A arquitetura do golpe de 1964: a projeção de um tempo sombrio


Para quem nasceu no Brasil após a transição democrática de meados da década de oitenta, pode parecer difícil entender o que foi a ditadura brasileira (1964-1985). Nossa geração não estava lá. E mesmo para quem estava, somente agora - décadas depois do controle da burocracia militar que estancou a incipiente democracia brasileira - é que as coisas estão ficando mais claras. Muitas informações ainda não foram reveladas. Enquanto a Comissão Nacional da Verdade (CNV) busca apurar violações de direitos humanos durante o regime, historiadores se lançam em uma agenda de pesquisa sobre o passado recente, em busca de interpretações a partir de fontes documentais até então ocultadas no Brasil e nos Estados Unidos da América.

Aos poucos, constrói-se uma narrativa crítica e realista. Diante de evidências empíricas - gravações de áudio, relatórios, telegramas, comunicações internas entre os militares, documentos diplomáticos -, os pesquisadores querem testar algumas hipóteses relativamente presentes no senso comum, como a de que (i) a revolução militar foi uma resposta ao avanço de uma agenda progressista e reformista de João Goulart, e que (ii) houve participação dos Estados Unidos da América, que queriam evitar uma segunda revolução comunista (aos moldes daquela conduzida por Fidel Castro em Cuba) na América Latina.

As respostas podem parecer intuitivas. Mas as interpretações lógicas e os achismos não bastam. É preciso revirar o passado e compreendê-lo, trazendo ao debate contemporâneo evidências e fatos. 

O primeiro de Abril é uma ocasião propícia para isso. Mas o que se viu no Brasil neste início de mês foi um debate pouco profundo sobre as razões do golpe - talvez pelo efeito "pastor Marcos Feliciano", que tomou e polarizou a esfera pública. A ausência de um debate intergeracional precisa ser revertida. E há um caminho para isso. 

O dia que durou 21 anos: uma investigação jornalística
Nesta manhã, recebi um texto escrito por meu pai para o jornal de Umuarama, cidade em que ele reside no noroeste do Paraná. Seu artigo A Revolução Que Poucos Queriam no Brasil retoma o tema da ditadura militar e faz menção ao documentário "O Dia Que Durou 21 anos", produzido por Flavio Tavares e seu filho Camilo Tavares. O filme, discutido em um excelente programa conduzido na Globo News pela jornalista Miriam Leitão, trata das conspirações contra o governo João Goulart e a participação dos Estados Unidos da América no golpe. Como relata Odacir Zanatta, "o filme mostra como os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson se organizaram para tirar o presidente João Goulart do poder e apoiar o governo do marechal Humberto Castelo Branco".

Apesar de estar em cartaz nos principais cinemas do Brasil, o filme também está disponível na Internet a partir de uma exibição feita pela TV Brasil. Eis uma oportunidade incrível para olhar para o passado e analisar como determinados atores de fora do país, como o embaixador estadunidense Lincoln Gordon, auxiliaram a arquitetar o golpe de 1º de Abril, principalmente em razão da orientação de esquerda de João Goulart e o receio do avanço do socialismo de vertente soviética.

O documentário está dividido em três partes, (i) a conspiração, (ii) o golpe de Estado e (iii) o escolhido. Sua força está na construção argumentativa embasada em novas fontes históricas e no consenso formado por acadêmicos estadunidenses com relação ao que ocorreu no Brasil em Abril de 1964.

1. A Conspiração

TV Brasil - O dia que durou 21 anos - Episódio... por Documentarios

2. O Golpe de Estado

TV Brasil - O dia que durou 21 anos - Episódio... por Documentarios

3. O Escolhido

TV Brasil - O dia que durou 21 anos - Episódio... por Documentarios

Cinquenta anos depois, que lição fica aos brasileiros?
1964 pode parecer muito distante, assim como a bipolarização entre Estados Unidos e a União Soviética, os movimentos socialistas e o autoritarismo na América Latina. O Brasil de hoje é um Estado Democrático de Direito, com instituições definidas em 1988 ainda sólidas, que atualmente é presidido por uma ex-militante, presa e torturada pelo regime militar. Há liberdade de expressão e de associação. Mas a questão é que nós não podemos tomar esse cenário como permanente. Tudo é passível de mudança. O controle democrático é um exercício constante de supervisão sobre corporações que se organizam com interesses próprios.

Discutir a arquitetura do golpe de 1964 é extremamente importante em uma dimensão pedagógica. Os novos brasileiros (aqueles nascidos após 1988, como quase todos os meus alunos) podem ter uma noção mais clara da complexa rede de interesses políticos e econômicos que levou ao golpe, além da empatia com aqueles que não se calaram diante de atrocidades como o fechamento do Congresso, a suspensão do habeas corpus, a censura prévia, a vigilância permanente, a perseguição ao movimento estudantil e os assassinatos de lideranças que representavam perigo à ordem, tal como Carlos Marighella, o mulato baiano (o mais legítimo dos rebeldes brasileiros).

A compreensão é pré-condição para um exercício de alteridade. Redescobrir a história do regime militar e discuti-lo de uma forma acessível para as novas gerações é uma forma de fazer com que as jovens pessoas tenham um exercício reflexivo de potencial crítico: "e se eu estivesse lá naquele momento histórico?".

Além disso, é um poderoso lembrete de que regimes democráticos são frágeis. O dissenso, o conflito e o debate de ideias são inerentes à democracia. Mas isso se torna um problema em nações com baixa tradição democrática, como a brasileira, que está em construção. A pluralidade de ideias e interesses, aliada a uma sociedade civil não educada e desinformada, gera um elemento de desestabilização: demagogos politicamente organizados podem convencer as massas de que há um único e melhor caminho e que toda resistência deve ser silenciada. É a lógica do Brasil: ame-o ou deixe-o.

Se as novas gerações compreenderem o significado político da ditadura militar e estiverem consciente de que a democracia, além de ser um valor, é um projeto em constante tensão e construção coletiva, as chances de um retorno dos tempos sombrios serão menores. Sem informação e reflexão intergeracional crítica, corremos o risco de permitirmos as mesmas violências sociais que hoje parecem distantes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente análise, Rafael!
Tem alguns indivíduos, que ao meu ver conservam em si muito do autoritarismo do período militar, que insistem em dizer que "democracia demais atrapalha". Absurdo! Não existe democracia pela metade. Portanto, esse exercício de cuidar para que ela seja exercida em sua plenitude é de extrema importância e relevância.
Odacir

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