Relembrando London Calling

O disco London Calling, da banda inglesa The Clash, é um desses álbuns clássicos que não pode faltar em nenhuma discoteca do rock que se preze. Lançado em dezembro de 1979, é o terceiro disco da banda formada em 1976 pelos londrinos Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon. 

Para quem nunca ouviu falar sobre o Clash, vale a pena um esclarecimento histórico: a banda fez parte do movimento musical punk, que refletia uma forte agenda política de confrontação com o sistema. O british punk surgiu entre jovens brancos de classe média-baixa, em um período pós-crise do petróleo no qual o Reino Unido enfrentava as piores taxas de desemprego e uma forte mobilização sindical e trabalhista, que somente foi desestabilizada após a vitória do Partido Conservador em maio de 1979, com Margaret Thatcher no poder. Em meados da década de setenta - período de formação do The Clash - o pessimismo na Inglaterra era generalizado e as instituições inegavelmente repressoras. A juventude, em meio às greves gerais dos trabalhadores ingleses e as represálias do governo, se via em um beco sem saída, destinada a dead-end jobs.

Musicalmente, a sonoridade do The Clash foi bastante influenciada pela banda londrina Sex Pistols, autora da clássica canção Anarchy in the U.K. De fato, Joe Strummer afirmou que, em abril de 1976, após tocar com os Sex Pistols em um pub londrino com sua banda 101ers, ele percebeu que aquela postura iria mudar os rumos da música ocidental. Em uma época de glamour e mega-bandas em estádios lotados, como Led Zeppelin e Pink Floyd, a mensagem passada pelo Sex Pistols - ecoada em Nova Iorque por grupos como inovadores que tocavam no CBGB como Television e Ramones - era "faça você mesmo", mesmo que sem técnica musical ou qualidade. Tal postura influenciou não somente Strummer e o The Clash, mas também outros seguidores que posteriormente fundaram bandas como Siouxsie And The Banshees e The Buzzcocks.

O diferencial do disco London Calling, entretanto, é que ele marca nitidamente o afastamento do The Clash com as limitações estéticas do punk rock que caracterizou o disco de estreia The Clash, lançado oficialmente em 1977. A evolução do Clash foi gradual. O primeiro disco, de 1977, foi inteiramente punk. O segundo, Give 'em Enough Rope (1978), foi além em termos melódicos e acrescentou segundas vozes, teclados e outros elementos. O terceiro, London Calling, deixou claro para qualquer ouvinte que a banda que não se limitava a um estilo único, mas que estava disposta a incorporar elementos de todos os gêneros, seja reagge, rockabilly, ska, para criar algo novo. A única constante do Clash eram as letras extremamente politizadas, marcadas por uma descrença com o modelo consumista de capitalismo imposto culturalmente.

Para verificar a diferenciação musical, basta ouvir músicas do primeiro disco como White Riot e Janie Jones para perceber a forte influência do estilo punk disseminado pelos Sex Pistols, caracterizado basicamente por um ritmo de bateria acelerado, três ou quatro acordes de guitarra, linhas de baixo simples e vocais gritados com poucas variações melódicas. Em London Calling, as três primeiras músicas demonstram características distintas e dão uma imagem geral da heterogeneidade do álbum. London Calling é meio punk e meio ska, marcada por uma base de um só acorde e um refrão marcado pela linha de baixo; Brand New Cadillac é puro rock n' roll estadunidense, caracterizada pelo blues e pelas escalas pentatônicas; Jimmy Jazz é um rock suave, com vocal largado, que vai além das guitarras, incluindo bases de violão e um inesperado solo de saxofone. Se Jimmy Jazz não basta para demonstrar que o disco London Calling está longe do punk de 76, basta ouvir Guns of Brixton, Rudie Can't Fail e Lost in the Supermarket. Neste disco, fica claro que o The Clash, após a euforia inicial e os shows agitados do movimento punk, esteve sempre atrás de boa música e boas letras.

Um álbum com músicas de protesto?
De todo o rico disco London Calling, várias músicas se destacam pelo teor político e pelo caráter crítico das composições de Strummer. Spanish Bombs, por exemplo, faz menção expressa ao assassinato do poeta espanhol Federico García Lorca, morto durante as agitações da guerra civil (1936-1939) que culminaram no regime ditatorial de Francisco Franco. A letra diz: "Spanish songs in Andalucia / The shooting sites in the days of '39 / Oh, please, leave the ventana open / Federico Lorca is dead and gone / Bullet holes in the cemetery walls / The black cars of the Guardia Civil / Spanish bombs on the Costa Rica / I'm flying in on a DC 10 tonight". A letra mostra a sintonia da banda com a oposição à opressão de líderes autoritários em países como a Espanha.

A música Guns of Brixton, a décima do disco, retrata o ambiente hostil do bairro periférico de Brixton, localizado no sul de Londres, no final da década de setenta. O bairro ero conhecido pelo tráfico de drogas e pela violência policial sobre comunidades de imigrantes, em especial de africanos. Os versos do Clash - When they kick at your front door / How you gonna come? / With your hands on your head / Or on the trigger of your gun - anteciparam o caótico protesto dos moradores de Brixton contra a brutalidade da polícia londrina em abril de 1981, violento evento que ficou conhecido como The Battle for Brixton e que se repetiu, em outra dimensão, nas London Riots de 2011. A análise dos integrantes do Clash, no entanto, era tipicamente a de um observador distante: nenhum dos membros da banda era negro e havia sofrido a discriminação e violência do aparato repressivo inglês.

Uma canção que chama a atenção pela dupla interpretação de sua letra é Clampdown, escrita por Joe Strummer e Mick Jones. Para alguns, a música é uma declaração de protesto contra regimes fascistas e nazistas, que cooptam os jovens para integrar corporações militares burocráticas. As evidências são alguns trechos do primeiro verso (We will teach our twisted speech / To the young believers / We will train our blue-eyed men / To be young believers) e do terceiro (You start wearing the blue and brown / You're working for the clampdown / So you got someone to boss around / It makes you feel big now / You drift until you brutalize / You made your first kill now). Vale a pena conferir o vídeo e letra completa e tirar as próprias conclusões.




Para outros críticos, Clampdown é uma música contra o próprio sistema capitalista, pois deflagra o descontentamento com o modelo padronizado de vida imposto pelo sistema (frequentar a escola, conseguir um emprego, obedecer as regras, se casar, comprar bens de consumo). A palavra clampdown, de difícil tradução para português, significa algo como "sistema", mas com a conotação de algo repressor. É possível identificar um clamor de Strummer e Jones para que as pessoas se rebelem e se voltem contra o modelo imposto: I'm not working for the clampdown / No man born with a living soul / Can be working for the clampdown / Kick over the wall 'cause government's to fall / How can you refuse it? / Let fury have the hour, anger can be power / D'you know that you can use it? / The voices in your head are calling / Stop wasting your time, there's nothing coming / Only a fool would think someone could save you / The men at the factory are old and cunning / You don't owe nothing, so boy get runnin' / It's the best years of your life they want to steal.


Independentemente das variadas interpretações, é inegável o poder de seus versos e da energia de seus riffs de guitarra. Clampdown está entre as melhores músicas do clássico London Calling e, sem dúvidas, é uma música que influenciou diversas bandas que vieram após o Clash. Evidências para isso não faltam. A banda Rage Against The Machine, surgida no início dos anos 1990 em Los Angeles, em uma de suas primeiras apresentações em público, executou um cover de Clampdown. No vídeo, é possível ver o jovem Zack de la Rocha destilar suas rimas sobre a base da música. Em 2008, em Berlim, o Rage voltou a executar o clássico do Clash (veja o vídeo aqui). Há também uma excelente versão cover da banda nova-iorquina The Strokes, executada ao vivo em 2004. As duas versões mostram bem a influência do Clash na nova geração do rock estadunidense. A postura de contestação e oposição ao sistema é bem resumida na máxima de Strummer: são os melhores anos da sua vida que eles querem roubar.

Anotações pessoais
A primeira vez que ouvi na íntegra o disco London Calling foi justamente em Londres, no início de 2008, ano em que residi na capital inglesa. Com o dinheiro suado do emprego de barman no London Zoo (emprego que me garantia £4 por hora trabalhada), comprei o CD do The Clash na antiga Virgin Megastore, em Piccadilly Circus, que posteriormente se transformou na Zavvi. Infelizmente, em razão da crise financeira de outubro de 2008, a Zavvi encerrou suas atividades após o colapso da loja Woolworths. Hoje tal loja de discos não existe.

O disco serviu de trilha musical durante toda minha estada em Londres. Era um clássico que não cansava de ouvir, apesar de estar mais sintonizado em novos lançamentos musicais. No entanto, naquela época, me chamava mais atenção a diversidade musical do disco do que propriamente o significado das letras. Gostava de ir aos supermercados - Sainsbury's, Tesco ou Waitrose - e ficar cantarolando "I'm all lost in the supermarket, I can no longer shop happily", ou então cantar o refrão de Rudie Can't Fail. A música era  especialmente engraçada, pois o apelido do meu chefe era Rudie (ou Rudolf). Eu sempre dizia que ele não poderia falhar. E com razão!

Foi somente no Brasil, escutando novamente o álbum com mais calma, que passei a observar o teor crítico de algumas letras do disco e relacionar com o momento econômico e social que experimentava o Reino Unido naquela época. Incorporando uma análise econômica - forçando aqui uma junção de música e economia -, parece evidente que London Calling é parcialmente influenciado pela crise do Welfare State (superada momentaneamente pela onda neoliberal). Todavia, é claro que o disco não é inteiramente de protesto. Acredito que Joe Strummer - falecido há dez anos - era um artista ímpar mais preocupado com a qualidade de suas músicas do que com política. Mesmo assim, não é de se ignorar a irreverência crítica de suas letras.

Vida longa ao London Calling e ao legado de Strummer. Como ele bem cantou no final de sua vida, numa linda versão de Redemption Song, originalmente composta em 1979 por Bob Marley: Emancipate yourselves from mental slavery, None but ourselves can free our minds. De certo modo, penso que o espírito do disco também era esse: fortalecer a mensagem de que a mudança está nas pessoas. Basta enxergar.

4 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto!

Anônimo disse...

muito bom!

Anônimo disse...

Muito bom! parabéns!

Juliana MSC disse...

Caí aqui por acaso e adorei. Já fui ao texto do Swartz e também ao último sobre os conflitos no Brasil. Vou compartilhar. Continue escrevendo!

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