O clube dos perseguidos

Pouco tem sido discutido ou divulgado sobre a tentativa de asilo político de Julian Asange, fundador do revolucionário WikiLeaks, no Equador. Como é sabido (e apenas esse aspecto tem sido reportado pela grande mídia), Assange é acusado de estupro por duas mulheres suecas que foram suas voluntárias no passado. Obviamente, as acusações surgiram após as repercussões diplomáticas ocasionadas pela publicação de milhares de documentos oficiais dos Estados Unidos da América, vazados há dois anos por Bradley Manning, soldado estadunidense acusado por crimes militares, hoje preso. Como Julian Assange é cidadão australiano, não  pode ser acusado de "crime contra a pátria" nos Estados Unidos pela revelação de documentos governamentais sigilosos. Daí a explicação para tanta pressão do governo estadunidense para que Reino Unido colabore com o governo sueco. A Justiça da Suécia exige a extradição de Julian, que cumpre prisão domiciliar em Londres. Ou melhor: cumpria, visto que Julian ignorou a ordem judicial do tribunal britânico de não sair de casa e refugiou-se na embaixada equatoriana em Londres na última quinta-feira (21.06.12).

Na sexta-feira, os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos e Reino Unido divulgaram matérias sobre a "estratégia ousada" de Julian Assange. Os jornalistas das grandes corporações, como a CNN, escreviam: "Por que o Equador?". Em seus textos - preparados para o consumo do grande público ocidental -, apresentavam como resposta o suposto sentimento anti-estadunidense do governo de Rafael Correa, taxado pela mídia anglo-saxônica como "populista de esquerda".

Talvez Rafael Correa seja, de fato, um populista. Basta uma análise do site da Presidência da República do Equador (http://www.presidencia.gob.ec), por exemplo, para verificar alguns indícios deste fenômeno político típico da América Latina, como o portal Tu foto con el Presidente. Mas esse é um aspecto irrelevante frente aos avanços econômicos e sociais promovidos por Correa, político de forte liderança e trajetória acadêmica consolidada como  economista (Rafael Correa é PhD em Economia pela Universidade de Illinois, EUA). Além das altas taxas de crescimento econômico e um inédito nível de redistribuição de renda no desigual Equador, em setembro de 2008, com 65% de aprovação popular, o governo de Correa aprovou uma nova e progressista Constituição, um texto surpreendente que, segundo Maurício Santoro, "é provavelmente o mais avançado da América Latina e reconhece a união civil entre homossexuais, estabelece direitos para imigrantes, declara a educação pública obrigatória até o término do ensino médio, concede benefícios em saúde pública, agricultura familiar, microcrédito e proíbe a instalação de bases militares estrangeiras em seu território". O artigo 1º da Constituição, ao tratar dos princípios fundamentais, mostra a preocupação de Correa não somete como o ambiente político, mas também com a preservação dos recursos naturais, fonte de riqueza do país: "El Ecuador es un Estado constitucional de derechos y justicia, social, democrático, soberano, independiente, unitario, intercultural, plurinacional y laico. Se organiza en forma de república y se gobierna de manera descentralizada. La soberanía radica en el pueblo, cuya voluntad es el fundamento de la autoridad, y se ejerce a través de los órganos del poder público y de las formas de participación directa previstas en la Constitución. Los recursos naturales no renovables del territoria del Estado pertenecen a su patrimonio inalienable, irrenunciable e imprescriptible".

Os avanços do Equador, no entanto, não são retratados nos veículos midiáticos ocidentais. Tais aspectos são propositalmente ignorados. Por outro lado, Rafael Correa tem sido visto como "ditador" por parte de alguns políticos estadunidenses e europeus em razão de seus conflitos com os veículos de comunicação privados no Equador. Ele, no entanto, justifica que há no Equador uma ditadura da mídia, controlada por apenas seis famílias. Tais veículos tentam, sem sucesso, manipular as massas contra as medidas políticas e econômicas do governo Correa. O ápice foi a tentativa de golpe de Estado por parte das Forças Armadas, amplamente apoiada pelo conglomerado midiático ligado à famílias tradicionais e vínculos com investidores dos Estados Unidos.

O fato de Julian Assange pedir asilo político ao governo Correa é simbólico em, pelo menos, dois sentidos. A aceitação pode significar um pedido de ajuda por parte de Assange corroborado por um dos líderes mais enérgicos e manifestamente anti-imperialista da América Latina, como pode significar uma estratégia política bem articulada por parte de Correa para aproximar a base eleitoral que defende a mídia livre, da qual Assange é o maior porta-voz global contemporâneo. No início de 2013 Rafael Correa passará por um importante teste eleitoral. Aceitar Assange pode ser uma estratégia interessante.

Assange e Correa não são íntimos, mas já haviam se conhecido em uma entrevista feita mês passado por Julian no seu excelente programa The World Tomorrow, gravado semanalmente em Londres (em sua casa, considerando a prisão domiciliar) e transmitido virtual e gratuitamente pela rede de televisão estatal Russia Today, controlada pelo governo russo. Nessa entrevista, Correa esclarece detalhes de sua batalha contra as oligarquias equatorianas, os progressos de seu governo de cunho socialista e as formas de controle político exercido pelas corporações que controlam grande parte do mainstream comunicacional. A entrevista merece ser assistida, pois retrata o espírito de um tempo. Esse é um momento histórico de grandes transformações. Tanto Rafael Correa quanto Julian Assange são dois personagens representativos das mudanças sistêmicas tanto na política latino-americana contra-hegemônica quanto na luta pela irrestrita liberdade de expressão.

Vale lembrar as palavras de Correa, bem humorado, porém consciente de sua condição: "Bem-vindo ao clube dos perseguidos!".

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