O processo de Bolonha e o alerta de Sousa Santos

O sempre brilhante Boaventura Sousa Santos, sociólogo da Universidade de Coimbra, nos convida a uma (necessária) reflexão sobre a reforma universitária na Europa, que trará fortes conseqüências para o Brasil. Acredite.

O texto foi extraído do site Carta Maior:


O processo de Bolonha — a unificação dos sistemas universitários europeus com vista a criar uma área europeia de educação superior — tem sido visto como a grande oportunidade para realizar a reforma da universidade europeia. Penso, no entanto, que os universitários europeus terão de enfrentar a seguinte questão: o processo de Bolonha é uma reforma ou uma contra-reforma? A reforma é a transformação da universidade que a
prepare para responder criativamente aos desafios do século XXI, em cuja definição ela ativamente participa. A contra-reforma é a imposição à universidade de desafios que legitimam a sua total descaracterização, sob o pretexto da reforma. A questão não tem, por agora, resposta, pois está tudo em aberto. Há, no entanto, sinais perturbadores de que as forças da contra-reforma podem vir a prevalecer. Se tal acontecer, o cenário distópico terá os seguintes contornos.

Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda única sem unificar as políticas públicas, a política fiscal e os orçamentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias. As consequências previsíveis serão estas: abandonam-se os princípios do internacionalismo universitário solidário e do respeito pela diversidade cultural e institucional em nome da eficiência do mercado universitário europeu e da competitividade; as
universidades mais débeis (concentradas nos países mais débeis) são lançadas pelas agências de rating universitário no caixote do lixo do ranking, tão supostamente rigoroso quanto realmente arbitrário e subjetivo, e sofrerão as consequências do desinvestimento público acelerado; muitas universidades encerrarão e, tal como já está a acontecer a outros níveis de ensino, os estudantes e seus pais vaguearão pelos países em busca da melhor ratio qualidade/preço, tal como já fazem nos
centros comerciais em que as universidades entretanto se terão
transformado.

O impacto interno será avassalador: a relação investigação/docência, tão proclamada por Bolonha, será o paraíso para as universidades no topo do ranking (uma pequeníssima minoria) e o inferno para a esmagadora maioria das universidades e universitários. Os critérios de mercantilização reduzirão o valor das diferentes áreas de conhecimento ao seu preço de mercado e o
latim, a poesia ou a filosofia só serão mantidos se algum macdonald informático vir neles utilidade. 

Os gestores universitários serão os primeiros a interiorizar a orgia classificatória, objetivomaníaca e indicemaníaca; tornar-se-ão exímios em criar receitas próprias por expropriação das famílias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destruição da criatividade e da diversidade universitárias, normalizando tudo o que é normalizável e destruindo tudo o que o não é. 

Os professores serão proletarizados por aquilo de que supostamente são donos — o ensino, a avaliação e a investigação — zombies de formulários, objetivos, avaliações impecáveis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na substância, workpackages, deliverables, milestones, negócios de citação recíproca para melhorar os índices, comparações entre o publicas-onde-não-me-interessa-o-quê, carreiras imaginadas como exaltantes e sempre paradas nos andares de baixo. Os estudantes serão donos da sua aprendizagem e do seu endividamento para o resto da vida, em permanente deslize da cultura estudantil para cultura do consumo estudantil, autônomos nas escolhas de que não conhecem a lógica nem os limites, personalizadamente orientados para as saídas do desemprego profissional.

O serviço da educação terciária estará finalmente liberalizado e conforme às regras da Organização Mundial do Comércio. Nada disto tem de acontecer, mas para que não aconteça é necessário que os universitários e as forças políticas para quem esta nova normalidade é uma monstruosidade definam o que tem de ser feito e se organizem eficazmente para que seja feito. Será o tema da próxima crônica.

2 comentários:

Nanan disse...

com a eficaz progressão de suas colocações gramáticas objetivomaníacas, caro irmão, teus textos do blog tornar-se-ão em curtíssimo prazo inacessíveis para leitores que navegam na rede curtindo um som. hahaha
mal consegui GROOVEAR aqui com o SARAVAH SOUL, pô! hahahaha
Brincadeira cara.. texto mto bom!
Tá sabendo que talvez consiga ir pra Coimbra fazer umas unidades curriculares na antropologia por uns meses ano que vem?
Beeeijo, meu irmão. Saudades!

Marcia disse...

Filho,
Na semana passada, eu, Lili e Daniel almoçavamos juntos e simplesmente eu não parava de me alementar sobre o que tinha lido em um artigo sobre o Processo de Bolonha e a intensificação do tabalho do professor universitário. Naquele momento, reclamei do que estavam fazendo da gente aqui no Brasil por meio da avaliação da CAPES e da sútil economização e empresarialização no gerenciamento da universidade 1 profesor a cada 30 alunos. Um verdadeiro caos. O Fazer mais com menos tempo e menos recurso material dentro da universidade. Que bom que estudantes como vc estão atentos aos processos criados na comunidade europeia e a desumanização no trabalho docente que já está sendo refletido no Brasil. Abaixo o produtivismo acadêmico e viva a reflexão e as vivências com as comunidades locais. Te amo e vamos conversando

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