O que é Venture Capital? Uma visão sociológica

Mote, Jonathon E. "Venture capital." Blackwell Encyclopedia of Sociology. Ritzer, George (ed). Blackwell Publishing, 2007. Blackwell Reference Online. 09 October 2012 http://www.sociologyencyclopedia.com/subscriber/tocnode.html?id=g9781405124331_yr2012_chunk_g978140512433128_ss1-23. Tradução-livre de Rafael A. F. Zanatta.

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O venture capital é uma forma institucionalizada de investimento de capital focada em jovens projetos e companhias empreendedoras que estão nos primeiros estágios de desenvolvimento, particularmente aqueles com alto potencial de crescimento. Tais negócios tipicamente não possuem acesso significante ao mercado de capitais, principalmente em razão do alto risco do investimento e do baixo, ou nenhum, colateral. Antes do financiamento via venture capital, essas companhias geralmente baseiam-se no auto-investimento (chamado de bootstrapping financing) e investimentos de indivíduos ou famílias ricas (chamados de investidores-anjo ou angel investors). Geralmente, os tipos de companhias que recebem o financiamento via venture capital são pioneiras em desenvolvimento de produtos baseados em novas tecnologias ou áreas de fronteira, porém qualquer empreendimento de risco com excepcional potencial de crescimento é um candidato ao financiamento via venture capital.

O venture capital é levantado por firmas de capital de risco que solicitam investimentos de investidores institucionais, tais como unidades de private equity de bancos, fundos de pensão, ou outras companhias de gerência de investimento, bem como indivíduos ricos. Companhias de venture capital geralmente focam em indústrias específicas – como biotecnologia ou aplicativos de internet. Companhias podem também focar em companhias em um estágio particular de crescimento, como o estágio semente (seed), ou investimento em estágios avançados, de companhias com produtos viáveis que estão produzindo filiais. Uma companhias de venture capital suficientemente grande deve possuir um número separado de fundos sob sua gerência, que também persegue esse leque de opções.

O venture capital difere do tradicional financiamento de investimento em vários aspectos. Primeiro, as companhias geralmente trocam ações na companhia em retorno pelo capital de risco necessário para crescer e expandir os negócios. Segundo, dado o nível do investimento de risco, companhias de venture capital buscam empresas que oferecem o potencial de alto grau de retorno (20 por cento ou mais). Terceiro, companhias de venture capital geralmente exercem um significativo grau de controle nas companhias investidas, tais como participação no Conselho de Administração ou inclusão de conselheiros gerenciais. Finalmente, companhias de venture capital buscam altos retornos nos investimentos, a partir de três a sete anos. Os retornos no investimento via venture capital são tipicamente realizados quando a companhia vai a público através de uma oferta pública de ações (initial public offering) através da bolsa de valores ou através da aquisição da companhia por outra.

A formação do American Research and Development (ARD) em Boston em 1947 é geralmente considerado como a origem do moderno venture capital. A ideia inicial por trás da ARD era a de criar um tanque de financiamento (pool of funding) de fontes institucionais – fundos de pensão, bancos, indivíduos ricos – que poderia ser direcionado a empreendimentos de alto risco que não encontrariam, de outra forma, investimento. O sucesso da abordagem da ARD foi demonstrado com um investimento inicial de U$ 70.000 na Digital Equipment Corporation, que teve seu valor elevado para U$ 355 milhões em 1971. Apesar do sucesso da ARD, o uso do venture capital foi relativamente pequeno e amplamente localizado na região do Vale do Silício (Califórnia) até a ocorrência de um número de mudanças institucionais e ambientais na década de 1970. Essas incluem a crescente adoção do modelo de limited partnership como forma organizacional preferida para companhias de venture capital, mudanças na legislação que permitiram que fundos de pensão se engajassem em investimentos de mais alto risco, o crescimento do corporate venturing por companhias não financeiras e, mais recentemente, a introdução e crescimento de indivíduos participantes da bolsa de valores através da internet.

Desde a década de 1980, o venture capital tem exercido um papel crescentemente importante na economia e é geralmente vista como uma força motriz (driving force) no empreendedorismo inovador e crescimento econômico. De fato, foi verificado que um dólar de venture capital cria de três a cinco vezes mais patentes do que um dólar gasto em pesquisa & desenvolvimento (research & development). De 1980 a 2000, o montante do total anual de capital de risco investido cresceu de U$ 650 milhões para aproximadamente U$ 105 bilhões. Tem sido argumentado que o tremendo crescimento do venture capital nesta década foi um significante contribuidor para a bolha da Internet (dot-com bubble), uma bolha especulativa na bolsa de valores sobre companhias de setor de internet financiadas por venture capital que faziam ofertas públicas iniciais. Após a bolha da internet, o investimento anual em venture capital retraiu para aproximadamente U$ 20 bilhões em 2003, mostrando um crescimento equilibrado para U$ 30 bilhões nos anos seguintes.

Governos locais, estaduais e nacionais tem progressivamente reconhecido que o venture capital é uma importante fonte de crescimento econômico e um veículo de desenvolvimento de setores específicos da economia. Utilizando o exemplo do Vale do Silício, muitas regiões buscaram emular seu sucesso, através de esforços públicos e privados. Um aspecto simbólico destes esforços é a forma como certas regiões têm sido apelidadas de forma semelhante ao Vale do Silício para garantir uma identidade aos nascentes polos de alta tecnologia, como o New York City’s Silicon Alley, Philadelphia’s Philacon Valley, Colorado’s Silicon Mountain, San Diego’s Silicon Beach, e até mesmo internacionalmente com o Taiwan’s Silicon Island.

A literatura sociológica sobre o venture capital tem crescido. Contribuições variam desde investigações sobre o padrão de investimento e sobre as redes sociais das companhias de venture capital até os papeis dos atores sociais, tais como advogados, no processo de venture capital. O venture capital também tem sido utilizado como objeto de pesquisa para explorar um número de processos sociológicos, como o papel do status na bolsa de valores. Além disso, há contribuições que exploram as implicações políticas e sociais da criação de programas de venture capital por governos estatais.

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