Gabriel Montechiari, a evolução do gênio psicótico

Gabriel Montechiari e Silva é um cara que venho acompanhando há muito tempo, desde os tempos do colégio.

Gabriel Montechiari: José Ferreira & Seus Amigos em apresentação no Fernandes Bar, em Maringá

No ano de 2003, enquanto eu tocava com uma banda chamada Magrelas Poser, o Gabriel (Zé Ferreira), o Caio e o Marco (hoje, do Os Bandidos Molhados) faziam os ensaios de sua banda punk-rock-bubblegum chamada Plaft.

Gravaram tudo de forma independente (é claro!) em 2004 e 2005 e distribuíram pelo TramaVirtual e outros meios. Fizeram vários shows, mas não chegaram a lançar nenhum álbum. Mas a repercussão foi boa. A banda fazia umas festas legais. Eu mesmo, curtia pra caramba o som dos caras e aposto que muita gente da cidade (principalmente aqueles que eram menores de dezoito naquela época) lembra do Plaft.


Os anos passaram, Gabriel passou a ouvir muito folk e country music e embarcou num projeto chamado Annie & The Dirty Cats, tocando nas casas noturnas de Maringá.

Mas o lance de tocar cover não é muito a cara do Gabriel. Ele rabisca, escreve, desenha, compõe. Tem o espírito artístico. E cover não é pra artista. Artista faz arte.

Bom. Não sei dizer até que ponto é verdade o lance de Montechiari ser depressivo/psicótico. Já ouvi dizer que Gabriel toma uns remédios tarja-preta e possui uma visão conturbada sobre a existência humana. Talvez seja lenda, talvez não.

Fato é que em 2008, Gabriel passou a escrever suas próprias músicas (não para uma banda, como fazia no Plaft, mas meio que uma carreira solo), as quais não seriam divulgadas até o próximo ano.

Em 2009, ele idealizou o projeto que se chamaria José Ferreira & Seus Amigos, bem como o primeiro CD, que se chamaria Gozando a Vida.

A ideia toda da banda é melhor explicada e justificada por Montechiari: "No começo do ano de 2009 eu idealizei o cd que chamaria Gozando a Vida. Era verão e eu voltava à Maringá após alguns meses na minha cidade natal e, apesar de estar vivendo uma crise que reestruturaria uma série de valores que tinha como sagrados, experimentava uma espécie de fervor religioso primitivo que me fazia contemplar a natureza com olhos de fome. Passei por um isolamento emocional pelo qual vivi simultaneamente as piores angústias e os maiores prazeres da minha vida, mas no final de cada dia a visão do pôr-do-sol fazia a balança da vida pender para a graça"

De fato, Gabriel estava num estado mental diferente. O resultado disso não foi só a música, mas a própria pintura do quadro "Mão na Lisa", o qual aparece na capa do primeiro disco de José Ferreira.


Gabriel continua explicando: "Este foi o contexto subjetivo do álbum, coisa que dou enorme importância (e que creio que só foi bem retratado na ultima musica, de mesmo nome que o disco), mas não é o principal. Na escolha do repertório ainda segui minhas manias de fazer sentido, mas a música foi se formando de forma mais instintiva, minha inexperiência com produção musical me fez ir ao estúdio sem o menor planejamento. Tinha, porém, certas convicções anti-estilísticas, sabia como não queria soar. Foram dois meses de gravação com Haroldo Rickli (que trabalha comigo dês das gravações da minha antiga banda, Plaft), música por música fizemos o que minha paciência e imperícia tornaram possível. Thiago Tonin deu grande colaboração em linhas de baixo e guitarra, tivemos participações de outros músicos como Gustavo do Brian Oblivion, Eduardo(gaita do 459), Bruno Vicentini e Rafael Muniz do havana, entre outros amigos."


Justificar

O CD Gozando a Vida foi lançado em 2009 e bem recepcionado pelo pessoal. Entretanto, notei que o som estava muito cru. Talvez, em razão de Montechiari ter convidado os músicos muito em cima da hora e não ter firmado o som como banda, mas sim como músico solo. Era contrastante a diferença do som da banda ao vivo para o da gravação.

As músicas eram muito baseadas no violão, sem riqueza de detalhes na produção, tampouco segundas vozes, ou elementos secundários que fazem muito diferença no som produzido em estúdio (slide guitar, percussão, meia-lua, base de teclado, etc).

O grande trunfo, entretanto, ficou por conta do perfil comportamental e da própria estética artístico-visual de Gabriel. Quem o conhece, sabe do que estou falando. Ele tem um estilo rocker que pouca gente da música em Maringá tem. É genuíno, assim como seu som. E não é atoa que saiu até uma matéria no O Diário, escrita por Andye Iore, sobre isso, a qual colo um trecho: "O guitarrista e vocalista Gabriel Montechiari e Silva, 21 anos, da banda José Ferreira & Seus Amigos, é um dos mais criativos roqueiros de Maringá. Além de influências respeitáveis e participações criativas em várias bandas da cidade, ele ainda leva uma vantagem. É um dos raros showmen da história do rock maringaense. Pouco se vê nos palcos da cidade roqueiros que explorem o visual e a encenação. Em muitos casos, os caras parecem qualquer coisa, menos roqueiros. Usam roupas do dia a dia e simplesmente cantam e tocam. Não é o caso de Gabriel, que faz discursos provocantes, já tirou sangue do próprio braço e pintou o logotipo da banda em um cartaz em pleno show, encenou um desmaio, tirou a calça, entre outras situações que deixaram o público ora de boca aberta, ora aplaudindo. Nunca indiferente."

Ele provoca e, de certa forma, traz um pouco do ar rebelde cosmopolita para uma cidade tão provinciana e acomodada como Maringá.

No final do ano foi anunciado pela banda que o novo disco seria produzido no Rio de Janeiro pelos próprios integrantes do grupo Nervoso & Os Calmantes. E pra lá eles foram.

Em 2010, nada foi anunciado oficialmente pela banda, nem músicas novas foram disponibilizadas no myspace. Mesmo assim, dois clipes surgiram na net, das músicas Cloridrato de Paroxetina e Não Tenha Medo.






Pra quem ouviu o primeiro disco, ficou clara a diferença de qualidade entre as primeiras gravações e estas duas músicas, não?

Som mais maduro, com diversos recursos que preenchem o som.

As letras também. Estão mais densas, ainda mais provocativas.

É. Coisa boa está pra vir.

Podem anotar, meus amigos. Zé Ferreira é um dos grandes nomes da nova geração (ou talvez, a primeira) da música maringaense. É só questão de tempo para Gabriel e sua trupe serem reconhecidos. E se não for aqui, será em Curitiba, ou São Paulo ou Rio de Janeiro.

Esse cara ter arte pulsando nas artérias.

3 comentários:

Marco disse...

Grande texto zanatta!!
O Gabriel tem peculiaridades que fazem dele um cara diferente de qualquer coisa que voce possa imaginar.
Grande amigo, diria, irmao!
Um abraco Zanatta, seu blog ta massa pra caralho.

Michel Roberto disse...

É tudo verdade. Já até vejo o Bugila falando pro Gabriel: "Você é um artista, cara!".
E ele é mesmo. Cada vez que encontro o cara, cada show ou apresentação que vejo, tenho a certeza que está chegando a hora de o showman despontar pro mundo. Ele tem tudo que um artista precisa: criatividade, emoção, presença de palco e até uma certa dose de polêmica. É um cara que merece o nosso respeito tecnológico! Hehe

Amanda Rainha disse...

Assino embaixo de tudo o que está escrito aí, Rafa! O Gabriel é um cara singular, genial e admirável. E é uma questão de tempo (espero que pouco) para que a banda cresça tanto quanto merece. Estamos aguardando ansiosamente pelo show no dia primeiro de maio e pelo cd que está por vir. :)

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