Milanovic: a atual crise econômica é mundial?

O jornal Valor Econômico publicou hoje um excelente texto do economista francês Branko Milanovic, um dos principais investigadores das desigualdades de renda do mundo - seja a desigualdade dentro de cada país ou entre dois países (cf. 'Inequality and Its Discontents') - e autor do livro The Haves and Have Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality (2011).

Milanovic faz uma importante provocação sobre a forma como a "crise econômica mundial" é tratada na mídia ocidental, na qual é ressaltada apenas a recessão dos países ricos, ignorando o aumento de renda per capita dos países mais pobres (algo que seria notável desde que se adotasse uma perspectiva de crescimento baseado em pessoas). Seu ponto de partida é a seguinte provocação: "A atual crise econômica é chamada de 'crise financeira mundial'. Mas, será justificado o termo 'mundial'? Ou será que esse termo revela um viés do mundo rico ao encarar as estatísticas econômicas mundiais? Uma abordagem futura melhor seria focar como são afetadas as rendas das pessoas em todo o mundo inteiro, e não só no Ocidente".

É óbvio que todos os países estão sendo afetados pelos efeitos da crise econômica de 2008, cuja segunda onda ocorreu em 2011. Mas é inegável que China, Brasil, Índia, Rússia, Taiwan, Venezuela, e outros países em desenvolvimento tiveram aumentos significativos de renda, retirando da miséria enormes parcelas populacionais. E por que pouco se fala dos progressos destas nações na mídia? A resposta é bastante simples, segundo Milanovic: "as pessoas no mundo ocidental, que ainda são muito mais ricas que outros, estão primordialmente interessadas em sua própria sorte e no destino de pessoas semelhantes a elas quando criam e compram as notícias".

O que Milanovic propõe é uma mudança completa na forma como são calculados os "números" da crise, algo notável, considerando que trata-se de uma voz do interior dos grandes polos ocidentais (Milanovic já foi pesquisador-chefe do Banco Mundial): "em vez de focar apenas a produção econômica total, como fazemos agora, deveríamos reenquadrar o cálculo para focar em como são afetadas as rendas das pessoas em todo o mundo. Assim, em vez de dar a cada indivíduo o peso implícito igual à sua renda, devemos dar o mesmo peso implícito a todos. Esse reequilíbrio estatístico produziria um mundo onde deixaríamos de nos preocupar com quantidades e passaríamos a nos preocupar pessoas". Como ele argumenta, um declínio da renda real de 1% experimentado por um país africano deveria atrair tanta atenção quanto a queda de 1% de um país europeu com a mesma população. Seu foco é o maior número de pessoas que tenham aumentado, através da renda, suas capacidades de agente, uma perspectiva muito próxima do renomado economista indiano Amartya Sen.

Vale a pena conferir o argumento. O original está no site do Valor. A presente versão é do clipping do Ministério do Planejamento.



Atual crise econômica é mundial?

Atual crise econômica é chamada de "crise financeira mundial". Mas, será justificado o termo "mundial"? Ou será que esse termo revela um viés do mundo rico ao encarar as estatísticas econômicas mundiais? Uma abordagem futura melhor seria focar como são afetadas as rendas das pessoas em todo o mundo inteiro, e não só no Ocidente.

Consideremos como os quatro anos desde o início da "crise mundial" são vistos pelo mundo não ocidental: na África Subsaariana, a taxa de crescimento real média per capita foi 1,5% ao ano. Na América Latina, quase tão alta e na Ásia, 3%.

Esses números apontam para uma conclusão intrigante. O uso de uma taxa de crescimento centrada em pessoas dá uma ideia mais precisa de como o crescimento econômico (ou a falta dele) afeta, efetivamente, as pessoas em todo o mundo.

As taxas de crescimento citadas acima são mais do que respeitáveis. Eles são notáveis. Sim, em grande parte do mundo desenvolvido, na Europa, na América do Norte e na Rússia, o crescimento empacou - e em muitos países (mas não em todos os anos), as taxas de crescimento do PIB ficaram negativas. A produção mundial diminuiu 2% em 2009, mas recuperou-se em 2,7% em 2010 e estima-se que tenha subido pelo menos em igual medida em 2011. Será que esses números sugerem uma crise "mundial"?

A recuperação da economia mundial foi atenuada, nos últimos dois anos, porque a crise afetou a parte mais rica do mundo. A parte mais rica, por definição, produz mais bens e serviços do que as outras partes. Se sua produção cai ou permanece estagnada, isso tende a arrastar o PIB mundial para baixo.

As estatísticas econômicas mundiais que usamos mostram um tremendo viés ocidental, ou seja, do mundo rico. Há um raramente reconhecido sistema de ponderação implícito no cálculo. É a ponderação "plutocrática", e dá maior peso aos países ricos no cálculo geral.

Um exemplo simples ilustra como [isso acontece]: imagine dois países, A e B com a mesma população, mas A é duas vezes mais rico do que B. Suponhamos que a produção do país A caia 10% e que a produção de B cresça 10%. A taxa de crescimento total ("plutocrática") seria 3,3% negativos.

Mas, agora, observemos esse mesmo exemplo do ponto de vista das pessoas que vivem nos dois países. Suponhamos, para simplificar, que todos no país A (e também todos no país B) sejam igualmente afetados pelo desempenho de seu país. Ou seja, todas as pessoas em A experimentam um declínio de 10% na renda real, ao passo que todos em B têm um aumento de renda real de 10%.

Quando agregamos os indivíduos (e seus presumidos sentimentos de melhoria ou deterioração de bem-estar), verificamos que igual número de pessoas percebem uma melhoria como declínio. Em termos percentuais, tanto as melhorias como as pioras foram as mesmas. Assim, a taxa média de crescimento das "pessoas" (ponderada pela população) é zero. Os 10% positivos compensam exatamente os 10% negativos.

Embora a taxa de crescimento "plutocrática" que normalmente calculamos produza uma métrica exata sobre o que acontece com a produção econômica total, a taxa de crescimento das "pessoas" dá uma ideia mais precisa de como o crescimento econômico (ou a ausência dele) afeta os indivíduos em todo o mundo.

Na taxa de crescimento "das pessoas", cada indivíduo no mundo tem o mesmo peso. No cômputo da taxa de crescimento "plutocrática", o peso adicional das rendas das pessoas ricas é exatamente igual à medida em que seus rendimentos excedem os rendimentos dos pobres.

Na base cálculo centrada nas "pessoas", portanto, não são os países mais ricos os mais relevantes, mas os mais populosos. E são exatamente esses países populosos que continuam a registrar taxas de crescimento positivas - e muitas vezes bastante elevadas -, em meio ao que é denominada "pior crise desde a Grande Depressão".

Entre 2007 e 2011, o PIB per capita cresceu 43% na China, 30% na Índia, 14% no Brasil e 7% na Indonésia. Nesses quatro países vivem quase 3 bilhões de pessoas, ou cerca de 43% da população mundial. Assim, não é de estranhar que para o mundo como um todo a taxa média de crescimento per capita "das pessoas" durante a "crise" de 2007 a 2011 tenha ficado em torno de 4%, muito pouco acima da média de longo prazo entre 1990 e 2000.

A razão pela qual a mídia ocidental retrata a crise como sendo uma "mundial" (e pela qual quando os países não em crise chegam a ser mencionados, deve-se apenas a seu papel de "ator coadjuvante", de assegurar que sua demanda não caia e, assim, agrave a recessão no Ocidente) é a mesma razão pela qual (quase) nunca ouvimos falar das guerras no Congo. As pessoas no mundo ocidental, que ainda são muito mais ricas que outros, estão primordialmente interessadas em sua própria sorte e no destino de pessoas semelhantes a elas quando criam e compram as notícias.

A mesma mídia deu escassa atenção quando o PIB russo despencou de um nível que é uma fração do americano ou da Europa Ocidental na década de 1990. Uma frase sem sentido, "recessão de transição", foi criada e usada como se fosse uma explicação. A crise asiática de 1998 atraiu muito mais atenção, principalmente devido à ameaça de contágio de economias de mercado desenvolvidas. Mas essa ameaça nunca se materializou e a atenção diminuiu.

Enquanto isso, duas décadas de implacável miséria africana e descida ao inferno passaram largamente ignoradas pela grande mídia. Quem saberia, por exemplo, que nove países africanos - com cerca de 150 milhões de pessoas -, têm menor renda per capita hoje do que em 1980 - e sete deles têm rendas inferiores à de 1960? Mas o mais ínfimo dos movimentos no mercado de títulos ou em Wall Street é acompanhado como se fosse um pronunciamento direto do Todo-Poderoso.

O que precisamos enfrentar é um evidente desequilíbrio mundial. Para um "observador empático" neutro, como Adam Smith inventivamente o denominou, um declínio da renda real de 1% experimentado por um país africano deveria atrair tanta atenção quanto a queda de 1% vivida por uma nação ocidental de dimensão similar.

Ou será que estou errado? Deveríamos, de um ponto de vista "neutro", nos importar mais quando Bill Gates perde 1% de sua renda do que quando uma pessoa desempregada tem seus benefícios cortados à metade? A julgar pelos oceanos de tinta, terabytes de postagens e horas e horas de cobertura do noticiário de TVs a cabo dedicadas à crise "mundial", seria essa a "verdade".

Minha sugestão é esta: em vez de focar apenas a produção econômica total, como fazemos agora, deveríamos reenquadrar o cálculo para focar em como são afetadas as rendas das pessoas em todo o mundo. Assim, em vez de dar a cada indivíduo o peso implícito igual à sua renda, devemos dar o mesmo peso implícito a todos. Esse reequilíbrio estatístico produziria um mundo onde deixaríamos de nos preocupar com quantidades e passaríamos a nos preocupar pessoas.

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