo dogmatismo ainda ensinado nas salas de aula dos cursos de graduação.

Luiz Fernando Coelho, em 1995, já apontava para a crítica meta dogmática, considerando o fenômeno jurídico como algo integrante do contexto social e dele inseparável. Assim, a própria teoria geral do Direito revisitaria os conceitos da epistemologia de Karl Popper, onde a verdade científica decorre da aceitação social de seus enunciados. Neste viés, o Direito se enquadra no modelo prospectivo de saber, cujo objeto não é mera descrição de fatos, mas reconstrução conceitual e real de seu objeto. Coelho também aponta para a necessidade da análise da linguística de Saussure no Direito, conduzindo à introdução da pragmática como nova dimensão do discurso. O falar deixaria de ser encarado somente como um ato de descrição de objetos, mas também como o próprio ato, uma ação, onde os significados decorrem das relações das palavras e dos signos com os sujeitos envolvidos na comunicação. Ainda, o Direito deve ser visto através da sociologia weberiana, enfatizando-se a importância dos processos sociais de obtenção do consenso dos dominados para a reprodução da ordem social.

Existe essa discussão da crítica meta dogmática na graduação? Não, não existe. Aliás, muitos passarão os cinco anos do curso de graduação sem saber o que é a Escola de Frankfurt e quem são seus pensadores. Ficarão privados da reflexão sobre o papel ideológico da ciência e a própria ideologia como legitimação do poder na sociedade. Afinal, não há uma ideologia por trás da ciência jurídica como proposta hoje?

Antonio Carlos Wolkmer, que escreveu a obra Introdução ao Pensamento Jurídico Crítico, propõe o pensamento insurgente, crítico e interdisciplinar no âmbito do Direito. O ensino jurídico, para ele, deve ser totalmente reestruturado através do eixo teórico-prático. Esta vertente, foi assumida pelo curso de Direito da UEM, com a aprovação da Resolução nº. 97/2009/CSA sobre a reformulação do Projeto Político-Pedagógico. Entretanto, pouco mudou.

O ensino é o mesmo, teórico e hermético. Ou seja, o Direito perde toda sua função de instrumento estratégico de efetiva alteração das práticas reais vigentes, para a construção de uma organização social mais justa e democrática, nos termos de Wolkmer.

Falar em crítica do Direito implica no exercício reflexivo de questionar o que está ordenado e legitimado em Maringá ou no Brasil, admitindo a possibilidade de outras formas diferenciadas na prática jurídica. Mas como estabelecer tal pensamento se o acadêmico de Direito da UEM toma como única verdade o culturalismo tridimensional proposto na década de 50 por Miguel Reale no qual o Direito é fato, valor e norma?

Como falar em crítica se a Filosofia do Direito é banalizada? Como fazer com que os acadêmicos de Direito e a sociedade reconheça a plena natureza dialética das lutas fundamentais, se o próprio conceito de dialética é desconhecido? Poderíamos falar em dialética aristotélica, hegeliana, marxista ou até mesmo zizekiana, mas seria inútil, pois poucos leram Aristóteles, Hegel, Marx e Zizek.

Aliás, pra quê discutir tudo isso se a Copa do Mundo já está aí? Deveríamos simplesmente manter o circus sportivus, que é tão agradável a todos, não é mesmo?Então vai lá, Brasil. Vai lá, torcida. Vai lá, jurista - futuro deste país.

20 comentários:

rannah disse...

rafa, você pode até discordar de mim (o que é provável), mas acredito que pensamento crítico é um dom, e como tal, não é todo mundo que tem. eu, infelizmente, não fui agraciada.

Rafael Zanatta disse...

Discordo mesmo e penso que o pensamento crítico é uma construção, é simplesmente enxergar o óbvio através de um processo dialético; é uma reconstrução sem necessariamente falarmos em ruptura, Rannah.

Primeiro: se você não fosse "agraciada", nem teria lido o texto inteiro.

Não consigo imaginar você, que tem um gosto literário fantástico, não ter um pensamento crítico.

Aquelas discussões em literatura (do Café com Prosa), procurando a tese, a antítese e a síntese das obras de Kafka, Camus e Saramago foram exercícios críticos, dialéticos.

Não acha que o Direito também deveria passar por essa metodologia científica, longe do racionalismo técnico/formal que nos é imposto?

rannah disse...

é verdade que é possível desenvolver um pensamento crítico por meio de exercícios.

quando falei em dom, quis dizer que, em certas pessoas, essa visão crítica é meio que inata, enquanto que em outras precisa ser exercitada. aí essas últimas, por preguiça ou porque lhes é indeferente, acabam simplesmente aceitando as coisas como elas são postas, sem questionar, porque essa é a postura mais cômoda.

eu faço parte dos que têm preguiça, mas não me orgulho disso. mas admiro essa visão crítica que você tem e gosto de te ler por isso. :)

Anônimo disse...

xii...

existe uma função social do estudante de Direito?

Michelle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Zanatta disse...

Michelly, como diria Ron Burgundy (personagem do Will Ferrell no filme The Anchorman): Agree to disagree.

Primeiro, que não tratei da perda de valores, mas simplesmente questionei quais seriam os valores dos acadêmicos de direito. Haveria uma inversão (e você mesmo confirmou que no seu caso, houve: "entrei toda animada no curso de direito e fui me sentindo cada vez mais impotente, mais decepcionada. eu percebi que direito não tem muito a ver com justiça. é um jogo, como futebol")? Ou simplesmente manutenção de valores pré-existentes?

Segundo, não cheguei em nenhum momento a propor a ideia da salvação pelo pensamento crítico, apesar de simpatizar, e muito, com a pedagogia da libertação de Paulo Freire, de cunho marxista, que, portanto, pressupõe a dialética e a teoria crítica.

Meu questionamento é simples e eu vou reforçá-lo: se o curso de graduação de Direito é um curso que tem por objetivo analisar o que seria a ciência do Direito/ciência jurídica, porque ainda o acadêmico se depara com a dogmática jurídica positivista, sendo que esta vertente do Direito está há muito superada em toda o pensamento jurídico contemporâneo?

Me incomoda o atraso do ensino jurídico na nossa universidade e no Brasil. É preciso uma nova abordagem, que una a teoria com a práxis, de cunho mais realista, interdisciplinar, que debata o direito com a psicologia, com a sociologia, com a economia. É difícil, eu sei, mas é algo a ser construído.

Meu ponto é que não há debates no meio acadêmico, sendo que esse é cenário ideal para isso. E eu acho que a ausência do pensamento crítico no próprio ensino jurídico é um dos fatores que contribuem para a construção do atual cenário.

Portanto, não se trata de culto ao intelectualismo ou aos "pós-marxistas que arrotam caviar" das grandes capitais.

Você falou em humanismo, não, Michelly? E chegou a afirmar que uma das saídas é a religião. Pois bem, eu penso que o pensamento crítico é um dos caminhos ao humanismo.

Você escreveu: "não tem essa de visão crítica, de estudar, de ler". Eu discordo em todos os sentidos. Aliás, considero essa afirmação desumana. A educação é o pilar da transformação social. Na própria religião, como é possível ser religioso sem estudar os princípios religiosos? Você não lê a Bíblia? Não estabelece um diálogo construtivo com os enunciados bíblico? Não há dialética na ação religiosa, de forma alguma?

Por fim, rebato uma última tese. Você alegou: "a solução não tá na ciência, não tá no homem". Não concordo. Penso que a solução está sim no homem. Entretanto, não existe solução para um problema ou questionamento que ainda não foi formulado. E é aí o ponto: o questionar. Não existem respostas ou soluções para a humanidade, nem em Deus. Pois a existência de Deus (ou do signo Deus) pressupõe uma atividade interpretativa do homem. Existe o questionar, indagar, para aí sim, construir um caminho através do debate, do processo dialético.

Fiquei um pouco repetitivo, mas precisava esclarecer alguns pontos antes de dormir. Um beijo, Mi.

Samuel Hübler disse...

Zanatta,

Penso que o tecnicismo é produto da dialética histórico cultural, e falar sobre sua gênese não cabe aqui. Ele é uma característica de incremento da força produtiva individual na luta em uma sociedade competitiva com efeitos benéficos de preservação do ser. Assim, o indivíduo se fortalece e sobressai-se aos outros dominando uma técnica específica, a qual torna cada vez melhor sua produção específica aumentando seu benefício marginal na realização de certa atividade, os frutos dessa atividade são trocados por outros bens, materiais ou não, até mesmo ideológicos, os quais não é capaz de gerar por si só em nível satisfatório.

Percebe-se assim uma fragmentação de papéis sociais, até mesmo daqueles que não seria saudável dividir, por terem na essência a totalidade de ação, pensamento e resultado; os efeitos dessa divisão, penso eu, a curto e médio prazo podem ser benéficos para o indivíduo técnico-produtor, a questão é como evitar efeitos danosos a longo prazo, a pois essa prática por si só como lema de vida não basta, é incompleta; eu a vejo como necessária, mas para ter bons resultados deve ser aliada a uma visão de mundo não tão focada, v.g. uma consciência social. É o modelo que vimos em Tempos Modernos expandido à todos os níveis, de maneira inevitável e talvez necessária para o momento histórico. Portanto, não vejo o tecnicismo como necessariamente danoso e é característico não apenas à área jurídica, por outro lado, concordo contigo sobre os efeitos que ele pode exercer sobre o Direito e nós, estudantes dessa ciência. Abrigamo-nos na sobra das asas do tecnicismo; fato, mas podemos também andar ao sol, sem incoerência.

O estudante quando ingressa na universidade está romântico e aberto ao diálogo e sequioso de reflexão crítica, e com o passar do tempo como se fosse por uma contração muscular vai fechando sua visão e raciocínio para um tema específico e geralmente apegando-se a uma concepção já estabelecida e relativamente segura. Essa é uma característica de variados cursos. É necessária extrema força para resistir a esse movimento de contração que culmina na clausura intelectual e social do estudante justamente ao seu universo técnico.

O que quis expor é a generalidade da questão. Agora vamos aos estudantes de Direito. Nosso curso pressupõe um forte raciocínio crítico e habilidade de comunicação, e como exercício dessas faculdades e manuseio dos acontecimentos sociais. Sei que nosso centro acadêmico está falido, que o estudante de direito não está desempenhando função social, que jogos jurídicos estão interessando mais que a rodoviária velha. Bem, o centro acadêmico há de voltar a ser forte, tenho esperança cega nisso, com o tempo, com o tempo Rafa. Não culpo ninguém por não querer desempenhar função social e preocupar-se apenas em garantir o próprio futuro, é do direito de cada um fazer o que quiser desde que não tenha interesse em prejudicar os demais, ficaria contente e satisfeito em ver pessoas engajadas, preocupadas com assuntos supraindividuais, ativas e combativas, mas isso seria um adicional, não encaro a ausência dessas características como necessário demérito. Os jogos são lazer, integração universitária, momento de descontração, palco de momentos inesquecíveis na vida de inúmeros estudantes; podem obliterar outras questões, relegá-las a segundo plano, mas apenas momentaneamente, não são causa dos problemas abordados na postagem. Agora a filosofia de vida de apenas festa e “gordo, burro e alienado”, como disse Caio Fernando Abreu, é outra coisa, que passa pela valoração, a qual acho que compartilhamos, de que a mente que nunca produz e exercita-se, entrega-se à inércia e induz uma coma da pessoa em relação à vida e ao mundo. Digo, vamos pensar e muito, na medida em que formos capazes, pensemos, e pensar demais cansa, pode até enlouquecer, vai saber, então festemos, festa é sempre bom, não sejamos maniqueístas, ser unicamente um pensador crítico ou um festeiro é ruim, como já lecionou Aristóteles, o ideal é o equilíbrio.

Samuel Hübler disse...

Defendo que em nosso curso na UEM seja aberto mais espaço e haja mais esforços para discussões críticas que extrapolem a mera leitura de diplomas legais e doutrinas e a reprodução de suas ideias, eles devem ser utilizados tanto instrumento e objeto de análise. Reconheço que não apresento solução alguma aqui, nem ao menos sugiro alguma efetiva. Sei que a contestação de um raciocínio é mais fácil que sua construção. Entretanto vejo como meio de alcançar a reflexão crítica, o comportamento social proativo e o debate discussões como essa de seu blog, conversas de corredor no D-34, um ou outro evento ou projeto formal mesmo que isolados, pois, pode-se atear fogo ao galpão começando por pedaços de palha.

Para finalizar, é necessidade contemporânea a especialização, foco e atitude técnica do indivíduo na relação de produção e acredito que essa é uma das facetas que compõem um ser, podendo, assim, agregar ele outros elementos à sua pessoa e é o conjunto desses elementos que o torna, de certa posição axiológica, bom ou ruim. Há espaço para várias posições ideológicas no D-34, até para posições aparentemente desprovidas de ideologia, e é natural do homem desejar convencer os demais de que seu posicionamento está correto e é melhor que os demais, inclusive, acho muito bom o posicionamento de aumentar as discussões no ambiente acadêmico, mas não penso que isso extinguirá os alegados problemas, os problemas são resultados de ações valorados como tais. Viva e deixe viver (exercer influência e respeitar posições contrárias).

Temo não ter sido claro, mas esse raciocínio foi o que consegui construir frente ao seu pensamento e a essa complicadíssima questão.

Michelle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Zanatta disse...

Michelly, mas é claro que você tem parâmetro. Você esteve lá por cinco anos, foi vice-presidente do Centro Acadêmico na gestão do Oscar e ainda me iniciou no projeto de extensão Unitrabalho, com a organização de cooperativas de trabalho com catadores de lixo, artesãos e outros pequenos profissionais, que ainda estavam tentando se libertar da visão oprimida de que não há possibilidade não ser empregado. (Lembra das dificuldades que enfrentamos para trabalhar a própria questão psicológica dos cooperados?)

Eu estou muito feliz com seus comentários. Meu objetivo era esse: bater onde dói pra ouvir algo, seja um grito de dor, um xingamento, uma repressão, um elogio.

O tema é multicomplexo e nos atinge, por isso que rende debates diversos e intensos.

Rafael Zanatta disse...

Samuel, meu caro amigo e futuro presidente do Centro Acadêmico.

Você praticamente deu uma aula de Economia Política nos dois primeiros parágrafos, mas interpretou de forma diversa do que quis exprimir, ou dar sentido.

Você escreveu sobre tecnicismo dos modos de produção ou da sociedade capitalista, sendo que eu falei sobre educação tecnicista e lógica tecnicista do ensino jurídico. São temas diferentes. Minha crítica é em relação ao dogmatismo da graduação em Direito, que carrega muito da abordagem científica cartesiana e da visão de Kelsen sobre o Direito.

Outro ponto. Em nenhum momento assumi um radicalismo contra a Atlética ou os jogos jurídicos. Aliás, seria hipocrisia, considerando que fiz parte da Atlética em 2007 e era membro da bateria. O que afirmei é que "as atividades fora da sala de aula resumem-se simplesmente em jogos jurídicos, cervejas e festinhas de arrecadação de dinheiro para a formatura". Então, Samuel, meu objetivo no texto é apontar a necessidade de existir algo mais na vida do acadêmico, além de somente diversão alcoolizada.

O texto não é, de forma alguma, um manifesto radical. Só chamo a atenção para que o pensamento crítico (e é preciso desmistificar o significado de pensamento crítico, algo ainda muito nebuloso, pois a grande maioria entende pela simples ruptura) não fique de fora na formação acadêmica do jurista, pois o processo reflexivo dialético é libertador. É algo como o Mito da Caverna. Você enxerga não somente as sombras, mas algo mais - e pode pagar um alto preço por isso, também.

Esclarecidas essas questões, fiquei contente pelo extenso comentário. Meu objetivo foi atingido: expandir a reflexão para além da minha mente.

Bruno Rocha disse...

Cara, vamos montar uma dupla sertaneja?!
Eu posso fazer a segunda voz e tocar violão.

menino de rua disse...

Não sou estudante de Direito e não simpatizo -- pelos próprios argumentos apresentados em seu brilhante texto -- com a grande maioria dos que eu conheço. Mas seu caso é uma das poucas exceções e sua reflexão é excelente! Assim como você, acredito muito na possibilidade de "elevação cultural" das massas -- não em um sentido antropológico do termo, já que isso seria uma aberração teórica, mas da maneira apontada por Gramsci -- como caminho para a mudança social, bem como para a luta hegemônica. Nesse sentido, a crítica a partir de uma apreensão diaética da realidade, inclusive para compreender essa inversão de valores, já que a "perda" deles mostra-se teoricamente impossível, é imprescindível. O mais interessante é que alguns comentários, de pessoas que eu não conheço, indicam que suas idéias são corretas, uma vez que mostram o "senso comum" presente nas "reflexões" construídas por grande parte dos estudantes de Direito. Digo isso pelo conformismo, pela resignação e pela crenças, de certa forma, ingênuas, de que a história "sempre foi assim"; essas idéias transparecem em algumas das respostas vistas aqui. Pelo viés dialético, a realidade, por suas próprias contradições, mostra-se em constante transformação; logo, e de maneira lógica, essas sínteses são contruídas históricamente e não são naturais, embora "naturalizadas" -- e o conceito de "hábitus", de Bourdieu, cabe bem aqui. Acredito que o primeiro passo para transformar a situação trazida em suas reflexões seria uma espécie de "consciência teórica", que nos permite ver a realidade de maneira lógica, racional, para além do senso comum. E, para tanto, é necessário menos horas nas cervejadas e muitas mais na escrivaninha, lendo textos ou fazendo uso produtivo da internet. Qunato a isso, seu blog é extremamente contributivo. Parabéns pelo texto!

menino de rua disse...

Voltando à realidade: "diaética" não é um caso de neologismo, e malz aí pelo acento no "habitus" do Bourdieu e o "qunato" já é um erro mais comum de digitação, que não precisa de maiores justificativas.

Não sei se essa é sua escolha e nunca nos falamos muito, mas torço para que você siga a carreira acadêmica!

Raquel Sirotti disse...

Rafael, achei extremamente pertinente a reflexão. Eu como acadêmica do segundo ano, enfrento grandes problemas em relaçao a essa falta de senso critico dos colegas de classe e também dos professores, que na maioria das vezes se contentam em fazer a função de um código comentado. Confesso que quando entrei no curso não imaginava que seria tedioso a tal ponto.Os acadêmicos tem sim que se preocupar com tecnicismo, pois inevitavelmente é uma parte integrante da ciência jurídica, contudo, nao fazer dele o fim único do direito, que a meu ver é o que aconteçe atualmente. Me assusta muito a idéia de passar mais três anos e meio fazendo parte dessa rotina de inércia intelectual, tendo que buscar conhecimento genuino e construido em fontes alternativas ao inves de poder recebe-lo dentro da sala de aula, com os "professores".
Contudo, não posso deixar de fazer algumas críticas. Dizer que não há mobilização e discussão no ambiente acadêmico do curso de direito da UEM me parece radical e maniqueísta. Há sim discussão no curso e alunos extremamente esclarecidos em relaçao a tais problemas,só que tais discussoes nao são institucionalizadas em grupos de pesquisa por exemplo, talvez por isso não sejam tão conhecidas, e muitas vezes me questiono se a institucionalização seria o melhor caminho( mais uma das decepções com o curso).
Outra crítica que tenho a fazer é em relaçao ao tom, a meu ver, pejorativo ultilizado para falar de cervejadas e jogos. É importante não cair em esteriotipos para ter um diferencial, nem que o esteriotipo seja do intelectual engajado. Não há problema algum em frequentar cervejadas ou estar ansioso para os jogos, o unico problema é fazer disso seu alimento diario, seu motor.
Bom, acho que é isso. Mais uma vez meu parabéns por levantar tal discussão e não fexar os olhos para o problema.

José Renato G. Catarin disse...

E aí Zanatta?! Tudo tranquilo? Vou dispensar as formalidades e ir primeiramente aos elogios. Muito bom o seu texto, você tem aperfeiçoado bem a sua linguagem. Fico feliz. Por conseguinte, teço algumas considerações por amor ao debate. Alguns trechos do texto me chamaram a atenção (...) coisas que passaram pelo meu juizo de valor quando eu estava na UEM. Na verdade, o seu texto me remeteu a um velho senso comum tendente a vender a ideia de que o estudante de direito tem a obrigação de "salvar" o mundo numa exacerbada concepção de que sua capacidade de reflexão acerca dos problemas sociais estaria acima da análise crítica feita por qualquer outra categoria de estudante universitário. Hoje, como advogado, me pergunto: Que mal existe na opção de se fazer um curso de direito como meio para se obter uma profissão como outra qualquer? Há mesmo a necessidade de que todos sejam obrigados a divagar sobre as infindáveis e abstratas ideologias que cercam as concepções de justiça? Há tal necessidade, mesmo ante a constatação de que o período pós faculdade inevitavelmente se resumirá, para a esmagadora maioria dos outrora estudantes, a uma rotina que visará a busca de sustento proprio e familiar?! Quantas perguntas me ocorre, ó Deus! Você não acha que a manutenção de um diálogo como o proposto no seu texto, com todas as terminologias complexas, técnicas, rebuscadas, é que realmente seria a verdadeira manutenção do status quo elitista do verbo jurídico? Afinal, qual o percentual da sociedade brasileira que teria condições de, ao menos, entender o que você escreveu ali? Poxa, a proposta é interessante, mas com ela, não estaríamos a promover um círculo vicioso e fechado da classe jurídica que passaria a analisar toda a existência humana como se num pedestal estivesse? Me parece que sim, e me parece que isso seria o verdadeiro elitismo que você tanto amaldiçoa no seu texto. Ou estou errado? A despeito de suas ácidas críticas aos acadêmicos que elegem a faculdade como oportunidade pra alargar os laços de amizade através de festas e jogos jurídicos, não estaríamos hipocritamente prejulgando pessoas que estão a praticar algo perfeitamente compatível com a troca de idéias críticas sobre o direito, e que apenas não a quer fazer pelas mesmas razões que motivaram minhas primeiras perguntas elencadas no inicio deste comentário? Afinal de contas, tenho alguns amigos que durante a faculdade chegaram a promover grandes festas em repúblicas, com direito a chopp de metro (em APARENTE banalização à busca do aperfeiçoamento da ciência jurídica) e que hoje sentem-se a vontade em divagar sobre idéias interessantes, construtivas e através de belas palavras muito bem estruturadas!;)
Enfim... perguntas... respostas... perguntas... respostas... o mundo das idéias é uma exponencial de ansiedade inversamente proporcional à satisfação humana. E o tempo é curto. E ninguém quer chegar aos 70 anos como um sábio que ganha um salário mínimo do INSS. Um forte abraço meu querido! Vamos marcar de tomar uma(s...) cerveja! Garanto que a gente consegue, depois de umas e outras, aflorar o Nietzsche que há enrustido aí dentro! Rs!

Lucas Pepito disse...

Zanatta, meus parabéns desde já por estes comentários sobre o tema. Confesso que não conhecia mesmo este blog, e graças ao Samuel tive a oportunidade de observar que mais pessoas como eu enxergam a ociosidade intelctual que ocorre dentro do curso de Direito.
Para aqueles que tiveram a oportunidade de ler a obra “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse, depararam-se com a seguinte reflexão: “A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer”. Acho que este é o ponto chave de nossa discussão sobre o pensamento crítico entre os acadêmicos de direito. Enquanto o homem não aprende a nadar, fica preso a sua natureza, isto é, apenas a andar na terra. Ninguém começa a pensar criticamente enquanto não aprende a pensar criticamente. Muitos dos acadêmicos que estão em nosso bloco um dia se viram na situação de escolher prestar direito ou medicina. Muitos talvez tenham se conformado em ingressar na carreira jurídica porque é um curso que possibilita “ganhar-se bem” e não possui um vestibular tão difícil como medicina. Outros talvez tenham escolhido o direito por uma ou outra conveniencia. Pouquíssimos dos que escolheram nossa graduação o fizeram com o intuito de promover a diferença no Direito, de proporcionar uma Justiça mais justa, de trabalhar com as leis em conssonancia com as dinâmicas sociais e não ficar alheia a elas (não estou condenando aqueles que querem construir patrimônio e ter uma vida mais confortavel por meio do direito, mas sim aqueles que focam única e exclusivamente nisto). O que quero dizer é que, embora considere que a graduação seja instrumento primordial para insurgir o pensamento crítico nos indivíduos (o que eu, infelizmente, verifico em poucos docentes), o berço do aluno é essencial. Como obter pensamento critico de pessoas que veem o curso como o que você mesmo disse Zanatta, um intermediario entre dois cursinhos, que ja entram com este foco? Como esperar o pensamento crítico daqueles que entram no curso ja pensando simplesmente em seu umbigo: em passar num concurso publico, sentar em um trono -vestido de toga-, e esquecer que existe um mundo la fora que está se modificanto dia após dia; ou simplesmente se vender pra alguma empresa grande que pague bem um advogado pra defender judicialmente suas falcatruas? Penso que este público considerará mais pertinente manter-se ligado aos manuais e dogmáticas do que buscar soluções e reflexões alternativas no ambito jurídico.
Portanto, repito, reconheço que a graduação estimula de maneira muito ruim a reflexão crítica nos alunos. Mas, se assim é, o que estamos fazendo para reverter este quadro, pois no futuro seremos nós –e não nossos atuais professores, advogados, juízes- que estaremos assumindo os magistérios, as advocacias e magistraturas. Não acho que os advogados tem que salvar o mundo, ou promover nenhuma revolução mundial. Alias, as profissões jurídicas estão no memso nível que a de um professor, ou qualquer outra profissão que trabalhe com gente. Mas creio que a acriticidade, seja em que profissão for, nunca é profíqua. O juiz alheio a sociedade dará sentenças retrogradas, o professor de história que esta interessado APENAS no sustento de sua familia ensinará as teorias de Marx e a Acumulação Primitiva do século XIX, para seus alunos, como fatos do presente.

Lucas Pepito disse...

Penso que é uma lástima ter que buscar sempre em outras fontes, em outros cursos, espaço para o pensamento crítico. Tive a experiência de estudar dois anos do curso de História na UEM, e vi como uma graduação pode oferecer aparato para discussões e reflexões. Mas creio que cabe a nós, que não entramos neste curso encarando-o simplesmente como intervalo entre dois cursinhos ou como opção mais facil que medicina de ganhar dinheiro, proporcionar esta diferença. Dizer que não há discussões críticas também é incorrer em erro, pois nem todos os acadêmicos estão alienados. No mais, como alguns colegas comentaram acima, gosto dos jogos jurídicos, e acho importante que existam essas festividades. Elas são essenciais para que formemos laços de amizade, e proporcionam experiencias muito boas que guardamos para o resto da vida. Também concordo com o Samuel sobre o dogmatismo, pois “Abrigamo-nos na sobra das asas do tecnicismo; fato, mas podemos também andar ao sol, sem incoerência”. Cumpre que não esqueçamos que andar ao Sol é fundamental. Por isso mais uma vez, parabenizo o amigo Zanatta por ter tido a louvável iniciativa de postar este texto, incitando os academicos a refletir sobre o tema.
Não sei se fui claro em minhas idéias, mas espero ter contribuido de alguma forma para o debate com minhas concepções.

Anônimo disse...

É...meu caro...concordo contigo. O grande problema é o contexto contemporâneo em que o sistema de ensino está inserido. O modelo atual, que nos coopta mais e mais, por diferentes meios e estratégias, é o de prevalência do econômico, calcado no código eficientista. Isto é, prevalecem o pragmatismo vazio, a marca epistêmica dos meios, relegando o 'pensar' a segundo plano. O futuro se tornou no-sense e alargou-se ao infinito o presente. O que importa, neste paranóico modelo, é gozar à exaustão...tudo o que se pode e o que não se pode. Enfim, nega-se a possibilidade de consensos, pois desconsidera-se a possibildades consensos, de fins. A situação é séria, pois o sistema de ensino tem se rendido a esta lógica lamentavelmente...inclusive a rede pública em alguns setores. Cabe-nos, pois, resistir...como pudermos...a sorte, mais uma vez, está lançada. Gd Ab. Parabéns pelo Post. Julio Marcellino. Floripa/SC.

jovem disse...

Eu achei que o texto tem umas palavras lindas, muita lindas sabe? Fiquei perplécto.

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