Conexão Brasil, Islândia e Palestina

O título é instigante. O que há de comum entre Brasil, Islândia e Palestina - três regiões distantes no globo? É óbvio que podem existir inúmeras coisas em comum, mas o motivo deste texto é relatar uma breve história inusitada que me ocorreu graças aos benefícios da internet e do empoderamento gerado pelo mass-self communication (Castells).

A história começa assim: no primeiro dia de fevereiro - este mês de extremos climáticos mundo afora - publiquei um texto no blog sobre a guinada democrática na Islândia, focalizando a forma como os cidadãos islandeses estão reescrevendo a própria Constituição através de espaços virtuais de deliberação e participação direta (cf. 'Uma história a ser contada'). O objetivo do texto era o de amplificar o debate sobre o caso da Islândia, que é muito rico para discussões (ainda pouco fomentadas, ao meu ver) sobre aprofundamento da democracia e alternativas institucionais.

Três dias depois (04/02), o referido texto foi selecionado pelos editores do site Outras Palavras e republicado no portal Outras Mídias, que faz uma seleção de bons materiais na mídia alternativa (cf. 'Para entender a Islândia rebelde'). Percebi então que poderia haver ali um conteúdo interessante, que merecia, aos olhos dos editores do portal, ser divulgado. Fiquei contente com o ocorrido.

Três dias depois, recebi um e-mail que dizia o seguinte: "Olá, Rafael. Li seu artigo sobre a rebeldia islandesa no portal Outras Palavras e fiquei muito interessada na experiência daquele país. Venho estudando alternativas à 'democracia' representativa desde que iniciei minha militância política, na adolescência. Moro em Ramala, Palestina, onde sou correspondente do jornal Brasil de Fato e colaboradora de outras mídias brasileiras e da América Latina. Gosto de conversar sobre essas experiências com líderes dos comitês populares e com os jovens que andam trazendo ar fresco à política palestina. Por isso, gostaria de acompanhar os acontecimentos na Islândia. Você recomendaria algum site ou blogue? Algum(ns) outro(s) estudos além dos citados em teu artigo?".

De imediato, surpreendeu-me o fato de alguém de tão longe - uma jornalista que reside na Palestina - ter lido o texto e ter me enviado um e-mail pedindo mais referências sobre a experiência islandesa. Respondi que estava feliz com o contato, mas que não tinha mais nenhum material que atualizasse o debate sobre a Islândia, com exceção do texto de Paul Blokker. Escrevi, ainda, que estava claro para mim que a democracia direta é um tema a ser explorado com mais atenção no futuro próximo.

A resposta veio no mesmo dia: "Pois é, a democracia direta está se firmando como único caminho para identificar e gerir as demandas e os interesses populares. No final de janeiro estive em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial (Temático) -- preparatório para a Cúpula dos Povos Rio + 20 -- e o assunto dominou conferências, reuniões e rodas de conversas. É ponto acordado que sem isso não se pode ir muito longe na luta contra os lobbies financeiros. E que luta! Titânica, pra dizer o mínimo". Depois, a jornalista me explicou que também é pós-graduanda em filosofia política e que está preparando um paper sobre democracia direta, que será apresentado numa conferência da Universidade de Hebron.

Após todas as informações fornecidas pela minha correspondente, fiz algumas pesquisas no oráculo (Google) e encontrei excelentes matérias sobre a Palestina assinadas por ela e publicadas na Carta Maior, no jornal Brasil de Fato e também na revista Sociologia, como o excelente texto A vida em Bil'in, Palestina, no qual a autora comenta sobre o cotidiano de uma pequena cidade na Palestina, desmistificando a cultura Islã e explorando os laços comunitários do local em que reside.

Posteriormente, encontrei uma entrevista da jornalista - que finalmente revelo o nome: Baby Siqueira Abraão - sobre a Palestina (e a injustiça social) e sobre a circulação da informação naquele local. Eis o vídeo.



A internet fornece um instrumento poderoso para a produção autônoma de informação. Entretanto, é preciso saber "ler o mundo" e ter conscientização política (tal como os habitantes de Bil'in, na Palestina). Como escrevi a ela no último e-mail, acho que podemos reverter o quadro atual: "já que as tecnologias beneficiaram a globalização econômica e as operações em tempo real do sistema financeiro, podemos utilizá-las para aprofundar experiências democráticas. O problema, entretanto, é que tal instrumento, sem a educação e a devida politização, torna-se ineficaz na mão do povo".

O desafio é enorme, mas fica cada vez mais claro que a demanda global por democracia está conectando pessoas em todo o mundo no século XXI.

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