Chaplin e o último discurso

Meus pais sempre me dizem que quando eu era criança, com um pouco menos de 2 anos de idade, engatinhava pela casa segurando um quadro de Charles Chaplin. Rastejava pra lá e pra cá com o velho Chaplin, dizendo "-Pá-pum! Pá-pum!". Até hoje não sei o significado desse ato (tampouco da empolgada verbalização bissilábica), mas acho que o famoso clown exercia algum fascínio semiótico em mim, mesmo sem dominar com clareza a linguagem humana.

E Chaplin é mesmo fascinante. Não basta ver seus filmes, todos hilários - com uma boa dosa de crítica social - e fundamentais na história do cinema. É preciso também saber de sua origem, seu caminho, saber como ele concebeu seus personagens (como o famoso The Tramp, conhecido por nós como Carlitos) e seus filmes no cinema-mudo. Sua trajetória de Londres até a América é um retrato do conflituoso dinamismo do início do século XX. 

Em alguns anos, valendo-se do sucesso de bilheteria de seus filmes, Chaplin deixou de ser apenas um roteirista e ator da emergente Keystone para se tornar um film-maker independente, concebendo de forma autônoma seus próprios filmes. E quanto mais Charles Chaplin adquiria independência financeira para produzir suas películas, mais claro ficava a conotação política de esquerda de seus projetos cinematográficos.

Imagine o impacto de Tempos Modernos em 1936, período de extrema instabilidade nos Estados Unidos após o colapso econômico de 29 e a tentativa de reconstrução do capitalismo pelo New Deal. Qual era o significado das provocações da transformação do homem em máquina? A atualidade do filme parece inalterável.

Inalterável também é o significado da mensagem de Charles Chaplin no polêmico filme O Grande Didator, escrito e dirigido pelo gênio inglês em 1940, momento de ascensão do regime nazista de Hitler na Alemanha e de Mussolini na Itália. A cena abaixo é o clímax do filme (o primeiro inteiramente falado de Chaplin), quando o barbeiro, que se faz passar pelo comandante Hynkel, é levado para a capital Tomânia para o discurso da vitória e surpreende a todos com uma inflamada fala em total oposição às ideias do líder fascista, defendendo elementos centrais da liberdade e democracia. Uma mensagem com enorme poder de reverberação nos dias atuais, principalmente quando se denota o potencial surgimento de novos e sombrios regimes totalitários em razão do agravamento da crise econômica mundial que abala o ocidente.

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