Racionais: a velha guarda politizada

O mercado musical brasileiro, radicalmente transformado pelo declínio do modelo fonográfico industrial e pelo domínio do compartilhamento virtual de arquivos de áudio, vive um novo momento de celebração do rap em escala popular. Tal fenômeno não é inédito. Porém, basta analisar mais detidamente o perfil de consumo de músicas (o que pode ser evidenciado pelas listas top dez da MTV ou pela premiação VMB, que contou com 25 indicações de grupos de rap), para verificar que há uma polarização entre sertanejo universitário - hegemônico há alguns anos no país (cf. 'Sob o domínio do mal') - e o rap, produção cultural característica das periferias de grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro.

A força do rap brasileiro no século XXI é enorme. Na opinião de Alexandre Yousseff, organizador do festival Agosto Negro,  apesar do Brasil possuir a terceira maior cena do rap - atrás de Estados Unidos da América e França -, em termos de importância e simbolismo, o movimento brasileiro é o maior do mundo. Em 2005, em entrevista para a revista Trip, ele afirmou: "Do ponto de vista social, o Brasil é o único lugar em que o principal grupo de rap, os Racionais, é aquele que mais mantém convicta sua posição política. Isso mostra claramente que hoje em dia o hip-hop substituiu várias outras formas de participação política. De alguma forma é o que já foi a UNE, o movimento sindical. O rap levanta uma bandeira e move multidões".

De fato, o rap do início de 2000 tinha como principais nomes Racionais MC's (autores da icônica 'Diário de um Detento', lançada em 1997), MV Bill (porta-voz da periferia carioca, hoje garoto propaganda da empresa estadunidense Nextel), RZO, Sabotage (assassinado em 2003 e reverenciado anualmente) e Rapin' Hood, vocalizadores das angústias e inúmeros obstáculos da vida na periferia. As letras das músicas, escritas por excluídos e marginalizados, revelaram ao país a realidade da periferia a partir de uma visão de dentro, sem depender dos intelectuais e sociólogos que têm a pobreza como objeto de estudo, mas não a vivenciam em todas as suas dimensões.

O cenário atual do rap, entretanto, parece ter caminhado para outra rota, muito distinta daquela dos "cânones" da virada do século, marcada pelo enorme potencial crítico dos relatos e denúncias registradas em poderosas rimas. O novo rap nacional está muito mais popularizado, mais festivo e menos emancipador.

É certo que ainda há relatos da realidade da vida periférica, como se pode verificar nas composições do versátil Criolo e de Emicida - nome artístico do jovem Leandro Roque Oliveira, atualmente cotado para grandes festivais como Coachella e SWU -, ambos amplamente premiados em 2011. Mas há também uma nova safra de artistas que tem diversificado as composições, ganhando novos públicos, em especial a classe média e alta. Os nomes desta nova leva são artistas solos (MC's) como Rashid (Michel Dias Costa), Projota (José Tiago Pereira) e Ogi (Rodrigo Hayashi) e bandas como ConeCrewDiretoria.

O segredo do sucesso está na ausência de politização das letras e a celebração do banal e da diversão fácil. A regra obviamente contém exceções. Projota, um dos ícones da nova geração, afirmou há alguns meses que a revolução de sua música vai ser melhor entendida "quando surgir um líder no meio dessa molecada que parece inofensiva aos olhos dos poderosos". E arrematou: "Acredito que tudo começa quando a massa dos jovens percebe que música de diversão é bom, mas buscar conhecimento e força pra transformar também é importante. Temos recuperado esse brilho no olhar dos jovens". Suas letras, entretanto, falam da necessidade de cada um traçar seu caminho com humildade e perseverança, sem maiores críticas. Em outras músicas, fala de casos de amor e histórias do cotidiano.

O argumento de que o rap seguiu outro caminho pode ser melhor demonstrado com uma leitura da letra da música "Chama os Muleke", maior sucesso do grupo ConeCrewDiretoria, sensação entre os adolescentes. Eis o teor parcial: "Chama os muleke, cara / Joga as carne na brasa / Chama as amiga e faz a festa lá em casa / Chama a fumaça, iluminação, palco, pra fazer um som / Não esquece do beck bom, pede as garrafa pro garçom / Chama a sinunca, a cerva e erva e também as maluca / Chama a canela pros pela que seca meu gleglen da fruta / Chama com fé, geral que quer chamar as mulhé / Na moral, mané, essa é pra chamar quem tu quiser / (...) / Só chama quem é parceiro, não chama quem é vacilão / Só chama quem é parceiro, não chama vacilão / Não chama aqueles muleke que são mó bundão / Só chama quem é parceiro, chama quem é irmão".

Enquanto os rapazes cariocas vangloriam, através da música, as festinhas regadas a "beck (maconha), cerveja e mulherada" - uma versão periférica das celebrações de cerveja, mulher e viola do sertanejo universitário (a febre do senso comum em seu nível mais baixo) -, a velha guarda do rap paulistano, liderada por Pedro Paulo Soares Peireira (mais conhecido como Mano Brown), apresenta um projeto muito mais robusto e politizado, completamente sintonizado com as origens deste gênero musical. Após um longo período sem lançar um álbum, o grupo Racionais MC's lançou em julho de 2012 uma pancada sonora e visual com o clipe Mariguella - Mil Faces de Um Homem Leal, música que homenageia o líder guerrilheiro Carlos Mariguella, pouco conhecido ou estudado em bancos escolares.



Mariguella, qualificado por Antonio Candido como "um heroi do povo brasileiro" (um Tiradentes do século XX), encarnou o drama da história contemporânea do Brasil. Não é por acaso que o sociólogo Florestan Fernandes - militante e intelectual de origens pobres -, em um de seus últimos textos, tratou do pensamento político de Carlos Marighella, em especial o pensamento de sua última fase. Isso pois Marighella, conhecido apenas por sua atuação clandestina como líder guerrilheiro, teve diversas fases de atuação política, em defesa dos ideias democráticos e antifascistas. Sua última fase, retratada pelo clipe dos Racionais MCs, que é mais conhecida; aquela da luta contra a ditadura militar, de "um homem que vivencia revoluções encadeadas em suas ideias, comportamento e aspirações".

Mariguella, diante das injustiças de um Brasil controlado por poucos poderosos, compreendeu após muitos anos de defesa de uma esquerda pacífica e democrática que não haveria alternativa, senão a luta armada e a tomada do poder pelo povo. Homem do povo, executou na prática aquilo que os intelectuais bem alimentados sonhavam, mas não tinham coragem de fazer. Como escreveu Florestan, "ele define tudo o que nós queríamos ter feito ou pretendíamos fazer na luta política revolucionária".

O enaltecimento de Mano Brown a Mariguella é significativo e bastante poético: "Homem complexo sim / 
Confesso que queria / Ver davi matar golias / Nos trevos e cancelas / Becos e vielas / Guetos e favelas / Quero ver você trocar de igual / Subir os degraus, precipício / E vida difícil, povo feliz / Quem samba fica, / Quem não samba, camba / Chegou, salve geral da mansão dos bamba / Não se faz revolução sem um fura na mão / Sem justiça não há paz, há escravidão". Além disso, dá um balde de água fria no novo rap nacional, que comemora os ingressos vendidos para shows lotados de consumidores da onda musical do momento.

Músicas como Mariguella mostram o potencial emancipador do rap. Basta imaginar o número de jovens sem educação que poderão pesquisar na internet quem foi esse homem e o que representava o ideal de sua luta armada. A música desperta curiosidade e pode incentivar leituras politizantes. Aí reside a semente da transformação. Imagine uma juventude periférica informada, politizada e prestes a lutar?

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