No Line On The Horizon

Eu cansei de esperar o CD novo do U2 que tá vindo via correio lá de Londres e resolvi baixar o álbum pela internet. Passei essa última semana ouvindo muito o novo álbum do U2, de cabo a rabo, digerindo cada música.

Olha, não se deixem levar por "Get On Your Boots". Esse é não é o U2, é apenas uma jogada comercial, um single fraco no meio de um gradioso album. Sem brincadeira, No Line On The Horizon tem a grandiosidade de Acthung Baby (1991) e Zooropa (1993).

Eu estava montando uma bela resenha na cabeca ao ouvir cada música, mas depois de ler as palavras de Renato Thibes no blog Registro Dissonante, eu fiquei calado. Ele captou com maestria o espírito do álbum. Não me resta muito, senão transcrecer essa bela resenha. Aqui vai:

"O que significa a ausência de uma linha no horizonte? Que não há limites, fronteiras ou um ponto de referência. Significa que na sua frente existe apenas o infinito. E o infinito, como "ela diz", é um ótimo lugar para se começar. É um pensamento grandioso, mas o U2 nunca foi de pensar pequeno.

As músicas de "No Line On The Horizon" podem ser divididas em dois grupos, que se misturam entre si como a foto da capa. O primeiro grupo, vamos chamá-lo de "mar", é o das típicas músicas do U2, reconhecíveis de imediato, que nos lembram alguma fase específica da carreira da banda. É do feitio do U2 passar meses em estúdio, trocar de produtores (Rick Rubin rodou), jogar material completo no lixo para começar tudo de novo quando descobrir um novo caminho... tudo para soar como o bom e velho U2 de sempre, só que diferente.

O segundo grupo, vamos chamá-lo de "céu", tem as músicas mais difíceis, mais complexas e mais originais da banda em muito tempo. Abusam dos truques de estúdio, capricham das várias camadas de sons e fazem valer os recursos eletrônicos disponíveis. Soam como projeto paralelo, como resultado do "Passengers", e não a toa desta vez o time de produtores formado por Daniel Lanois e Steve Lillywhite e capitaneado pelo mago Brian Eno foram alçados à categoria de co-autores.

A banda nem aparece na capa, o que não acontecia desde "Zooropa". Os quatro rapazes de Dublin Bono, Edge, Adam & Larry não estão mais sozinhos. Nem Bono está sozinho como frontman. Ao longo do disco, várias vezes ele canta em meio a um emaranhado de vozes, muito além dos sempre sensacionais backing vocals de The Edge. Sem a linha no horizonte, existe um sentimento de união muito forte ali.

No meio do caminho, não dividindo mas unindo as pontas entre futuro, presente e passado, está o polêmico primeiro single, "Get On Your Boots". Quando vazou na net, muita gente estranhou e mais gente ainda odiou. Parece "Vertigo" com "Discothèque", parece mais do mesmo, só que pior. "Sexy boots?" Você lê sobre as pretensões de Bono de evoluir na composição, de atingir o nível de seus heróis Van Morrison e Bob Dylan, e são "sexy boots" que você recebe depois de 5 anos de silêncio?

Fora da exigência do primeiro single e dentro do contexto de "No Line", "Get On Your Boots" perde essa importância. Não é a primeira faixa (muito mais importante, porque define o caminho artístico do álbum), é só o primeiro single (que define o caminho comercial do álbum, se é que isso ainda existe hoje em dia). "Boots" faz sentido em seus dois melhores momentos: no refrão "you don't know how beautiful you are" (fase "mar", pop e fácil) e na paradinha "let me in the sound" (fase "céu", etérea e espacial). "Boots" pede para não ser levada a sério. "Eu não quero falar sobre a guerra entre as nações", vindo de Bono, só pode ser sacanagem. Não duvido que a banda apareça com uma "Sexy Boots Tour" na sequência, com Bono colocando mais uma máscara em seu perfil de rockstar, depois de dois discos e duas turnês de cara limpa.

O conjunto de mar e céu sem linha divisória entrega o álbum menos pop do U2 desde o próprio "Pop". Talvez "No Line" seja o álbum que o "Pop" nunca conseguiu ser na época, seja pelas indecisões da banda, seja pela pouca receptividade do público. Talvez "Pop" tenha sido lançado na época errada, logo depois das obras-primas "Achtung Baby" e "Zooropa", logo depois da Zoo TV e naquela confusão de fim de milênio, hora perfeita para as nóias de "Ok Computer" e não para a ironia anti-consumista da PopMart.

"No Line On The Horizon" chega na hora certa, depois de dois discos que foram boas compilações de belas canções, mas não mais do que isso. "All That You Can't Leave Behind" e "How To Dismantle An Atomic Bomb" sentiam falta de um conceito, uma unidade. E isso "No Line On The Horizon" parece ter de sobra, o que o coloca como herdeiro imediato de "Zooropa" e "Pop".

Mais do que a habilidade dos músicos ou o carisma de seu vocalista, o que diferencia o U2 de seus seguidores (Kings of Leon, Killers, Coldplay) é a perfeita sintonia entre alma e conteúdo. O Coldplay tentou no ano passado, mas não basta contratar o Brian Eno. "Viva La Vida" foi uma espécie de laboratório para o produtor testar os novos limites do "pop rock de arena", mas deixar o Chris Martin em casa para trabalhar com gente grande deve ter sido um alívio para ele.

"No Line On The Horizon" é o disco mais coeso desde "Zooropa", o que por si só já é ousado, em uma época em que ninguém mais dá bola para álbuns com começo, meio e fim. "No Line" não tem potenciais singles, mas tem um arsenal de novos hinos de estádio que devem tornar a próxima turnê uma experiência ainda maior do que as anteriores. Coisa que os fãs da banda entendem, mas que o povão que está lá pela balada pode achar "nada a ver".

"No Line" começa no céu com a faixa-título (o que também não acontecia desde "Zooropa") que traz tudo que me faz gostar de U2: uma letra de múltiplos significados que se encaixa em diversas situações da vida, um "crescendo" que explode em um "ôôôô" típico e emocionante (muito repetido no disco), Bono cantando com paixão, backing vocals inspirados, sensualidade e espiritualidade. Infinitamente melhor que os hits "Vertigo" e "Beautiful Day", minha preferida do disco e séria candidata a melhor música do U2 na década.

"Magnificent" é mar, uma típica canção do U2 que poderia estar em qualquer outro disco anterior. Bono declara seu amor ao público e diz que nasceu para cantar para a gente. Ele não teve escolha. Só o amor pode deixar uma marca assim. Se a banda acabar logo mais, "Magnificent" pode ser o seu epitáfio. É uma música de identificação imediata, favorita de todo mundo que não se deu ao trabalho de ouvir o disco de novo.

"Moment Of Surrender" é céu e é outro nível. Uma baladona cheia de diferentes cenários e ambientações. Com mais de 7 minutos logo na terceira faixa, o U2 mostra que não está tão preocupado com hits radiofônicos desta vez, que há mais em "No Line On The Horizon" do que uma primeira audição descompromissada pode sugerir. De alguma forma ela se conecta a "Unknown Caller", que é tão U2, mas tão U2, que você se pergunta se já não a ouviu antes. Com introdução de "Bad" e um refrão de mantras em coro que soa como uma anti-"Numb", chamando o ouvinte a se levantar e tomar uma atitude. Os mantras usam expressões de computadores para passar sua mensagem e dar a ordem, usando uma linguagem familiar e dando outro significado a ela, como na minha preferida: "Force quit and move to trash". É como se os slogans da Zoo TV tivessem tomado conta da nossa cultura definitivamente. A ordem "restart, reboot yourself" faz a ponte com o verso da primeira faixa, "you put me on pause, I'm trying to rewind, reload and replay". Esses arcos narrativos são bem comuns no disco todo. E pra não ficar só no campo das mensagens, um elogio ao sublime solo de The Edge no final.

"I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" tem esse título Britney Spears que deixou os fãs de cabelo em pé, mas é um alívio constatar que ela não tem nada de loucura teen fritando na balada. Segundo Bono, é a música mais "fofa" da banda desde "The Sweetest Thing", ignorando "Wild Honey" e "Original Of The Species", que também capricharam na doçura. "Crazy Tonight" é a mais mar do disco e tem alguns de seus melhores versos, também inseridos no contexto, seja ele o da chamada à ação ("toda geração tem uma chance de mudar o mundo"), seja na auto-referência do cantor/compositor/ativista/messias/celebridade/super-homem Bono, que tem plena noção de sua imagem na sociedade e adora brincar com ela ("o direito de ser ridículo é algo que eu prezo, querida").

Depois de "Get On Your Boots" confirmar sua posição intermediária no álbum, a roqueira "Stand Up Comedy" é a música mais Oasis que o U2 já gravou. É mar e mais uma vez convoca diretamente para a ação, desta vez de forma mais politizada em letra muito inspirada. Cita as duas torres, Deus ("pare de ajudar Deus como se ele fosse uma velhinha atravessando a rua") , o ego de rockstar ("tome cuidado com homens pequenos com grandes idéias" é Bono se comparando a Napoleão e a Hitler, uma piada interna na banda). Os temas frequentes da carreira do U2 aparecem de forma explícita e sem maquiagem, para quem não pescou a mensagem escondida nas outras faixas. Ao contrário do amigo Bruce Springsteen, o U2 não se acomodou no otimismo da era Obama. Estamos todos trabalhando em um sonho, mas sabemos que não é tão fácil assim chegar lá.

"Fez - Being Born" é a música mais céu do disco. Pela primeira vez fica evidente a influência do local escolhido para a gravação, a cidade de Fez, no Marrocos. Foi parar até no nome da música, coisa que nem Berlim conseguiu em "Achtung Baby". "Being Born" tem uma intro que repete o slogan "let me in the sound" antes de começar de fato e é quase instrumental - a misteriosa letra é quase um poema declamado. A fluência entre as faixas de "No Line" é algo a ser louvado. "Being Born" se transforma em "White As Snow", balada que poderia ser folk, caso não houvesse Brian Eno ali cuidando do clima. Aqui, Bono assume-se como narrador e demonstra de novo a boa forma como letrista.

"Breathe" joga o clima campestre lá longe com as guitarras mais pesadas do disco e uma letra atropelada que flerta com o psicodelismo e faz Bono perseguir outro de seus objetivos pessoais: compor a sua "I Am The Walrus". Repare nos "coocoodjoos" da letra. Já a "eletricidade perdida na rua" lembra Dylan, quando este cantava sobre "o fantasma da eletricidade" em versos que significaram barbaridades lá nos anos 60. Será que o U2 está abraçando a eletricidade novamente agora, em um outro nível? O cuidado com a produção rebuscada de "No Line On The Horizon" me diz que sim.

"Cedars of Lebanon" termina serena como uma tradicional faixa de encerramento do U2, na linha "Love Is Blindness", mas guarda um lado negro como "Dirty Day". Afinal, falar de inimigos no Líbano é sempre perigoso. Eu duvidada que o Bono ainda fosse capaz de me surpreender como vocalista, mas depois de tudo que ele aprontou aqui, o encerramento sóbrio, como um crooner desiludido, surpreende de novo e demonstra a maturidade da banda. The Edge mais contido dá espaço para o lado jazz de Larry Mullen Jr. e para um solo de Adam Clayton. Bono termina o álbum sombrio, alertando para a escolha sábia de seus inimigos.

A cada nova audição de "No Line On The Horizon", a linha entre o céu e o mar desaparece um pouco mais. Há décadas atrás, Bob Dylan descobriu um jeito de estender sua carreira infinitamente, através de uma determinada técnica vocal e de códigos matemáticos que explicam a estrutura de uma canção. Para uma banda acostumada a se renovar e a envelhecer no topo do mundo, o U2 não poderia nem sequer pensar em se repetir de novo. Seria como decretar o fim da carreira, ou no mínimo a estagnação no novo milênio - o que, para eles, dá no mesmo. Mas de alguma forma parece que o U2 seguiu Dylan e descobriu a fórmula para uma carreira eterna, sem horizontes definidos, deslizando na superfície das coisas, como "Achtung Baby" já previa.

Talvez o U2 tenha se reinventado mais uma vez, ou talvez seja apenas um último impulso, uma energia extra, um sprint final antes da chegada. O fato é que "No Line On The Horizon" tem algo a dizer e é desafiador tentar entender o que é. A mensagem que eu captei até aqui é que existe todo um universo a ser explorado bem ali na frente. Basta levantar e seguir em frente"

Genial, não? Só me resta concordar com o Renato. O U2 arrebentou com esse álbum. Com certeza, um trabalho superior aos avancos de "Viva La Vida!" do Coldplay e "Because of The Night" do Kings of Leon, bandas influenciadas demais pelo som do U2.

3 comentários:

Rochera disse...

O CD tá mt loco mesmo..
ainda nao ouvi mtas vezes mas dá pra ver q ficou massa!

Anônimo disse...

Você quis dizer "only by the night" ou "because of the times"?

Anônimo disse...

Only By The Night

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