Augusta: uma rua em transformação


Para quem tem uma certa aptidão sociológica, a Rua Augusta é um lugar incrível para se morar. Nesses dez meses residindo no Baixo Augusta - precisamente entre a Rua Costa e a Rua Fernando de Albuquerque -, tenho observado inúmeras transformações neste local que hoje é reconhecido como o coração de São Paulo.

As caminhadas diárias até a Faculdade de Direito me possibilitaram observar de perto as mudanças estruturais na Rua Augusta. A primeira delas é a questão dos imóveis. A bolha imobiliária é crescente. O projeto de revitalização do centro antigo da capital paulista chamou a atenção dos investidores imobiliários, sedentos por oportunidades de lucro. O antigo Hotel Ca'd'Oro, fechado em 2009, foi demolido e será transformado num "condomínio de múltiplo uso, com duas torres que vão abrigar, além do hotel renovado, áreas corporativas e residenciais de alto padrão, com inauguração prevista para o final de 2014. O Ca’d’Oro, com 147 apartamentos,  ocupará oito dos 27 andares da torre I". Em dois meses, todas as unidades foram vendidas.

Outro fenômeno de vendas, espantoso pela velocidade de transações comerciais, foi o projeto do edifício Capital Augusta, um prédio de 16 andares e 160 apartamentos (de 1 ou 2 dormitórios), localizado na Rua Dona Antônia de Queirós com a Augusta. Um salão comercial foi estruturado na referida esquina para a venda de unidades do imóvel. Corretores trabalhavam ininterruptamente até altas horas da noite, fazendo breves pausas para o cigarro. Acompanhei de perto a movimentação. Tal como o Ca'd'Oro, todas as unidades foram vendidas em menos de dois meses. 

Segundo a Folha de São Paulo, a região vive um boom imobiliário. Num raio de apenas 1.500 metros do Baixo Augusta estão sendo erguidos oito edifícios residenciais, que devem levar à região, nos próximos dois anos, cerca de 2.500 moradores (450% a mais do que nos últimos sete anos). Enquanto a Rua Augusta é a menina dos olhos do comércio e das baladas, a Rua Bela Cintra e a Rua Frei Caneca se destacam pela explosão de novos prédios residenciais.

O que explica tudo isso?

É óbvio que nada pode ser simplificado a uma única explicação, mas as transformações da Rua Augusta são, em boa medida, compreensíveis em razão da revitalização promovida pela música, cinema e cultura, aliada a uma excelente localização e proximidade com a Avenida Paulista, o símbolo comercial da cidade.

Diversos analistas concordam que a Nova Rua Augusta - chamarei assim para retirar o estigma da "rua dos cortiços e das prostitutas" - é resultado das ações privadas e não do investimento público. Em tempos de ativismo e coordenação estatal, é um estranho fenômeno de reestruturação impulsionada pela demanda e pelo mercado. João Sandrini, da Revista Exame, acredita que a iniciativa da revitalização partiu do setor privado: "Primeiro vieram novas casas noturnas, que encerram o período de decadência do local. Depois veio o mercado imobiliário e redescobriu a área hoje chamada de Baixo Augusta. Diversas incorporadoras fizeram lançamentos ali nas imediações do shopping Frei Caneca".

Sandrini tem um ponto interessante. A Rua Augusta, hoje o principal ponto de encontro da noitada do centro de São Paulo, começou a mudar com a inauguração da casa de shows Outs. Depois veio o Vegas, o Inferno, o Studio SP (principal espaço da música independente), Voltz, Tapas, Z Carniceria, The Society, Caos, Lab, Beco 203 - esses cinco últimos todos inaugurados em 2011.

A mudança é tamanha que o jornal Los Angeles Times publicou uma matéria no começo de outubro sobre a ebulição cultural da Rua Augusta e o seu novo público: "The five years since have transformed this five-block length of Rua Augusta into a cultural blast furnace. In a society still marked by extreme inequality, it is one place where people of different classes, races and tastes mix freely. (...) Augusta, only two miles long, runs northeast from Rua Estados Unidos in the high-priced Jardins residential neighborhood. It crosses Avenida Paulista, the city's main drag and headquarters of Latin America's largest banks, and then makes its way into the dilapidated historical city center. On the posher side of town, Rua Augusta is a relaxed haven for bookstores, cafes and vintage shops among a jumble of overpriced retailers. Along a short stretch of the 'lower Augusta' strip, there are more than 70 bars and clubs, including at least 10 for live music. On most nights, crowds make it difficult for pedestrians to pass through without stepping off the sidewalk. And almost without exception, in none of the establishments will you find traditional Brazilian music. The scenes are dominated by local takes on punk, hip-hop, metal, indie rock and dance music".

A descrição do jornalista estadunidense é bastante real. Nas noites de quinta, sexta e sábado é impossível transitar tranquilamente pelas calçadas do Baixo Augusta. A rua fica lotada de pessoas de diferentes estilos. Patricinhas e playboys caminham ao lado de punks, velhos intelectuais bebem cerveja ao lado de jovens músicos, modernosos (tatuados, com roupas justas e cortes de cabelo cosmopolitas) dividem espaço com universitários discretos. Homossexuais caminham de mãos dadas, sem medo de demonstrar afeto em local público. É fato que ocorrem alguns episódios de violência e homofobia - quase todos envolvendo grupos neonazistas -, mas em geral se tem a impressão que a Augusta é a rua mais democrática e livre do Brasil.

O que define a transformação da Rua Augusta é o consumo. Consumo de música (pessoas que vem para a Rua Augusta pagar para ver sua banda local preferida), consumo de roupa (existem inúmeras lojas colaborativas e de designers famosos, geralmente cultuados pela alta cúpula fashion da cidade), consumo de arte (seja o Teatro Augusta, seja o Cine Unibanco), o consumo de sexo (ainda existente, apesar da diminuição dos American Bars) e o consumo de bebidas, drogas e diversão (o que explica o sucesso não só das novas e famosas casas noturnas, mas também de botecos "fuleiros" como o Pescador, o Bahia e o Bar do Matão).

O consumismo paulistano e a crescente imagem da "rua cool de São Paulo" impulsionaram o setor imobiliário, que agora investe intensamente para atrair novos moradores. Ainda, considerando a instabilidade das bolsas de valores em razão dos efeitos da crash de 2008 e das oscilações deste ano, o investimento em imóvel voltou a ser uma opção segura para os detentores do capital. Tem-se também a estabilidade macroeconômica do Brasil e a emergência de uma nova classe média com poder de compra, que necessita de imóveis que sejam próximos ao local de trabalho e que permitam mobilidade via transporte público. Enfim, tudo gira a favor da Augusta.

O fato é que inúmeros empreendimentos serão inaugurados ainda esse ano. Basta dar uma volta por algumas quadras do Baixo Augusta. Talvez a transformação esteja somente no início, dando seus primeiros e mais nítidos sinais. Há ainda a discussão sobre a criação do Parque Augusta, um espaço verde em meio aos coloridos grafitis de velhos prédios. A população se mobilizou e agora pressiona a prefeitura para garantir a construção deste espaço de convivência e proteção ambiental.

Sem dúvidas, a Augusta é um dos laboratórios mais interessante do país. Ela diz muito sobre o momento atual de São Paulo e do Brasil.

Um comentário:

Rene Alexis disse...

Gostei do texto, muito bem escrito. Eu conheço a Augusta desde meados da década de 70 quando trabalhava como mensageiro de uma multinacional e a diferença entre a Augusta daquela época e agora é abismal. Um dos grandes problemas ao meu ver quando se constrói tanto edifício, é o trânsito que isso gera. A Augusta já é caótica com automóveis estacionados em ambos os lados. Agora você imagina isso somado a pelo menos um automóvel (no mínimo) por apartamento novo construído no entorno. É certo que a prefeitura está tentando incentivar que as pessoas se separem do carro como meio de transporte e que priorizem o transporte público e bicicletas por exemplo mas isso vai precisar de uma grande mudança cultural. Vejo que o texto foi escrito em 2011. De lá pra cá algumas coisas mudaram mais ainda e mais empreendimentos imobiliários na planta surgiram como o da Praça da República e da Av. São Luiz em frente ao Estadão, ambos da incorporadora SETIN e o da rua Marques de Itú, o Vibe além dos pioneiros que estão lançando ousadas propostas de prédios novos bem em frente ao Minhocão já prevendo uma super valorização da área com a medida de desativação do mesmo já prevista no novo plano diretor seja pela derrubada ou transformação em parque suspenso nos moldes do High Line de New York tornará a área Augusta/Consolação/amaral Gurgel um verdadeiro nicho, pelo menos eu espero, de efervecência cultural e criativa. Some a isso a discussão social da integração de famílias sem teto que invadem incessantemente prédios ociosos no centro na esperança de serem contenpladas com moradia cortesia do estado/prefeitura na área que mais se valoriza na cidade e temos ai um interesante cenário para os próximos 5 ou 10 anos pela frente.

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