Os potenciais efeitos da revolta egípcia

No 17º dia de protestos em Cairo, o ditador Hosni Mubarak desafiou a força do poder popular e declarou que não sairá até setembro. No momento mais tenso da revolta egípcia, a população cerca os tanques de guerra e grita em coro: Exército egípcio, o momento da escolha é agora, o regime ou o povo! Para Mohamed ElBadarei, líder da oposição, o momento é agora. O Egito explodirá e o Exército tem a chance de salvar a nação.

No país, instaurou-se um regime de exceção, suspendendo-se todas as leis civis, dando à polícia irrestritos poderes para o uso de violência e prisão sem o devido processo legal. Enquanto a grande mídia ignora o abuso dos direitos humanos no Egito através de prisões ilegais, violência arbitrária e tortura, a  rede de televisão Al Jazeera cobre (com senso crítico e amplo debate) esse momento incrível na história do mundo árabe. É possível acompanhar ao vivo a delicada situação em Cairo.


Apesar do pouco debate, vivemos uma fase de transição, com a possibilidade de uma nova postura em termos de cooperação internacional. Até que ponto o Ocidente permitirá a repressão mubarakiana aos manifestantes que não pedem nada mais que um regime democrático? Em que medida os Estados podem facilitar uma transição baseada no diálogo entre governo e população? Essas são reflexões que a população  ocidental deve formular, reflexões direcionadas para a ação.

Por outro lado, não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que o silêncio dos principais líderes globais não tem um objetivo político e econômico. Afinal, quais são os reais interesses de Washington? Para  o brilhante economista Michel Chossudovsky, há uma agenda oculta por trás da decisão de Mubarak em não renunciar, pautada nos interesses de investidores institucionais, comerciantes de divisas e especuladores (veja seus claros argumentos neste artigo).

Apesar da inspiração democrática de Barack Obama, existem interesses maiores por trás que conduzem a política externa estadunidense para outro sentido. Infelizmente, ele não tem voz e poder suficiente para coordenar a diplomacia de seu país. Seu único acerto foi afirmar que "o que acontece do outro lado do mundo afeta nossas vidas diretamente". De fato, o que está acontecendo no norte da África trará conseqüências para o mundo todo em termos políticos.

Mesmo que o efeito não seja imediato, a revolta egípcia representa tudo aquilo que os cidadãos tem lutado e que os governantes tem temido: democracia, o poder soberano do povo. Num excelente artigo sobre o tema, John Pilger - renomado jornalista australiano radicado em Londres - esclarece que o protesto pró-democracia desacreditou todos os estereótipos da mídia do Ocidente acerca dos árabes. O mundo agora sabe o que é possível quando se tem coragem, determinação e um objetivo em comum. Para Pilger, o levantamento no Egito é o nosso teatro dos possíveis.

É preciso conscientizar o povo (e nós somos o povo, não é mesmo?) da potencialidade de seu empoderamento. Um exemplo que pode ilustrar isso é o que me ocorreu num restaurante da rua Frei Caneca na semana passada. Ao servir meu prato, o funcionário olhou para a televisão e me disse em tom jocoso: "Esse pessoal aí devia trabalhar ao invés de ficar fazendo protesto, quebrando tudo nas ruas. Eles não tem o que fazer, não?". Eu olhei bem para seus olhos e disse com ar de seriedade: "A questão não é tão simples assim. Esse povo tem sido oprimido há 30 anos. Imagine você, vivendo num país sem liberdade, sem emprego, sem educação, com um governo corrupto. Eles estão certos. O povo tem que exigir uma vida digna". Ele então anotou o valor do meu prato, pensou por um tempo e me respondeu, já com um novo espírito: "É verdade, né? A gente tem o poder de mudar tudo. É só a gente se unir. Se a gente quiser, a gente vira esse país de cabeça pra baixo". Eu então respondi sorrindo: "É isso mesmo. Nós temos o poder, não eles".

Estou errado?

4 comentários:

prisci disse...

POWER TO THE PEOPLE!

Leli disse...

maneiro terminar um poste com um bate-papo com um garçon! imaginei a cena tipo propaganda de eleições, manja? aquele cara ator, de garçon, em sampa, sorrindo por detras da prancheta: "é mesmo né?". haha
muito bom o post, rafa. continue assim!! saudades, mestre!

Rafael A. F. Zanatta disse...

Sobre a postura de Obama e do governo estadunidense, confiram a entrevista de Noam Chomsky, professor do MIT: "Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome".

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17391

pretos disse...

Lógico que os EUA estão preocupados, sem um ditador no poder eles perdem o domínio do petróleo, assim como foi na Venezuela e Bolívia.

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