Alice Amsden (1944-2012)


Os economistas heterodoxos do mundo todo estão de luto. No dia 14 de março, faleceu subitamente, aos 68 anos de idade, a professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Alice Hoffernberg Amsden, uma das principais vozes da nova economia política - que hoje tem como representantes autores como Ha-Joon Chang, Joseph Stiglitz e Dani Rodrik - e umas das maiores especialistas em política industrial e industrialização tardia dos últimos tempos.

Em um período de "fim da história" (autoproclamado pelos Estados Unidos através do historiador Francis Fukuyama na queda do muro de Berlim) e completa ascensão do pensamento neoliberal no período de intensificação da globalização econômica e redefinição política pró-mercado das instituições de Bretton Woods (Fundo Monetário International e o Banco Mundial), Alice Amsden desafiou o pensamento econômico mainstream ao defender a importância do Estado na promoção da industrialização tardia e desenvolvimento. Seu livro de 1989 Asia's Next Giant: South Korea and Late Industrialization contestou a explicação de economistas de instituições financeiras internacionais sediadas em Washington de que o sucesso econômico da Coreia do Sul estava ligado simplesmente ao investimento em educação e adoção dos princípios de livre-mercado. Para Amsdem, a Coreia do Sul teve um crescimento estrondoso pois as instituições nas quais a industrialização tardia se baseava haviam sido adminsitradas de forma diferente dos mandamentos neoliberais, valendo-se de um Estado intervencionista, grupos empresariais diversificados, uma oferta abundante de competentes engenheiros e gerentes assalariados, bem como uma oferta abundante de massa trabalhadora bem educada e de baixo custo.

O economista do Ipea Mansueta Almeida, formado pela MIT, foi aluno de Alice Amsden e comentou em seu blog a importância de sua obra e as polêmicas interpretações que poderiam ser feitas na comparação entre Coreia e Brasil (muita cenoura e pouco chicote). Escreveu Mansueto direto de Cambrigde: "Para quem participa do debate sobre política industrial, com certeza já leu os seus livros. Ela foi minha professora aqui e era uma pessoa sempre interessante de conversar. O seu livro de 1992 foi um dos primeiros a desafiar a interpretação do Banco Mundial de que o milagre asiático decorreu apenas de reformas pró-mercado e de investimentos em educação. Alice mostrou que a Coreia do Sul adotou políticas tão ou mais intervencionistas do que os países Latino Americanos, com a diferença que na Coreia, como ela falava, 'nada era dado de graça'. Os subsídios estavam sujeitos a 'performance requirements' exigidos de cada grupo empresarial. Uma ideia que na literatura de política industrial se passou a chamar de stick-and-carrot policies. Segundo ela, foi isso que faltou na América Latina: havia muita cenoura e pouco porrete". Em 1992, a obra sobre a experiência da Coreia foi premiada como "melhor livro de Economia Política" pela Associação Norte-Americana de Ciência Política.

Em 2001, Alice Amsden publicou outra obra de fôlego, The Rise of "The Rest": Challenges to the West From Late-Industrializing Economies, publicado no Brasil com o título "A Ascensão do Resto". No livro, como afirma o sociólogo Glauco Arbix (atual presidente da Finep) na apresentação da edição brasileira, "Amsden  continua ancorada nos pilares de sua análise anterior sobre o caso coreno. Neste livro, porém, amplia e desenvolve ainda mais sua  preocupação central, identificando um grupo de países ('latecomers', os que chegaram depois) que estariam transitando para o desenvolvimento, ainda que diferenciadamente. O que teria levado esse grupo a ocupar  um lugar de proeminência na arena internacional, apesar de sua condição de “atrasado”?  Maior liberalização  – e conseqüente melhor funcionamento – de sua economia, segundo as regras do livre mercado? Instituições mais eficientes? Sua maior integração no comércio internacional? Para Amsden, esse segredo só pode ser encontrado na recuperação do lugar do Estado e no seu papel chave no comando de estratégias nacionais de desenvolvimento. (...) A incursão teórica  da autora destaca o lugar especial que passou a ocupar a geração de conhecimento e o desenvolvimento de tecnologia no mundo do pós-guerra. Todos esses países, em maior ou menor grau, perceberam essa nova realidade e  dotaram-se de instrumentos e políticas que valorizaram e permitiram essa busca intensiva de conhecimento para qualificar o seu sistema produtivo ainda incipiente. Como é reconhecido, esse conhecimento ligado à produção e aos processos de inovação nem sempre são facilmente comprados, copiados ou mesmo recriados. Não somente seus mecanismos  mais sutis são protegidos pelas empresas, como, fundamentalmente,  há dimensões desse conhecimento que não  podem ser codificadas. Trata-se do conhecimento  tácito,  de difícil apreensão. Essa ênfase na  novidade introduzida pelo  conhecimento e  pela  tecnologia  é provavelmente o ponto mais forte se deu livro, cujo valor tende a ser diminuído quando a leitura é mais ligeira  – afinal, a saliência da mão forte do Estado é mais facilmente apreendida e, sem dúvida, também mais polêmica".

Inspirada por economistas como Alexander Gerschenkron (e seus insights de que a ordem cronológica da industrialização importa), Amsden era reconhecida como umas das mais importantes estudiosas do processo de catch up entre países industrializados (Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos) e países de "industrialização tardia" do século XX, destacando a importância das instituições e da intervenção estatal na promoção do crescimento econômico em uma economia cada vez mais baseada no conhecimento. Seu foco de análise sempre esteve mais direcionado para a Ásia, apesar de ter escrito sobre a experiência brasileira e latino-americana em alguns momentos. Sua obra há de ser descoberta não somente por economistas brasileiros, mas por cientistas sociais e juristas interessados nos arranjos institucionais de indução ao desenvolvimento.

Em tempos do "retorno do Estado" e "retorno da política industrial" no cenário pós-crise (2008-2012), a robusta análise empírica de Amsden se mostra extremamente necessária e atual. Infelizmente, sua teoria econômica ainda não foi totalmente reconhecida pelas instituições internacionais e pelas tradicionais universidades ocidente. Apesar de ser amplamente conhecida entre os economistas brasileiros (em especial entre os heterodoxos da Unicamp e da FGV-SP), somente agora que o Banco Mundial tem publicado trabalhos na linha chamada "new structural economics", na qual reconhece a importância de políticas industriais para o processo de desenvolvimento.

Há poucos registros de palestras ministradas por Alice Amsden. Abaixo, é possível vê-la falar sobre "empreendedorismo asiático" em setembro de 2008 na Universidade de Copenhagen (Dinamarca). Na palestra, Amsden destaca a importância das políticas industriais e dos policy rights no processo de experimentação, aprendizado e desenvolvimento.

A riqueza do pensamento de Amsden está na contestação de fórmulas simplistas de desenvolvimento (one-size fits all) através de análises empíricas que unem história, economia, política e direito. O legado amsdeniano tem um potencial enorme na academia, de teor crítico e interdisciplinar. Economia e política são inseparáveis. Isso Alice sabia bem.

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