As interpretações das revoltas de junho


As revoltas de junho, também chamadas de jornadas de junho, já entraram para a história brasileira como o maior levante popular desde a redemocratização do país. O significado deste levantes, entretanto, ainda é objeto de disputa entre aqueles capazes de produzir discursos interpretativos sobre tal fenômeno. Esse, aliás, é um momento crucial de definição de ideias que servirão de referência para compreensão desse complexo e peculiar momento da vida social brasileira.

Alguns acadêmicos foram capazes de produzir rapidamente ensaios interpretativos sobre os protestos de junho de 2013. O filósofo Marcos Nobre, por exemplo, conseguiu escrever em apenas dez dias o livro eletrônico Choque de Democracia: Razões da Revolta, lançado pela Companhia das Letras. A obra sintetiza a tese de Nobre sobre o esgotamento do modelo de democracia representativa e a blindagem política gerada pelo "peemebedismo" (uma cultura política adepta de negociações e barganhas fechadas em si mesmas e avessas ao debate público).

Além do livro Choque de Democracia, uma outra obra atualmente disponível é a coletânea Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo Editorial. Trata-se de uma reunião de breves ensaios de diferentes autores, nacionais e internacionais, sobre o significado das passeatas e ocupações que se espalharam por todo país. O prefácio da obra é da urbanista Raquel Rolnik, que disponibilizou a introdução do livro em sua página pessoal

Para Rolnik, que inicia seu texto criticando as "interpretações neoliberais dos protestos", podemos pensar essas manifestações como um terremoto "que perturbou a ordem de um país que parecia viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz, e fez emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos. Mas, sobretudo – e isso é o mais importante –, fez renascer entre nós a utopia… No campo imediato da política, o sismo introduziu fissuras na perversa aliança entre o que há de mais atrasado/excludente/prepotente no Brasil e os impulsos de mudança que conduziram o país na luta contra a ditadura e o processo de redemocratização; uma aliança que tem bloqueado o desenvolvimento de um país não apenas próspero, mas cidadão". O texto de Rolnik prossegue fazendo um balanço geral da opinião dos outros autores de ensaios que compõem o livro.

Tais leituras - como os livros Choques de Democracia e Cidades Rebeldes - oferecem um importante contraponto a simplificações de matérias jornalísticas, em especial algumas produzidas por grandes grupos midiáticos, que geralmente ocultam suas agendas políticas contra determinados partidos ou organizações. Não que as interpretações produzidas por acadêmicos não estejam também baseadas em posições políticas ou valores. Não se espera uma objetividade da ciência social como se o acadêmico não possuísse valores ou posições, ainda mais em um momento-chave de redefinição das relações de poder e obediência.

Relembrando uma provocadora reflexão do sociólogo Louis Wirth, "em uma época da história quando as pessoas não estão apenas se sentindo inquietas, mas questionando as bases da existência social, a validade de suas verdades e a sustentação de suas normas, dever-se-ia tornar claro que não existe valor não vinculado a interesse e nem objetividade independentemente de acordo. Em tais condições, é difícil se apegar tenazmente ao que se acredita ser a verdade face a dissensão, tendendo-se a questionar a própria possibilidade de uma vida intelectual". É importante contrastar diferentes leituras interpretativas sobre as revoltas de junho, considerando a hipótese wirthiana de valores vinculados a interesses. Afinal, o que pretendem os intérpretes e os construtores dos discursos sobre o passado recente?

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