Da violência à nova cidadania: a morte de Hipnos e a juventude brasileira


Segundo a mitologia grega, Hipnos é a personificação da sonolência. Tal "estado reduzido de consciência" (a suspensão temporária da atividade perceptivo-sensorial que é peculiar do sono) caracterizava muito bem o cenário da cidadania brasileira - apática, oprimida e desesperançada. Acreditava-se que o cidadão brasileiro, em especial o jovem, estava distanciado da política e das reivindicações sociais. Eis que, em poucos e agitados dias, muita coisa mudou. De repente, uma nova percepção tomou conta da população diante dos protestos pela redução das tarifas dos transportes públicos. O gigante acordou?

Sem exageros, pode-se dizer que os impressionantes protestos desta segunda-feira, que reuniram mais de duzentas mil pessoas em diferentes cidades do país - São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Salvador, Bauru, Londrina, Porto Alegre (Cf. 'Protestos reúnem mais de 230 mil nas cidades brasileiras') -, simbolizam a morte deste estado de sonolência do ativismo cívico entre os jovens no Brasil. Trata-se, em linguagem metafórica, da "morte de Hipnos", um fenômeno em evolução que se potencializou durante os últimos dias no país.

Ainda é muito cedo para tentar entender a dimensão do poder da multidão e o que, de fato, as pessoas querem (uma pergunta recorrente é: as demandas vão além do que aquelas colocadas pelo Movimento Passe Livre?). Não se pode codificar os fluxos, como pretende a grande mídia (cf. 'Por um movimento antidisciplinar dos movimentos'). Mas é importante não se perder de vista a recente trajetória desta revolta e os fatos que caracterizaram o desejo massivo do protesto nesta segunda-feira por milhares de pessoas. O caso de São Paulo é o que melhor posso descrever. A pauta do Movimento Passe Livre e o "Massacre da Consolação" foram estopins para a potência da multidão, que tomou as ruas na segunda-feira.

O caso de São Paulo: os "vinte centavos" e a violência policial
Os protestos realizados na terça e na quinta-feira em São Paulo foram um duro golpe à noção de democracia compartilhada entre os paulistanos. Muitos acompanharam, com enorme perplexidade, o grau da violência policial contra jornalistas e manifestantes, que foram espancados e atingidos por balas de borracha pela Polícia Militar (cf. 'Bens públicos, violência e liberdade: notas sobre São Paulo').

Ao refletir sobre o protesto de terça-feira - o que primeiro despertou a atenção do país -, propus duas análises: (i) que o Movimento Passe Livre não está brigando apenas por 20 centavos, mas está lutando justamente contra a violência sistêmica brasileira; e (ii) que tal protesto canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o "Estado de Direito" brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global (um capitalismo baseado em "cidades competitivas", que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades).

A reação da mídia na quarta-feira foi bastante polarizada. Os setores conversadores da sociedade atacaram os "atos de vandalismo" e o "quebra-quebra desmotivado" de adolescentes embriagados. Arnaldo Jabor chegou a fazer um comentário patético sobre o assunto. Veículos de comunicação progressistas reagiram. Nas redes sociais, um grande ato foi marcado para quinta-feira, que se tornou o dia mais simbólico das manifestações.

O protesto de quinta-feira - que poderia ser chamado de "O Massacre da Consolação" - foi marcado pela extrema violência policial, pela inconstitucionalidade da repressão e pela falta de bom senso das autoridades públicas. Manifestantes foram presos arbitrariamente (alguns por portarem vinagre!) e diversos cidadãos - ativistas ou jornalistas - foram violentados por bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. A Tropa de Choque, ao tentar conter os ativistas que desejavam chegar até a Avenida Paulista, utilizou de estratégias bélicas para dispersar os manifestantes. Por duas horas (entre 19h e 21h), a violência tomou conta do centro de São Paulo.

Há relatos extremamente trágicos sobre a atuação da Tropa de Choque. Segundo Igor Moreno, estudante de direito da USP, os policiais encurralaram diversos manifestantes que não praticavam atos criminosos: "Contra uma manifestação legítima foram deliberadamente usadas táticas de guerra e de tortura, tanto física quanto psicológica. Os atos terroristas não foram da população. Foram da Polícia Militar, que também deliberadamente cometeu transgressões contidas em seu Regulamento Disciplinar". Há ainda relatos como o do estudante Renan Fernandes, que, mesmo gritando "Sem violência!", foi atingido por bombas e por uma bala de borracha ao protestar pacificamente. Tais histórias confirmam que havia uma ordem para a Tropa de Choque não permitir a associação de pessoas em vias públicas - uma garantia constitucional.

O "Massacre da Consolação" foi fundamental para mudar a opinião da mídia a respeito dos protestos. Se antes os ativistas eram chamados de "vândalos", agora, após sexta-feira, os criminosos eram os policiais da Tropa de Choque. Isso pois os jornalistas foram amplamente agredidos nas manifestações. Somente a Folha de São Paulo, por exemplo, teve sete funcionários feridos. Não é por acaso que eles produziram um dos melhores materiais sobre o ocorrido na quinta-feira, que inclui o depoimento de Giuliana Vallone - jovem repórter atingida no olho direito por uma 'bala de borracha".



O cenário de quinta-feira foi de caos e descontrole. Muitas barricadas foram montadas - com pneus queimados e cavaletes -, lojas foram depredadas e estações de metrô foram vandalizadas. Mas, para as mentes mais ponderadas, estava claro que as "ações de vandalismo" eram respostas à violência policial. O erro estava na atuação da Polícia Militar.

A indignação generalizada: a ocupação das ruas
Sexta-feira foi um dia de extrema angústia para os paulistanos. Todos os que tiveram acesso às redes sociais puderam acompanhar os relatos daqueles que foram agredidos pela Tropa de Choque na noite de quinta. O sentimento de raiva e desconforto com a violência policial se espalhou rapidamente para outros grupos, que não participaram dos protestos de terça e quinta-feira. 

O que ocorreu nesta quinta-feira em muito se assemelha com os eventos que ocorreram em junho de 2011, após a violência policial contra a Marcha da Maconha. Após a repressão policial aos manifestante, uma nova marcha foi convocada, a Marcha da Liberdade, que tinha como pauta elementos mais amplos, como o pluralismo democrático e os limites do poder estatal de utilizar de forma legítima a violência (cf. 'Marcha da Liberdade: para além do senso comum'). No caso dos protestos contra o aumento da tarifa, o mesmo fenômeno ocorreu, após a violência inconstitucional e desmedida dos policiais: um novo protesto foi convocado, com uma pauta mais ampla.

Durante o final de semana espalhou-se a ideia de uma nova manifestação na segunda-feira. Ontem (17/06), na parte da manhã, surgiram os detalhes do protesto: ficou marcado para as 17h, no Largo da Batata, próximo à Avenida Faria Lima, o novo centro financeiro de São Paulo. No mesmo modo, manifestações ocorreriam em outras cidades do país.

Os protestos de segunda-feira ganharam um apoio massivo da população. A opinião pública se posicionou a  favor das manifestações - com certa manipulação da mídia, que agora tenta controlar as revoltas -, que já contava com o suporte de todos aqueles que se indignaram com a violência desmedida de quinta-feira. No entanto, o clima de tensão prévio ao protesto era latente. Diversos guias foram elaborados para os manifestantes (como usar vinagre para retirar o gás lacrimogênio, quais roupas são mais adequadas, como se recuperar de um ferimento, etc), em uma estratégia colaborativa de disseminação de um conhecimento prático. Ao longo do dia, comandantes da Polícia Militar afirmaram que a Tropa de Choque não seria utilizada. Mesmo assim, todos se perguntavam: o que é que pode acontecer neste protesto?

Às seis horas da tarde, uma das principais avenidas de São Paulo ficou completamente tomada por manifestantes pacíficos. Em geral, jovens (de 18 a 23 anos) de diferentes classes sociais e com diferentes opiniões políticas. Durante o protesto, pouquíssimas bandeiras partidárias foram levantadas (esse não é um protesto de um partido político; é uma indignação coletiva e generalizada, que se baseia na cidadania). Os manifestantes saíram do Largo do Batata e caminharam pela Avenida Faria Lima. Posteriormente, a passeata bifurcou-se: um grupo se dirigiu à Ponte Esteada, outro grupo rumou à Avenida Paulista.

Eu participei do bloco popular - uma incontável massa de corpos - que subiu a Juscelino Kubitschek, atravessou o Parque Ibirapuera, subiu a Brigadeiro e chegou na Paulista. Impressionava a completa civilidade da manifestação e a ausência de policiais na passeata. Um grito recorrente era: "Que coincidência, não tem polícia, não tem violência". E com razão. Sem a ação violenta da Polícia Militar não houve nenhum ato de vandalismo grave e nenhuma depredação do patrimônio público. Ninguém estava ali para destruir. O objetivo político era justamente o oposto: construir algo novo, primeiramente através da ocupação dos espaços públicos.

Não houve confusão, apesar da falta de organização da passeata e do movimento. As pessoas deram pleno apoio à manifestação de suas casas, através de palmas, bandeiras e lençóis brancos esticados nas janelas. O clima foi de respeito mútuo, mas com um propósito claro: mostrar que a indignação é extrema e que muito precisa mudar no Brasil. O ato simbólico deste movimento em rede é a ocupação das vias públicas. Mostrar que as ruas são do povo - de todos - e não dos carros. Não há uma tensão e um confronto de classes ("despossuídos e possuídos"), mas sim uma espécie de poder constituinte, que deseja transformar a nação. Ainda não há instrumentos. O que há é o desejo.

Esse desejo revela que há uma nova força política no Brasil. Entretanto, ainda não se sabe o que é exatamente essa força. Também não se sabe o que acontecerá em cenários futuros. Diversas perguntas podem surgir neste momento de euforia e confusão: as passeatas vão se intensificar caso o aumento da tarifa não seja revogado? O movimento vai ganhar força nos próximos dias? A ausência de repressão policial será uma constante? Tais protestos terão pautas mais específicas além do transporte público de qualidade?

Tais perguntas serão respondidas com o tempo. O que é certo é que há uma indignação coletiva entre os jovens e uma crescente capacidade de organização para manifestações pacíficas, que buscam um país mais justo. Pede-se mais democracia, menos corrupção e respeito aos direitos sociais, além - é claro -, da redução das tarifas do transporte público. Eis o despertar de 2013. Ou estamos todos sonhando acordados?

Um comentário:

Anônimo disse...

Nenhum analista... nenhum mesmo... se lembrou da "Marcha dos 100 mil de Brasília", lá na "era do gelo", antes das mídias sociais... ou mesmo dos celulares em profusão.

Colocam o que está acontecendo como a maior "manifestação desde as Diretas". Procure sobre a "Marcha dos 100 mil de Brasília" no google e veja sobre o que aconteceu naquele 26 de agosto de 1999 no coração do Brasil.

Talvez esse evento ajude a compreender o que acontece hoje... nas ruas desse país.

Abraço

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