Ambiguidade, incerteza e o mito de Hamlet na juventude contemporânea


"Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico. Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo".

É assim, expondo as diferentes versões do jovem na contemporaneirade com o objetivo de articulá-las numa narrativa consistente, que o psicanalista carioca Joel Birman (que me influenciou fortemente noutro texto) abre o artigo "Ser ou não ser" publicado neste mês na revista Cult. Nele, Birman discute algo que há algum tempo tem me preocupado, que é a desmontagem da família nuclear burguesa e a ausência de inserção no mercado de trabalho no atual modelo neoliberal globalizado, fazendo com que a juventude fique "destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término". Como resultado, tem-se corpos mais violentos e despolitizados.

Além do mar de incertezas experimentado pelo adolescente de hoje, há ainda outro grave problema - este, enfrentado por nós de "20 e poucos anos", que é o do "emerging adulthood", um estágio de vida distinto que se torna cada vez mais identificável no século XXI.

Não se sabe mais o que é juventude e, se ela realmente é uma fase, quando ela termina. Fazemos parte deste complexo processo histórico-social ocidental no qual perpetua-se o mito de que a juventude é a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais ("seria assim o imperativo de ser, custe o que custar, o que se impõe a nós como exigência ética na contemporaneidade de maneira incontornável, consubstanciado nas linhas de fuga do desejo e delineando a figura da adolescência infinita").

Para Birman, a própria vida adulta se transfigurou: o código de experimentação que caracterizou a adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta, constituindo-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.

Os tempos são outros. Precisamos de novos conceitos para discutir o momento que vivemos. Se Goethe fosse escrever "Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister" hoje, a história seria bem diferente.

Vale a pena ler seu artigo e pensar sobre o tema.

Um comentário:

Léo disse...

Bem interessante o texto, Zanatta. De fato, a posição do jovem, os limites e e enlances da juventude com os padrões até então vigentes de "vida adulta" parecem levar a questionamentos muito interessantes a respeito do "locus", do "começo, meio e fim" do que se poderia chamar de juventude. Vivemos, e essa sensação já é experimentada por nós, nascidos no final da década de oitenta, uma fase adulta que se mescla com uma juventude, uma nova fase de transição que não se subsume perfeitamente nem nos padrões de "adulto" nem nos padrões de "jovem".

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