Pasolini, fascismo e sociedade de consumo



Em um texto publicado na revista L'Europeo em 26 de dezembro de 1974 -- um ano antes de sua morte brutal na cidade litorânea de Óstia --, Pier Paolo Pasolini analisou a formação de um novo fascismo na Itália, distinto do tradicional "fascismo nacionalista" dos tempos de Mussolini.

Para Pasolini, a característica central do novo fascismo era a transformação da visão de mundo dos jovens italianos, quase todos orientados para a compra de bens e para a moda. Esse novo fascismo da década de 1970 foi capaz de chegar ao fundo da alma dos italianos, constituindo um novo tipo de sociedade cuja única ordem é o consumo. Há quarenta anos, o intelectual italiano apresentava sua análise na seguinte forma:

Estou profundamente convencido que o verdadeiro fascismo é o que os sociólogos muito gentilmente chamaram "sociedade de consumo", definição que parece inofensiva e puramente indicativa. Isso não é nada. Se se observar bem a realidade, e sobretudo se se souber ler os objetos, a paisagem, o urbanismo e acima de tudo os homens, vê-se que os resultados desta inconsciente sociedade de consumo são eles mesmos os resultados de uma ditadura, de um fascismo puro e simples. (...) O [velho] fascismo fez deles realmente, fantoches, servidores, talvez em parte convictos, mas nunca lhes chegou ao fundo da alma, à sua maneira de ser. Pelo contrário o novo fascismo, a sociedade de consumo, transformou profundamente os jovens: ela tocou-os no que eles tinham de mais íntimo, deu-lhes outros sentimentos, outras maneiras de pensar, de viver, outros modos culturais. Já não se trata como na época mussoliniana, de uma arregimentação artificial, cenográfica, mas de uma arregimentação real, que roubou e modificou a sua alma. O que significa, em definitivo, que esta "civilização de consumo" é uma civilização ditatorial. Em suma, se a palavra "fascismo" significa violência do poder, a "sociedade de consumo" conseguiu realizar o fascismo.

É interessante notar que Pasolini afirmou estar de acordo com alguns sociólogos de sua época. Quais seriam? Arrisco dizer que as teorizações de Pasolini foram influenciadas pela análise do sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), que em 1970 publicou La Société de Consommation. Baudrillard falava do consumo como novo mito tribal, como uma nova moralidade do mundo presente -- uma "sociedade sem história" e "sem mitos, senão ela própria" -- e como uma "mutação fundamental da ecologia da espécie humana". Em seu texto clássico, Baudrillard alertava para a dependência do homem ao ritmo dos bens de consumo: nous vivons le temps des objets: je veux dire que nous vivons à leur rythme et selon leur succession incessante (1970, p. 18).

No entanto, diferentemente da "análise da economia política dos objetos" proposta por Baudrillard, Pasolini estava interessado na penetração da ideologia do consumo na mente da juventude italiana. Isso fica evidente a partir da análise de outro texto de Pasolini, publicado no Corriere della Sera, em 24 de junho de 1974, com o nome "Il Potere senza volto" -- posteriormente republicado na coletânea Scritti Corsari (1975) como "Il vero fascismo e quindi il vero antifascismo". 

Nesse texto, Pasolini fala da emergência de um novo Poder que já não estaria no Vaticano, nas Forças Armadas ou na Democrazia CristianaTal como o Império de Antonio Negri, que não é territorialmente identificável, o "novo Poder" descrito por Pasolini seria transnacional e difuso, algo como uma mutação do capitalismo:

Conheço, porque eu vivo e vejo, algumas características desse novo Poder ainda sem rosto: por exemplo, a sua rejeição do velho sanfedismo e do velho clericalismo, sua decisão de abandonar a Igreja, a sua determinação (bem-sucedida) de transformar os camponeses e os proletariados em pequenos burgueses, e, acima de tudo, o seu desejo, por assim dizer cósmico, de implementar integralmente o "desenvolvimento": produzir e consumir. Ao semblante do rosto ainda branco do novo Poder são atribuídos traços vagamente "moderados", devido à tolerância e uma ideologia hedonista perfeitamente auto-suficiente: a tolerância é, de fato, falsa, pois, na realidade, nenhum homem jamais teve que ser tão normal e conformista como o consumidor; e quanto ao hedonismo, isso obviamente esconde uma decisão a preordenar tudo com uma crueldade que a história nunca conheceu. Portanto, esse novo Poder, ainda não representado por ninguém e derivado de uma "mutação" da classe dominante, é, na realidade -- se desejamos manter a velha terminologia -- uma forma "total" de fascismo. Esse Poder tem também "homologado" culturalmente a Itália: trata-se ainda de uma homologação repressiva, por ser obtida através da imposição do hedonismo e do "joie de vivre". A estratégia dessa tensão é uma espiã, ainda que substancialmente anacrônica, de tudo isso (tradução livre).

Pasolini estava preocupado com uma "mutação antropológica dos italianos". Ao observar o comportamento dos jovens em 1974, ele identificava um padrão comportamental que tendia a um modelo único -- notavelmente influenciado pelo estilo de vida dos Estados Unidos -- e que poderia ser facilmente identificado, salvadas algumas pequenas modificações, nos dias atuais:

Eles decidem se deixam o cabelo crescer até os ombros ou cortam o cabelo e deixam crescer um bigode; decidem se colocam uma faixa na cabeça ou óculos escuros; decidem se sonham com uma Ferrari ou um Porsche; seguem cuidadosamente os programas de televisão; conhecem os títulos de qualquer best-seller; vestem-se com calças e camisas poderosas da moda; têm relacionamentos obsessivos com meninas próximas, mas, ao mesmo tempo, com a alegação de que são "livres" e assim por diante. Todos esses atos são culturais. Agora, toda a juventude italiana comete esses mesmos atos, tem a mesma linguagem física e são intercambiáveis; coisa velha como o mundo se limitada a uma classe social ou a uma categoria: mas o fato é que esses atos culturais e essa linguagem corporal são interclassistas. Em uma praça cheia de jovens, ninguém pode distinguir, a partir de seus corpos, quem é trabalhador e quem é estudante, quem é fascista e quem é antifascista; coisa que ainda era possível em 1968 (tradução livre).

No contexto dos debates públicos gerados após o atentado da Piazza della Loggia de Brescia em março de 1974, Pasolini queria provar um ponto: aqueles que assassinaram militantes antifascistas e socialistas não eram fascistas tradicionais. A sociedade de consumo, na sua opinião, buscava uma nova totalização brutal do mundo e gerava um novo tipo de fascismo, que não era "humanisticamente retórico, mas americanamente pragmático". Apesar de democrático em sua formatação institucional, o regime político-cultural italiano, ao adotar um discurso de produção e consumo, seria capaz de gerar esse novo tipo de "civilização ditatorial".

Ao relermos Pasolini quarenta anos depois de sua morte podemos questionar se ele não previu, na Itália, um tipo de civilização ditatorial presente em todo o Ocidente no século XXI. O que diria ele ao contemplar a disseminação desenfreada de shopping centres -- idênticos em sua estrutura e função -- e de centros urbanos com as mesmas lojas de vestuário, revendedoras autorizadas de gigantes da tecnologia e franquias de restaurantes globais?

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