Criolo e as questões urbanas: Convoque Seu Buda


[ por Júlia Navarro Perioto, em colaboração para o e-mancipação ]

O ano de 2015 começou com uma nova onda de protestos articulados pelo Movimento Passe Livre em resposta ao aumento das tarifas do transporte público em diversas cidades brasileiras. As Jornadas de Junho de 2013 deixaram frutos. Na internet, as redes sociais jogaram luzes sobres a injustiças da repressão estatal. Com o compartilhamento de vídeos e textos, narrativas foram construídas através de trocas de indignações. Nas ruas, a população ocupou os espaços públicos com manifestações, aulas públicas, intervenções culturais. Junho de 2013 fez com que muitas pessoas se descobrissem como sociedade civil, e essas pessoas organizaram-se. Em 2014 o Brasil questionou a Copa do Mundo! E é neste contexto em que o rapper paulistano Criolo lançou seu último álbum no final do ano passado.

Convoque Seu Buda” é reflexo de uma observação atenta da realidade contemporânea. Com forte teor político, o álbum faz referência a diversos assuntos atuais: crescimento baseado no consumo, insuficiência do valor do salário mínimo, concentração de renda, manifestações populares, mercantilização da cultura, guerra contra o crack, déficit habitacional, especulação imobiliária, legalização da maconha, dentre outros.

Em diversos momentos, Criolo trata especificamente da questão urbana. Com versos como “prédios vão se erguer e o glamour vai colher corpos na multidão” presente na música “Casa de Papelão”, o cantor denuncia a especulação imobiliária, retratada como uma das maiores fontes de acumulação de riquezas conforme recente análise feita por David Harvey em ensaio cuja tradução foi publicada pelo blog da Boitempo.

Outro ponto importante abordado pelo artista são as manifestações, greves e ocupações. A música “Fermento Pra Massa” aborda o direito de greve da forma como ele é constitucionalmente garantido (e como deveria ser tratado pela população): de maneira coletiva, como uma luta por direitos e por dignidade. Ao cantar “hoje eu vou comer pão murcho, padeiro não foi trabalhar, a cidade está toda travada, é greve de busão, estou de papo pro ar” e “eu que odeio tumulto não acho insulto manifestação pra chegar um pão quentinho com todo respeito a cada cidadão” Criolo se contrapõe ao discurso da mídia tradicional que, ao cobrir revoltas populares preocupa-se mais em mostrar as pessoas afetadas pelos efeitos colaterais das paralisações do que em investigar as prováveis negativas de direitos que levaram às mobilizações. Ao levar este ponto de vista ao seu público, composto majoritariamente pela juventude, o artista ajuda na disputa pela opinião pública para a construção de um país mais justo e mais humano.

A cultura cumpre seu papel transformador no álbum “Convoque Seu Buda” e assim quebra a lógica do mercado, conforme denunciada na música “Leve Pra Ela” (que faz referência ao Coletivo Fora do Eixo, rede de coletivos de cultura que teve papel de destaque na cobertura das Jornadas de Junho através da Mídia Ninja), colaborando com a reflexão crítica sobre os nossos dias.

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