Ai De Ti, Haitiano (ninguém é cidadão)

Lendo o blog do escritor Marcelino Freire deparei-me com esse belo texto sobre os haitianos no Brasil. Lembrei de Caetano e Gil e daquela bela canção. Ninguém é cidadão. O Brasil sempre foi Império e sempre será. Difícil mesmo é enxergarmos nossa condição, enquanto membros de uma nação, de semi-periferia exploradora da periferia. E pobres são como pobres. E todos sabem como se tratam os pretos.


AI DE TI, HAITIANO

Tu que chegas agora ao meu país, pobre, tão preto, infeliz, de cabeça para baixo, à cata de um trabalho, cuidado, te darão emprego, sem demora, em fazendas de algodão, limpando chão de banheiro por um salário, assim, miserável, irás para as plantações de cacau, construirás estádios de futebol, pedras ao sol levantarás, meu rapaz.

Fica de olho nas fábricas de roupa, nas usinas, mineradoras, cais dos portos, a ti prometerão estabilidade, para quem saiu de terromotos, nosso solo parecerá tão seguro, logo, logo, vão dizer, terás uma casa nova, os filhos na escola, aprendendo inglês, nada de português, essa língua, ah, há tempo que anda morta.

Pagarás para viver, digo, demorarás a ser livre verdadeiramente, porque sempre vão dizer, na tua cara, lembrarão que a tua raça é a do Haiti, e quem primeiro eles têm de salvar é o povo daqui, sabe, vão dizer que é questão de prioridade nacional, essa gente, tão parecida contigo, expulsa feito rato dos mesmos buracos em que morarás, meu caro.

Perdão se estou sendo exagerado, pessimista, por favor, não me compreendas mal, só quero deixar o recado, registrar este meu alerta, indignado: não cai nessa conversa de que nosso país está crescendo e muito nos interessa ajudar a tua nação sofrida, verás que foi tudo mentira, no dia em que fores enfrentar mais uma de tuas guerras, nesta luta pelo direito à vida.

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