O embargo econômico ao Wikileaks



Não deixa de me impressionar o fato da sociedade global não dar o devido valor ao trabalho heroico de Julian Assange e dos jornalistas do Wikileaks, site ativista que sacudiu o mundo em 2010 ao publicar milhares de documentos secretos de governos de todo o mundo, em especial da diplomacia estadunidense, que revelaram dados sobre torturas de inocentes, assassinato de civis, negociações ilegais, as motivações econômicas de intervenções militares e detalhes sobre a dinâmica da diplomacia global.

Para quem não lembra, o criador do website foi perseguido no final do ano passado e preso num escândalo sexual armado pela polícia sueca, em razão de pressão do governo dos Estados Unidos (cf. 'Ordem do dia: eliminar Julian Assange'). Graças à união de jornalistas, juristas e intelectuais ingleses, Assange foi solto, apesar de continuar no regime de prisão domiciliar. Aliás, é espantoso o "terrorista" - a grande mídia teve a cara de pau de chamá-lo assim - não ter morrido em algum "acidente de carro" ou "doença cardíaca". Essas coisas geralmente acontecem com quem mexe no vespeiro (basta lembrar que o líder republicano Mike Huckabee exigiu a execução de Assange).

As máfias políticas não eliminaram fisicamente Assange, mas conseguiram outra forma de minar o trabalho do Wikileaks. A primeira estratégia foi controlar os conglomerados midiáticos e exigir que as revelações do website fossem amplamente ignoradas, isto é, não noticiadas nos grandes centros de produção de informação jornalística. Tem dado certo. Nos últimos meses, pouco se falou do Wikileaks, apesar do trabalho constante de divulgação de documentos oficiais que interessam a todos.

A segunda estratégia foi mais severa: exigir que as empresas Visa e Mastercard bloqueassem o serviço de doação via cartão de crédito, a principal fonte de renda do website, que conta exclusivamente com doações. Esse foi o golpe mais sentido por Assange. Segundo dados da instituição, o orçamento do Wikileaks diminuiu em 95%, em razão do boicote forçado das grandes empresas, inclusive o site Pay Pal, o mais famoso site de pagamentos on-line. Na época, o PayPal disse em seu blog que a decisão foi motivada por uma violação de sua política, "que diz que nosso serviço de pagamento não pode ser usado para quaisquer atividades que incentivem, promovam, facilitem ou orientem outros a empreender atividade ilegal". O bloqueio já dura mais de 10 meses.



Nesta segunda feira (24/10), mudando o tom das provocações (como no vídeo acima), Assange sinalizou a gravidade da situação financeira do Wikileaks. Após uma coletiva de imprensa em realizada em Londres, jornais do mundo todo noticiaram que "o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, anunciou a suspensão temporária da difusão de documentos confidenciais e sigilosos para concentrar-se na arrecadação de fundos que permitam garantir sua futura sobrevivência". Sim. O Wikileaks perdeu a primeira batalha e agora procura uma nova estratégia para manter o website funcionando.

É triste observar que, após cinco anos de atividade - o Wikileaks foi lançado em outubro de 2006 -, o mais radical e importante veículo de informação independente sobre os principais governos do mundo corre o risco de encerrar suas atividades. Seria um retrocesso emancipatório permitir que isso ocorra. O primeiro passo é conhecer a história e a importância do Wikileaks para a democracia contemporânea. O segundo é divulgar os fatos e não deixar que o trabalho de Assange, tampouco a batalha que enfrenta, seja esquecido. O excelente artigo de Yochai Benkler, pesquisador da Universidade de Harvard, sobre o ataque multi-sistêmico ao Wikileaks demonstra que a academia tem um papel importante neste processo (cf. 'A Free Irresponsible Press: Wikileaks and the battle over the soul of the networked fourth estate').

Com relação à compreensão do que está acontecendo, difícil discordar de Benkler: o ataque ao Wikileaks, em particular o aparente medo de descentralização que ele representa, requer que nós entendamos o atual declínio do tradicional modelo de mídia e a emergência de sua nova forma em rede. No cerne, o ataque multi-sistêmico ao Wikileaks, incluindo a cobertura da grande mídia, é uma expressão da ansiedade sobre as mudanças que o "quarto poder" está passando. Essa ansiedade deve ser resistida, ao invés de sustentada, se nós quisermos preservar o robusto e aberto modelo de produção crítico à democracia em face das mudanças econômicas e tecnológicas.

Somente a cooperação pode salvar o Wikileaks.

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