Um rapaz sério (de aniversário)

Hoje é aniversário do meu amigo de longa data, o escritor maringaense Bruno Vicentini. Ele é do ano que o Muro de Berlim caiu, portanto, como você já deve ter feito as contas, é um rapaz jovem: dois patinhos na lagoa.

Eu já escrevi sobre o Bruninho (é assim que o chamo) aqui. Ano passado, ele ficou em segundo lugar num concurso virtual de microcontos promovido pela Bienal Internacional do Livro. O tweet literário era: "Vendeu os cabelos para comprar um chapéu". Entenda o que quiser.

Além de termos crescido (piás de prédio?) e tocado juntos (Ladrões de Bicicleta e Cake Cover), estudei com Vicentini na Universidade Estadual de Maringá - local onde tomamos muitos cafés. Mas tenho certeza que Direito não é sua praia. Pode até ser sua fonte de renda no futuro, afinal, não há escritor hoje em dia que seja somente escritor (até mesmo Veríssimo é cartunista e tradutor!). A realidade do mundo literário é essa. Melhor ser analista do Judiciário do que funcionário dos Correios, como o velho bêbado Charles Bukowski.

Por enquanto, Bruno Vicentini tem publicado contos. Poucos. É um escritor cuidadoso. Sei que tem muita coisa guardada em gavetas ou pastas de seu computador, mas escolhe bem o que publica - é assim que deve ser. Um conto deve ser lapidado, somente as palavras que importam devem estar presentes. Eis um processo difícil. Textos literários têm valor pela qualidade de sua potencial interpretação: o desafio consiste em conduzir o intérprete por caminhos cuidadosamente pensados, sem que o mesmo se dê conta de tal feito.

Somente a prática proporciona ao escritor tal habilidade. Ninguém nasce gênio na arte de escrever bem. É algo que requer dedicação, treino e sofrimento. Ao menos esse é a lição que aprendi de Truman Capote durante um frio inverno londrino (ao ler "Music for Chameleons", em especial o prefácio revelador do livro: "One day I started writing, not knowing that I had chained myself for life to a noble but merciless master. When God hands you a gift, he also hands you a whip; and the whip is intended solely for self-flagellation. (...) As certain young people practice the piano or the violin four and five hours a day, so I played with my papers and pens. Yet I never discussed my writing with anyone; if someone asked what I was up to all those hours, I told them I was doing my school homework. My literary tasks kept me fully occupied; my apprenticeship at the altar of technique, craft; the devilish intricacies of paragraphing, punctuation, dialogue placement. Not to mention the grand overall design, the great demanding arc of middle-beginning-end. One had to learn so much, and from so many sources: not only from books, but from music, from painting, and just plain everyday observation. In fact, the most interesting writing I did during those days was the plain everyday observations that I recorded in my journal. Descriptions of a neighbour. Long verbatim accounts of overheard conversations. Local gossip. A kind of reporting, a style of "seeing" and "hearing" that would later seriously influence me, though I was unaware of it then...").

Meu desejo é que você, Bruno, persista. Esse é meu presente de aniversário: um voto de confiança em sua capacidade como escritor (sensível às angústias humanas).

E ao amigo(a) leitor(a), fica o conto "Numa Quarta-Feira", publicado no portal Contos Maringaenses.



Numa Quarta-Feira

Quarta-feira sempre fora o dia de cortar os cabelos. Miércoles. Sair e observar as ruas, o comércio. Os protegidos de Mercúrio, que pouco mudaram a maneira de negociar seus produtos na quarta-feira, desde a época em que primeiro houve uma quarta-feira. Hoje se vende e se compra pela Internet, mas sobretudo em outros dias. Era a ocasião de se observar a vida da cidade e esquecer-se da própria, o exercício de entender a vida como muito mais do que a angústia que se carrega no peito. Como se casas, prédios, lojas e caminhos de concreto pudessem ter qualquer angústia, palcos de um grande balé pleno de sentido dançado por pessoas que caminham apressadas em todas as direções, rostos sérios em roupas sérias. Numa quarta-feira à tarde, ninguém pode ser poeta. É dia de cortar os cabelos como quem se formata um pouco, fazendo ligeiramente as pazes com aquilo que as pessoas esperam umas das outras.

Naquela quarta-feira ensolarada, por volta das duas da tarde, ele saiu de casa com o dinheiro exato para pagar o corte. Teria uma entrevista de emprego logo mais, razão pela qual não poderia se atrasar com dinheiro sobressalente na carteira. No entanto, razão insuficiente para fazê-lo cortar os cabelos numa terça-feira repleta de tempo livre. Marchou até o carro prateado que possuía, presente do pai ao filho bom.

Dentro do carro, já a caminho, em meio a tantos outros carros iguais ao seu até mesmo na tintura, sentia-se invisível. Mas invisível assim era bom. Fazia parte do seu repertório um monólogo cômico, que se provara muito eficiente em mesas de bar com os amigos, sobre como os carros populares e prateados eram invisíveis, carros invisíveis de pessoas invisíveis, mas seu pai nunca o conhecera. O pai não conhecia o lado cômico do filho. Em verdade, como poderia conhecê-lo? Invisível assim era bom.

Aconteceu que de nada adiantou usar o carro, fosse da cor que fosse. Ao chegar ao destino ele não encontrou nenhum lugar para estacioná-lo. Havia, aliás, uma vaga, mas a perspectiva de fazer a manobra de baliza na rua repleta de carros o amedrontou antes mesmo de qualquer tentativa. Parou o carro longe, de forma que o salão se situou, sem que ele soubesse, em um ponto eqüidistante entre o carro e sua casa. E se alguém o visse agora? E se o mundo inteiro soubesse da sua infâmia? Apressou-se para não pensar, sentiu vergonha dos pedestres, mirou o chão durante todo o trajeto como quem nunca fizera coisa diversa em toda a vida.

Mas apesar de tudo, era um rapaz sério. Tinha teorias. Não podia ser de todo infame, como não podia ser de todo qualquer outra coisa. E sempre cortava o cabelo com a mesma cabeleireira, desde menino. Se sua cabeleireira venceu na vida e abriu um salão elegante, num bairro elegante, e agora ele tinha que pagar um valor exagerado, feminino, para cortar os cabelos, paciência. Motivos para mudar havia, inúmeros. Como motivos para as terças-feiras. Também nunca impunha sua vontade sobre a tesoura da mulher, deixando-a podá-lo como bem entendesse, limitando-se a pequenos palpites e a sempre aprovar o resultado final. Tinha, sim, uma teoria para explicar o modo como agia sentado na cadeira ajustável, de que, apesar das quartas-feiras, a cabeleireira era uma artista, como uma escultora. E os artistas deviam ter liberdade criativa sempre. Mesmo arrancando risos misericordiosos dos amigos com a explicação, sua namorada sempre reclamava quando a artista se excedia, cortava demais, e prometia acompanhá-lo da próxima vez, jurava dar uns sopapos na artista se fosse preciso.

Com a carteira vazia de notas e cheia de moedas, caminhou apressado até o carro que, apesar de invisível, fora multado pelo fiscal do estacionamento rotativo. Paciência. Arrancou com toda a delicadeza de um aprendiz do volante, ainda tinha que encontrar o lugar da entrevista, que distanciava dos poucos lugares em que sabia chegar de carro. Ele, que sempre morara na mesma cidade. A cidade, tão planejada e repleta de árvores.

Chegou a tempo de ainda esperar elegantes minutos sentado na recepção. Não sabia o que esperar da entrevista, tentou em vão ler um pequeno cartaz apregoado no mural verde, que trazia os lemas da instituição. Não queria levantar para olhá-lo sem autorização. Quando enfim foi chamado, respondeu com nervosismo ao que lhe foi perguntado pelo que seria seu futuro patrão. Como se a resposta para todas as perguntas que lhe foram feitas fosse mesmo “nervosismo”. Mas conseguiria o emprego, sabia que sim, impressionara, o corte de cabelo inclusive. Era só esperar pacientemente em casa a chamada telefônica de admissão.

***

O barbeiro velho da velha barbearia daquele centro comercial do centro da cidade admitiria que ficou perplexo por alguns segundos quando aquele rapaz entrou com passos decididos, sentou-se na sua cadeira com uma nesga de sorriso no rosto, com os olhos inúteis, fixos num ponto do espelho, e disse palavras que o velho ouvia com frequência, mas que ouviu daquela vez como se as ouvisse pela primeira vez:

-Raspa na zero.

5 comentários:

Amanda Rocha disse...

E além de tudo, o Bruno foi orador da turma na oitava série! Tem futuro! :D

Bruno Vicentini disse...

Meu querido, sua confiança me lisonjeia, mas para de dizer que eu sou escritor! Quem sabe um dia.

Eu não sou sério assim, sou? Que jeito.

Meu blog vai bombar só de ser linkado aqui?

Valeu!

Um forte abraço, seu crápula!

guilherme disse...

além de orador ele também adorava brincadeiras sem o mínimo de noção! como a vez que tacou o apagador na cabeça do dú e o apagador ficou afundado no quadro.. ou a havaiana que ele tacou no dú ( até eu que não estava presente já sei que é coisa dele!) hahahaahhahahahhahah

Bruno Vicentini disse...

braguinha, é você? cara, NÃO FUI EU na história da havaiana! Até hoje o culpado não apareceu e eu sei que parece coisa minha, acontece que não foi. Quem sabe dê um conto!

Bruno Vicentini disse...

Eu não me lembro de ter sido orador na oitava série!

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