"Eu sou Bradley Manning": em busca da verdade

Incrível como muito pouco (ou quase nada) se fala a respeito de Bradley Manning, soldado de 23 anos lotado na inteligência do exército, acusado de ser o whistleblower de mais de 200 mil documentos oficiais dos Estados Unidos da América, publicados pelo portal Wikileaks.

Bradley está preso desde julho - aliás, em setembro do ano passado escrevi sobre os motivos de sua prisão (cf. 'A coragem da verdade: o caso de Bradley Manning') - em condições consideradas por grande parte dos ativistas de direitos humanos como degradantes e inaceitáveis. Ele é considerado o delator de práticas ilícitas e crimes de guerra ocorridos em diversas missões do exército nos últimos cinco anos, incluindo a tortura de civis inocentes no Iraque.

Todavia, para grande parte do governo dos Estados Unidos, Bradley é um criminoso que merece a prisão perpétua ou a pena de morte por ter revelado tais cables (documentos oficiais), devendo ser julgado pelas severas leis militares do país. Da mesma forma, para parte da população - principalmente aqueles que, crendo no destino manifesto do povo americano, defendem as intervenções bélicas no estilo unilateral bushiano - o jovem soldado é um traidor, um anti-americano, um inimigo declarado da pátria. É praticamente um terrorista.

Mas será que Bradley Manning é realmente o vilão história? Desde quando expor a verdade é um crime?

Eu gostaria de inverter a ótica, pois acredito que este rapaz está longe de ser um criminoso.

Antes de tudo, vamos aos fatos: a intolerável situação carcerária de Bradley Manning e os protestos ocorridos nos últimos meses.

Bradley estava preso há quase um ano numa solitária, sem direito a visita, permanecendo 23 horas por dia trancado numa minúscula cela de uma prisão militar em Virginia. Segundo o relator especial da Organização das Nações Unidas Juan Mendez, que tentou visitar Manning de acordo com os tratados internacionais e foi impedido pelo governo, o jovem soldado estava com a integridade física e mental em risco.

Neste mês, Bradley foi transferido para uma prisão em Kansas devido a fortes pressões populares e graves denúncias de organizações internacionais, que geraram protestos em todo o país e websites ativistas como o Avaaz.

De fato, a pressão foi grande e Barack Obama teve que negociar com a cúpula do U.S. Army a respeito de  Manning.

Há um mês, Bruce Ackerman - um dos mais renomados professores de direito constitucional dos Estados Unidos -, da Yale Law School, e Yochai Blenker, da Harvard Law School, publicaram na New York Review of Books um "artigo-manifesto" intitulado Private Manning's Humiliation, que contou com a adesão de centenas de professores de todo o país.

O artigo, apesar de ser somente um texto, teve forte peso político. Nele, Ackerman diz: "Se Manning é culpado de um crime, que ele seja julgado, condenado e punido de acordo com a lei. Mas o tratamento deve ser consistente com a Constituição e com a 'Bill of Rights'. Não há desculpa para sua punição preventiva degradante e desumana. Como afirmou recentemente P.J. Crowley, do Departamento de Estado, elas são 'contraprodutivas e estúpidas'. E, ainda sim, Crowley foi forçado a renunciar por falar a pura verdade. As divulgações do Wikileaks tocaram todos os cantos do mundo. Agora o mundo todo assiste a América e observa o que ela faz, não o que ela diz. O Presidente Obrama foi certa vez professor de direito constitucional e entrou no cenário internacional como um eloquente líder moral. A questão agora, entretanto, é se a sua conduta como comandante-chefe atende aos padrões fundamentais de decência. Ele não deve apenas afirmar que o confinamento de Manning é 'apropriado e atinge aos padrões básicos', tal como ele fez recentemente. Ele deve exigir publicamente que o Pentágono documente as razões para suas ações extraordinárias - e imediatamente acabe que com aquelas que não possam suportar a luz do dia".

O apoio dos principais juristas do país ao manifesto trouxe o (até então abafado) caso de Manning ao mainstream da mídia. Nos centros universitários, foi discutido não só a inconstitucionalidade da prisão do jovem soldado, mas também sua própria conduta. Nesse processo, alguns chegaram à mesma conclusão de Darien Worden, que afirmou que "Manning percebeu a tirania de uma organização na qual ele desempenhava um papel ativo. Ao invés de alimentar-se à força de mais propaganda ou engolir sua arma, ele fez algo positivo".

A divulgação da foto de um Manning já irreconhecível (em razão das torturas sofridas na prisão militar de Quantico) agravou ainda mais a situação e forçou Obama a acelerar o processo de realocação de Manning para outra prisão. Eis o antes e depois do soldado.


Depois do artigo de Ackerman e dos protestos desencadeados pela notícia de torturas praticadas em Virginia, Bradley foi transferido para o Forte Leavenworth, em Kansas, no dia 20 de Abril.

No início deste mês, seu advogado, David E. Coombs, publicou em seu blog que havia visitado Manning na nova prisão localizada no centro do país. Ele publicou um relato de como é a atual rotina do soldado ("Unlike at Quantico, PFC Manning cell has a large window that provides adequate natural light.  His cell also has a desk, a bed, and a toilet.  The cell is approximately 80 square feet.  He is provided with a normal mattress, sheets and a pillow.  None of his clothing is taken away from him at night.  PFC Manning is able to have all of his personal items in his cell, which include his clothing, his legal materials, books and letters from family and friends.  He is also able to have a pen and paper at all times in his cell, and is able to write whenever he chooses"). 

A mudança - apesar de mínima se considerarmos o "princípio da dignidade humana" (isso existe?) - foi celebrada como uma pequena vitória pelo movimento Free Bradley Manning. É claro que a associação civil defende a liberdade total de Manning e que seja reconhecida a total insuficiência legal das acusações (de acordo com o processo militar, Manning é acusado de aiding the enemy; entretanto, não há qualquer menção de quem é o inimigo). Mesmo assim, a possibilidade do acusado se comunicar já um avanço.

Aos poucos, a causa de Manning ganha mais força, principalmente através das redes colaborativas virtuais. Essa semana, foi iniciada a campanha "I am Bradley Manning" ("Eu sou Bradley Manning"). O lema da campanha não se aplica somente a Manning, mas ao mínimo de legalidade e transparência num ambiente democrático: "Eu defendo o devido processo legal. Eu defendo uma nação de leis justas e equitativas. Eu acredito que o público merece saber a verdade".

A ideia é que o mundo todo se comprometa com a causa se coloque no lugar de Manning. Para tanto, a campanha faz uma pergunta simples e direta, mas que sintetiza o caso Bradley Manning: "Se eu te mostrasse a verdade, você me prenderia?"

Veja o vídeo do movimento, divulgado ontem.



A história de Manning deve ser contada não só nos blogs - como aqui faço agora - mas nas mesas de bar, escolas, universidades e qualquer outra oportunidade real que se tenha para discutir algo atual e extremamente sério. A condenação e total repressão da atitude de Manning de revelar a verdade pode abrir um precedente perigoso para o futuro de todos nós. Os tempos são outros, potencialmente perigosos ou potencialmente emancipadores - depende das escolhas que fizermos. Precisamos experimentar novas possibilidades de participação democrática e busca pela verdade, aproveitando a tecnologia que temos a nosso favor. Isso implica combater qualquer tentativa governamental de limitar essas potenciais ações.

É demais pensar que Bradley pode ser o herói do tempo presente?

Se for, trata-se de um herói solitário, propositalmente ignorado pela grande mídia e seus interesses corporativos alinhados com a indústria bélica ocidental. É um jovem que não se conformou com tudo o que viu (a podridão do imperialismo) e resolveu agir, ignorando os riscos que sabia que corria. É alguém que   transgrediu a disciplina militar e a completa subordinação aos comandos de uma determinada estrutura hierárquica burocratizada para denunciar algo que, segundo suas convicções, precisava ser exposto.

Manning agiu com paixão. Quanto a nós - pessoas que assistem passivamente ao espetáculo como se nada disso fizesse parte de nossa existência - falta compaixão. Por isso, precisamos todos dizer: "eu sou Bradley Manning!".

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