História e Tecnologia

Historiadores e apreciadores da História, agradeçam o Google!

A maior multinacional em serviços on-line do mundo, em parceria com o Jornal do Brasil, digitalizou todo o seu acervo impresso desde 1910. Está tudo on-line aqui, basta entrar e navegar.


Hoje passei várias horas lendo notícias e artigos antigos (essas coisas conspiram contra meus estudos acadêmicos e profissionais!).

Nessa edição acima, de 71 anos atrás - março de 1930 -, tem, por exemplo, um texto de um tal Júlio Moniz sobre a "Loucura do Medo". Veja que reflexão interessante sobre a liberdade intelectual escrito no entre-Guerras:

"A liberdade intelectual, fundamento de todas as outras liberdades, é um grave problema da hora presente, principalmente nos países em que essa mesma liberdade se tornou uma questão de vida ou morte e cujos governos, se a não tolhessem, decerto não subsistiriam, cairiam em pouco tempo. Para o mundo ocidental, por exemplo, a liberdade intelectual é, hoje, a mais ardente das questões políticas. 

Por quê? Respondendo à pergunta, aliás por ele mesmo formulada, em recente discurso no P.E.N. Clube de Buenos Aires, Guglielmo Ferrero disse que a razão estava em ter o Ocidente uma elite dirigente enlouquecida pelo medo.

Por que, ainda? Porque essa elite desencadeou a força em 1914 e não soube, terminada a guerra, acorrentá-la de novo. E, agora, essa força, assim solta, ameaça o mundo sob a dupla forma de guerra e da revolução. E o mundo treme de modo. E, no seu receio, desconfia, mais do que nunca, da literatura, da história e da filosofia.

Nos países que ainda tem a sorte de obedecer a governos legítimos, o pavor dos ricos e dos poderosos que pede aos escritores? Que utilizem a pena em divertir os homens e não em os ilustrar e instruir. E, dessa forma, a novela, nesses países, cada dia se dedica mais e mais a analizar o amor físico e esperitual com franqueza e atrevimento que, há trinta anos, pareciam escandalosos.

Às vezes, essas analises não deixam de ser interessantes e profundas. Os acidentes do amor, porém, se tem grande importância para a felicidade do indivíduo, que representam para a humanidade e seu destino? Nada.

E nos países cujos governos perderam a legitimidade? Que sucede? Nesses, as elites dirigentes não se contentam em fazer com que os escritores abandonem o serviço das grandes causas; querem, também, que suas penas trabalhem exclusivamente para justificar, dissimular e servir os delírios do terror de que se sentem possuídos.

É esse o drama novo de que os homens da pena são ou as vítimas ou os heróis. (...) Muitos escritores já padeceram a provação de ver-se, de sopetão, em frente ao Poder que, sob ameaça de deportação, desterro, prisão, ou morte, lhes ordenou que dessem a Cesar o que era de Deus.

Inclinemo-nos diante desses homens - e Guglielmo Ferrero é um deles - que sofreram por dar testemnuho às verdades em que acreditavam; curvemo-nos diante de todos quantos vivem, hoje, na impossibilidade - suplício atrós para uma alma eleita - de poder expressar o seu pensamento. Eles quiseram defender a liberdade do espírito numa época em que há países onde ela não existe. E isso acarreta responsabilidades tremendas.

Essa divisão, porém - a de haver países onde existe liberdade intelectual e países onde já não há - não poderá subsistir por muito tempo. Camille Chautemps, há pouco num banquete de jornalistas em Paris, acentuava que diminuía cada dia mais o número de países onde o pensamento é livre e frizava que os governos republicanos deveriam salvaguardar, acima de tudo, a liberdade de imprensa.

E o grande pensador francês tem razão. Ou os países que perderam a sua liberdade a recuperam ou, então, os que ainda a tem a perderão. E, sem liberdade intelectual, o mundo inteiro cairá na barbárie, naquela mesma barbárie que, no século IX, fez perecerem os países muçulmanos, derrubando, com a do espírito, todas as demais liberdades.

Mas a humanidade não regride, não pode mais regredir. Seria a derrocada da civilização atual, obra secular, prolongamento do esforço magnífico do passado, resultado formidável de trabalho e de inteligência do presente.

Não, a civilização não pode ruir. E não ruirá."

Essas aflições ainda existem e não sei se se pode afirmar que a civilização progrediu muito de lá para cá.

Nessa rápida viagem pelo tempo e pela história brasileira, também analisei algumas edições publicadas durante o Golpe Militar de 1964 e fiquei impressionado com o posicionamento do Jornal frente à crise institucional criada pelas lideranças militares contra João Goulart - acusado de comunista. Para quem já esqueceu a recente história, no dia 13 de março de 1964, João Goulart realizou um grande comício na Central do Brasil (Rio de Janeiro), onde defendeu as Reformas de Base e prometeu mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país. Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizaram um protesto que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo contra as intenções de João Goulart ("Marcha da Família com Deus pela Liberdade"). A crise política e as tensões sociais atingiram o nível máximo de bipolarização naquele mês (contra e a favor das reformas de base). Apoiados pela elite, os militares tomaram o poder e Goulart se refugiou no Uruguai - com e escopo de evitar uma guerra civil e derramamento de sangue - e tentou mobilizar a população a uma greve geral para que ele voltasse ao cargo de Presidente, considerando a forte estrutura de organização sindicalista no país.


Foi então o período de intensa construção discursiva capaz de garantir legitimidade ao golpe dos militares mineiros e paulistas, isto é, a utilização dos meios de comunicação para a construção da imagem negativa dos governos de esquerda, taxados simplesmente de "comunistas".

A edição de 1º de Abril de 1964 é uma clara manifestação política. O editorial reverte o discurso utilizado por Jango, empossado em razão da "Campanha da Legalidade" coordenada por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul e que assegurou que a Constituição fosse aplicada, garantindo a Presidência ao político gaúcho.  Nesse ponto (a Campanha da Legalidade), o falecido escritor Moacyr Scliar, no livro "Nós e a Legalidade" faz um relato de como foi viver esse momento: "A renúncia de Jânio causou, sobretudo, perplexidade. Mas a recusa dos ministros militares em aceitar João Goulart como Presidente gerou revolta. Era um ato claramente, escarradamente, ilegal, e antidemocrático; e era um ato que mexia com os brios do Rio Grande – o mesmo Rio Grande de onde haviam saído os gaúchos que, em 1930, amarraram os cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Ao chamado de Brizola, o Rio Grande do Sul se pôs, como se dizia então, ‘de pé pela Legalidade’. (...) Eu era estudante de Medicina e foi como universitário que vivi a Legalidade. Nosso quartel-general era o antigo Restaurante Universitário, na Avenida João Pessoa (...). Em nossas reuniões não tínhamos dúvida de que a coisa evoluiria para um conflito armado. (...) Nos dias de maior tensão – os que antecederam o pronunciamento do Comandante do III Éxército, Machado Lopes, aderindo ao Movimento da Legalidade – íamos diariamente ao Palácio, subindo a Lomba do Sétimo. Brizola aparecia à janela para nos saudar; e aos nossos pedidos – armas para o povo, Governador! – respondia com um sorriso. Sabia com quem estava lidando. (...) O movimento se propagava. Batalhões de operários da Carris desfilavam pelas ruas, voluntários se alistavam, a cadeia de emissoras que formavam a Rede da Legalidade estava constantemente no ar, irradiando o famoso Hino que tinha letras de Lara de Lemos – e outros estados começavam a aderir. O espectro de uma guerra civil deve ter aparecido bem visível aos ministros, que optaram por negociar. Jango assumiria, sim, mas com um regime parlamentarista. Não era bem o que as pessoas, e sobretudo os estudantes, queriam. Mas a alternativa, acho, poderia ter sido terrível".

O tom do editorial do Jornal do Brasil é escancara e ofensiva manifestação contra João Goulart. Nela, inverte-se o discurso de legalidade: esta, na nova ótica pós-golpe, não é o cumprimento da Constituição Federal, mas a ação contra a desordem e a desunião implantadas no país - típico discurso da Guerra Fria fomentada pelos Estados Unidos da América.

Veja o editorial publicado no primeiro dia após o golpe militar que derrubou Jango e calcule o impacto dessa manifestação (nem um pouco imparcial) para o leitor comum.

"Desde ontem que se instalou no País a verdadeira legalidade: aquela que através das armas do movimento mineiro e paulista de libertação, procura imediatamente restabelecer a legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no  que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares.

Só há uma legalidade - a legalidade dos brasileiros liderados por Minas e São Paulo. Esta, sim, visa a repor o País na situação em que foi entregue ao Sr. João Goulart - quando jurou defender a Constituição, após memoráveis lutas também contra os Ministros Militares daquela hora.

Só há uma legalidade - aquela que foi caracterizada pelo ex-Presidente Juscelino Kubitschek. Legalidade agora e em primeiro lugar é a restauração imediata da disciplina e da hierarquia militares repetidamente violadas pelo Sr. João Goulart, em atos claros de subordinação do País do Governo à liderança comunista de organismos político-sindicais ilegais, que já ousam interferir até mesmo na orientação militar do País.

Só há uma legalidade - a legalidade contra a desordem e a desunião implantadas no país pelo Sr. João Goulart em sua  desmedida e criminosa atuação política visando a continuar a qualquer preço no uso do Poder.

(...)

Os verdadeiros brasileiros já fizeram sua escolha. Estão restabelecendo a legalidade democrática, reformista, sim, mas expurgada do objetivo de comunização do Brasil. O reformismo do Sr. João Goulart é comunização disfarçada em reformismo.

Por isso, o País se levanta e leva de roldão aqueles que ainda ocupam, como usurpadores, os palácios oficiais e usam sem direito os selos e timbres da República.

Nada há a temer. A Federação ameaçada será logo reunificada pela ação liderada por Minas Gerais e São Paulo. A derrota do Sr. João Goulart é inevitável.

E com ele tudo que representou nesse curto período de mistificação e engano de um povo bom, pacífico e trabalhador, que não merecia colher das mãos de governantes maus brasileiros, as provações que vai colher nas ansiedades das próximas horas.

Nada há a temer. A segurança interna e externa do Brasil se recompõe com a expulsão dos falsos legalistas. Eles serão expulsos da Guanabara e não encontrarão guarida em nenhum ponto do solo pátrio.

As Forças Armadas, responsáveis pela segurança interna e externa do País, saberão encontrar logo a solução constitucional cabível para a imperiosa deposição do caudilho João Goulart.

A hora é de firmeza e coragem. Principalmente aqui na Guanabara, sob o guante do General Jair Dantas Ribeiro. Vamos batê-lo aqui mesmo. Nós democratas saberemos derrotar a greve geral que se deflagra por ordem dos comunistas aliados ao caudilho. Saberemos suportar todas as privações até o momento da expulsão do caudilho do generoso solo carioca.

A legalidade está conosco.

Estamos lutando por ela e vamos reestabelecê-la.

O Congresso será chamado a dizer quem substituirá o caudilho até as eleições de 1965, que assegurarão a continuidade do regime.

A legalidade está conosco - e não com o caudilho aliado ao comunismo. As opções estão feitas e vamos para a vitória".

Isso pode ser chamado de jornalismo? Há um limite para a manifestação política em meios de comunicação que objetivam lidar com dados factuais e informações?

Sendo correto ou não, essa é nossa história - agora com registros digitalizados -, para além dos livros didáticos.

Um comentário:

Marcia disse...

Rafa,

Que loucura. Esse trabalho da digitalização do acervo do Jornal do Brasil foi realmente incrivel. Porém, não mais incrivel do que lermos hoje a forma persuasiva que o "jornalista" colocava as "informações". De qualquer forma, não sei até que ponto as coisas mudaram. Mas é claro que com o uso dos meios de comunicação como a internet (blogs e documentarios alternativos e independentes) muita coisa esta ao menos sendo discutida de forma mais ampla. Parabéns pela sua pesquisa. Gostei muito. Beijos,

Mais lidos no mês

Mailing E-mancipação